Tensão na Europa

Trump manda tropas, Putin testa mísseis

EUA anunciam envio de 5 mil efetivos e caças "invisíveis" para reforçar a defesa da Polônia, na fronteira com a Ucrânia. Rússia faz teste de mísseis nucleares em conjunto com Belarus, aliada na linha de frente com a Otan

O presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, assiste a exercícios nucleares conjuntos com a Rússia      -  (crédito: Belarusian presidential press service/AFP)
O presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, assiste a exercícios nucleares conjuntos com a Rússia - (crédito: Belarusian presidential press service/AFP)

Estados Unidos e Rússia promoveram movimentos que, embora sem conexão direta e aparente, retratam a tensão elevada que fermenta no leste da Europa desde 2022, quando tropas russas invadiram a Ucrânia. Embora não integre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), bloco militar liderado por Washington, a Ucrânia faz fronteira com a Polônia, integrante da aliança, e Belarus, firme aliada de Moscou. Ppara desconcerto dos sócios, o presidente Donald Trump anunciou na sexta-feira (22/5) o deslocamento de 5 mil militares norte-americanos para bases polonesas da Otan, uma semana depois de ter sinalizado para um desengajamento no continente europeu. Paralelamente, Vladimir Putin e o colega bielorrusso, Alexander Lukashenko, conduziram exercícios conjuntos com mísseis de diferentes raios de alcance, capazes de carregar ogivas nucleares.

O ziguezague de Trump surpreendeu os chanceleres dos países-membros da aliança, reunidos em Helsingborg, na Suécia, e coube ao secretário de Estado Marco Rubio procurar tranquilizar os parceiros. Dias atrás, o presidente havia determinado a saída de 5 mil efetivos da Alemanha, em aparente resposta a críticas do chanceler (chefe de governo) Friedrich Merz à condução da guerra no Irã. Em seguida, cancelou o envio de reforços para a Polônia e adiantou a decisão de reduzir também a tropa mantida à disposição da Otan para situações de emergência.

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"É confuso, realmente, e nem sempre é fácil de se orientar", declarou a ministra sueca das Relações Exteriores, Maria Malmer Stenergard. O secretário-geral do bloco, o ex-permiê holandês Mark Rutte, recebeu com agrado a reviravolta, de olho na reunião de cúpula prevista para julho na capital turca, Ancara. O chanceler da Noruega, Espen Barth Eide, procurou fazer o meio-termo. "O importante é que isso aconteça de maneira estruturada, de forma que a Europa seja capaz de se reforçar quando os EUA reduzirem sua presença", ponderou. "Nada disso é surpreendente, embora eu entenda perfeitamente que possa gerar certa inquietação", respondeu Rubio.

Além de descontente com a reticência dos parceiros da Otan em apoiar efetivamente os EUA na guerra contra o Irã, em particular quanto ao bloqueio naval no Estreito de Ormuz, Trump cobra, desde seu primeiro mandato, maior participação dos demais nos gastos da aliança. "Donald Trump tem mantido uma postura hostil em relação à Europa, e isso ficou claro na última reunião do Conselho da Otan, quando exigiu que aumentassem suas contribuições", disse ao Correio Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais da UnB. "O orçamento anual do bloco é da ordem de US$ 1,5 trilhão, e os EUA pagam quase 60% desse valor."

Cara a cara

Centro nervoso do flanco oriental da Otan, a Polônia recebeu os primeiros três caças norte-americanos F-35, dos mais modernos e evasivos aos radares, de um lote de 32 encomendados em 2020. A chegada dos aviões, somada ao anúncio dos reforços, atende às preocupações do premiê Donald Tusk e do presidente Karol Nawrocki — este, um aliado fiel de Trump. Ambos vêm manifestando inquietação com a movimentação militar russa na vizinha Belarus, e alertam os parceiros da aliança para o risco de que Putin arraste o aliado Lukashenko para uma participação mais direta na guerra da Ucrânia.

O alarme voltou a soar com as imagens do presidente bielorrusso participando, pela primeira vez, de exercícios conjuntos com a Rússia para o uso de armas nucleares estratégicas e táticas. As operações incluíram o lançamento de mísseis balísticos Iskander-M, com capacidade para carregar ogivas atômicas à distância de até 500km. Eles estão armazenados em uma base a menos de 200km da fronteira ucraniana. Lukashenko e Putin ordenaram, juntos, o lançamento de um míssil hipersônico intercontinental Yars, que voou 5.700km em 20 minutos até o alvo designado. 

"A Polônia, desde fevereiro de 2022, recebeu centenas de milhares de ucranianos, por conta do conflito com a Rússia", lembra o professor da UnB. "E tem sido uma porta de entrada e saída para quem quer transitar entre o território europeu e a Ucrânia." Nikolai Mitrokhin, da Universidade de Bremen (Alemanha), chama a atenção para "o desenvolvimento súbito dos acontecimentos, sem razão externa aparente". Estudioso do conflito na Ucrânia, ele acredita que "está em andamento algo de vulto, com significado para a política mundial, incluindo a possível transferência de armas nucleares".

 

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postado em 23/05/2026 05:05
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