Primeiro, Donald Trump voltou a ameaçar o Irã. "Supondo que o Irã concorde em ceder o que foi acordado, o que talvez seja uma grande suposição, a lendária Operação Fúria Épica chegará ao fim, e o altamente eficaz bloqueio permitirá que o Estreito de Ormuz fique aberto a todos, incluindo o Irã", escreveu em sua plataforma Truth Social. "Se não concordarem, os bombardeios começarão e, infelizmente, serão em um nível e intensidade muito maiores do que antes", acrescentou. Pouco depois, o republicano classificou como "muito possível" um acordo com Teerã. "Tivemos conversas muito boas nas últimas 24 horas, e é muito possível que consigamos um acordo", declarou a jornalistas. O outro lado parece mais comedido e menos otimista do que o republicano. Principal negociador do Irã e presidente do Parlamento do país persa, Mohammed Bagher Ghalibaf, acusou Washigton de buscar a rendição de Teerã.
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"O inimigo, em seu novo plano, busca, por meio de um bloqueio naval, de pressão econômica e de manipulação midiática, destruir a coesão do país para nos obrigar a nos render", afirmou, em mensagem de voz publicada em seu canal oficial no Telegram. Porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei tratou de não fechar completamente a porta da diplomacia. "O Irã continua examinando o plano e a proposta americana", esclareceu.
Em meio ao suposto avanço diplomático descrito por Trump, o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, ordenou ao ministro da Defesa, Israel Katz, um ataque contra Beirute. O alvo do bombardeio teria sido Mallek Ballout, comandante da Força Radwan, uma unidade de elite do movimento fundamentalista xiita libanês Hezbollah. Uma fonte confirmou à agência de notícias France-Presse que Ballout está morto. "Os terroristas da Força Radwan são responsáveis pelo fogo contra assentamentos israelenses e por ferimentos em nossos soldados. Nenhum terrorista tem imunidade — a mão de Israel alcançará todo inimigo e assassino", avisou Netanyahu, ao prometer segurança para os moradores do norte de Israel. O líder do Estado judeu garantiu que suas forças estão preparadas "para todos os cenários".
Pesquisador não residente da Defense Priorities Foundation (Fundação Prioridades da Defesa), em Washington, Gil Barndollar afirmou ao Correio não ter ideia dos próximos movimentos de Trump em relação ao Irã. "Acho que ele realmente quer evitar a retomada das hostilidades, dada a reação dos Emirados Árabes Unidos aos ataques", explicou. Magnatas do país árabe condenaram a política belicista da Casa Branca em relação a Teerã e alertaram para o risco de Trump arrastar todo o Oriente Médio para a guerra. Barndollar se disse cético sobre a possibilidade de o regime iraniano aceitar um acordo em que se comprometa a abandonar o enriquecimento de urânio, atividade crucial do programa nuclear de Teerã.
Estratégia
Para Cristina Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o comportamento de Trump reflete a tentativa de separar a negociação com os aiatolás de tratativas políticas. "Ele usa o comportamento errático para mostrar que existe uma parte do Irã que deseja conversar e outra parte que naõ quer. Também vejo uma forma de pressionar a liderança iraniana a tomar decisões mais rapidamente", disse ao Correio. A estudiosa vê uma diplomacia quadrangular entre EUA, Paquistão, Rússia e China para pressionar o Irã. "Washington fala com Teerã por meio desses atores, e Pequim exerce pressão sobre o regime iraniano. É uma tentativa de forçar a mão para ver se as coisas ficam mais favoráveis ao Trump."
Ainda segundo Pecequilo, Trump buscará garantias de que o Irã interromperá a produção de urânio enriquecido e deixará de investir na bomba atômica. "Essa questão está fora de negociação. Se os Estados Unidos cederem ao Irã nesse aspecto, significaria uma imagem de derrota muito forte para o presidente Trump, e ele não aceitaria isso."
EU ACHO...
"Não creio que Trump aceitará algum acordo que não considere a questão nuclear de imediato. Até porque foram divulgadas informações de que não haveria uma realidade de interrupção em definitivo do programa nuclear iraniano, mas apenas um atraso. Isso permitiria que o Irã conseguisse a arma nuclear em um ano."
CRISTINA PECEQUILO, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
