SAÚDE

Entenda o surto de hantavírus em cruzeiro e o alerta da OMS ao Brasil

Navio segue isolado com mortes sob análise e presença de variante rara do vírus; Brasil já registrou casos anteriores ligados ao contato com roedores em áreas rurais

O surto no navio MV Hondius já deixou três mortos e pelo menos oito pessoas entre casos confirmados e suspeitos. -  (crédito:  AFP)
O surto no navio MV Hondius já deixou três mortos e pelo menos oito pessoas entre casos confirmados e suspeitos. - (crédito: AFP)

Um surto raro do hantavírus, ainda em investigação, mobiliza autoridades de saúde internacionais após três mortes e casos registrados a bordo de um navio que cruzava regiões do Atlântico Sul. Transmitido pelo contato com secreções de roedores infectados, o episódio envolve uma variante incomum do vírus e levanta preocupação pela possibilidade de transmissão entre pessoas.

A embarcação envolvida é o navio de expedição MV Hondius, que saiu de Ushuaia, no extremo sul da Argentina, em 1º de abril, com 174 pessoas a bordo. O trajeto incluía destinos remotos como a Antártica e ilhas do Atlântico Sul, locais com grande distância entre os portos.

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Os primeiros sinais de alerta surgiram ainda durante o percurso. Em 11 de abril, um passageiro holandês de 70 anos morreu após apresentar sintomas respiratórios graves. O corpo foi desembarcado em 24 de abril na ilha de Santa Helena. Poucos dias depois, sua esposa, de 69 anos, também adoeceu e morreu em um hospital na África do Sul durante o retorno. No último sábado (2/5), uma passageira alemã que havia desenvolvido febre e pneumonia morreu a bordo, tornando-se a terceira vítima. No mesmo período, um britânico de 69 anos foi evacuado para Joanesburgo, onde exames confirmaram a presença da cepa Andes do hantavírus.

Até agora, autoridades de saúde espanholas, sulafricanas e holandesas apontam a existência de três casos confirmados e cinco suspeitos, além das três mortes já registradas. O navio chegou a permanecer isolado próximo a Cabo Verde, mas o país não tinha estrutura para conduzir a operação sanitária. A Espanha aceitou receber o MV Hondius nas Ilhas Canárias, onde os passageiros e tripulantes passarão por triagem médica e repatriação.

Apesar da gravidade da situação a bordo, a Organização Mundial da Saúde reforça que o risco para a população em geral é considerado baixo e não há recomendação de restrições de viagem neste momento.

O que é o hantavírus e por que esse caso chama atenção

O hantavírus é uma doença viral transmitida principalmente pelo contato com secreções de roedores infectados. A infecção costuma ocorrer quando partículas contaminadas são inaladas, especialmente em ambientes fechados ou com acúmulo de poeira.

O que torna esse episódio diferente é a identificação da chamada cepa andina, encontrada nos casos confirmados do surto. Essa variante é a única conhecida com potencial de transmissão entre humanos, embora isso seja raro e geralmente associado a contato muito próximo e prolongado.

A médica infectologista Heloísa Duarte explica que a cepa andina já foi registrada em surtos anteriores na América do Sul e que, por isso, é essencial reforçar a vigilância epidemiológica em países da região. Ela lembra que não existe vacina contra o hantavírus e o tratamento é apenas de suporte clínico, com cuidados intensivos em casos graves.

Sintomas e evolução da doença

A infecção por hantavírus costuma começar de forma inespecífica. Os sintomas iniciais incluem febre, dor no corpo, cansaço intenso e dor de cabeça. Em alguns casos, também podem surgir náuseas e desconforto abdominal.

Com a progressão da doença, o quadro pode evoluir rapidamente para complicações respiratórias graves, com dificuldade para respirar e acúmulo de líquido nos pulmões. A doutora Heloísa observa que o desafio provavelmente esteja em diferenciar o hantavírus de outras doenças respiratórias comuns, já que os sintomas iniciais são semelhantes. A confirmação depende de exames laboratoriais específicos.

Por que o navio favorece a disseminação

Ambientes como navios de cruzeiro podem facilitar a propagação de doenças por reunirem muitas pessoas em espaços compartilhados. Áreas comuns, circulação constante e convivência próxima aumentam o risco de transmissão de agentes infecciosos.

No caso do MV Hondius, além do ambiente fechado, há o fator isolamento geográfico. A distância de centros urbanos e hospitais dificultou diagnósticos rápidos e limitou o acesso a tratamento especializado. Esse contexto criou um cenário mais sensível, já que em ambientes confinados qualquer doença infecciosa pode se espalhar com mais facilidade.

Fora de situações como a do navio, a transmissão do vírus ocorre principalmente em áreas rurais. 

O alerta ao Brasil e o que se sabe até agora

Embora o surto esteja restrito ao navio, o caso obteve um alerta para países da América do Sul, onde a cepa andina já circula. O Brasil está incluído nesse monitoramento, principalmente por já registrar casos da doença em seu território. O último caso confirmado no Brasil foi em 2024, em Mato Grosso, em área rural ligada ao contato com roedores.

A infectologista reforça que o momento é de atenção, não de alarme. O risco para a população em geral continua baixo, mas é importante manter a vigilância e informar bem as pessoas sobre prevenção e sintomas.

Especialistas em virologia destacam que o cenário ainda está em investigação e pode sofrer atualizações conforme novos dados forem confirmados, como a análise das mortes em investigação e dos casos suspeitos a bordo. O acompanhamento internacional segue ativo, coordenado pela OMS em parceria com autoridades da Espanha, da África do Sul e da Holanda.

Os passageiros e tripulantes seguem isolados em cabines no navio e aguardam a chegada às Ilhas Canárias, onde passarão por triagem médica e repatriação.

 *Estagiária sob supervisão de Paulo Floro. 

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postado em 06/05/2026 18:57
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