A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã completa 10 semanas com as ações militares e os esforços de negociação concentrados (e enredados) no estratégico Estreito de Ormuz, passagem marítima obrigatória para 20% do petróleo negociado nos mercados globais. Escaramuças se sucedem diariamente entre forças dos dois países, enquanto Washington aguarda a resposta de Teerã a uma proposta de acordo de paz enviada via Paquistão.
Entre confrontos e ameaças, e com um bloqueio naval recíproco em vigor, as cotações internacionais do petróleo fecharam a semana novamente acima de US$ 100 por barril. E os EUA voltam a pressionar os aliados europeus para que ajudem a liberar Ormuz, enquanto o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, acusa o adversário de promover "aventuras irresponsáveis sempre que uma proposta de solução diplomática está sobre a mesa".
Pelo segundo dia seguido, ambas as partes anunciaram na sexta-feira (8/5) incidentes na região do estreito. O Comando Central (CentCom) dos EUA noticiou a "neutralização" de dois petroleiros de bandeira iraniana que se dirigiam, vazios, para portos no litoral do Mar de Omã. Em Teerã, o porta-voz da chancelaria, Esmail Baghaei, disse que unidades da Guarda Revolucionária reagiram à "flagrante violação" do cessar-fogo bilateral em vigor desde 8 de abril e "deram um forte tapa no inimigo". O chanceler Araghchi, que seguia estudando a oferta norte-americana para a paz, questionou "a seriedade" de Washington no processo de negociações, ao comentar as escaramuças em pleno cessar-fogo: "Isso é alguma tática bruta de pressão ou querem colocar o presidente Donald Trump em um atoleiro?"
"Bomba atômica"
Encerrando uma viagem à Europa, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, voltou a cobrar um compromisso efetivo dos aliados com a segurança da navegação comercial marítima no Estreito de Ormuz. Em razão do bloqueio iraniano, cerca de 2 mil navios estão retidos no Golfo Pérsico desde os primeiros dias do conflito. No início da semana, o regime islâmico anunciou novos regulamentos para o tráfego, incluindo a cobrança de taxas.
"O Irã agora alega ser dono de uma hidrovia internacional, diz que tem o direito de controlá-la", protestou, em entrevista coletiva após reunir-se com a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Isso é inaceitável. O que o mundo está disposto a fazer a respeito?", desafiou. "Vamos aceitar que eles controlem uma via de navegação internacional?" Sobre o processo de negociações, Rubio confirmou que aguardava uma manifestação do Irã. "Espero, realmente, que venham com uma oferta séria".
Como se respondesse a Rubio, um assessor do aiatolá Mojtaba Khamenei, novo líder supremo da República Islâmica, comparou o bloqueio do estreito a uma arma nuclear à disposição do país. "Durante anos, negligenciamos o privilégio do Estreito de Ormuz. Ele representa uma oportunidade tão valiosa quanto uma bomba atômica", declarou Mohammad Mokhber. "Ter em nossas mãos uma posição que nos permite influenciar a economia mundial com uma única decisão é uma oportunidade significativa", completou.
Escolta suspensa
A retomada de ações militares em Ormuz, embora não tenha decretado o fim do cessar-fogo, voltou a provocar instabilidade nos mercados de petróleo e a inquietar investidores e setores econômicos ligados mais diretamente aos preços dos combustíveis. A semana havia começado com expectativas em torno do Projeto Liberdade, operação anunciada por Trump para oferecer escolta da Marinha norte-americana a companhias dispostas a retirar seus navios retidos no Golfo Pérsico. A iniciativa foi suspensa bruscamente, na noite de terça-feira, depois de uma troca de ataques na via marítima.
Na ocasião, o presidente norte-americano justificou a decisão em nome de "progressos" na frente diplomática. Na quinta-feira, porém, fontes de seu próprio governo revelaram à imprensa que o recuo se deveu à recusa da Arábia Saudita e do Kuwait a permitir o uso de seu espaço aéreo e das bases mantidas pelos EUA em seu território. Nos dias anteriores, o Irã havia bombardeado instalações petrolíferas nos Emirados Árabes Unidos, uma das petromonarquias do Golfo mais próximas a Washington.
"Eles foram punidos e serão punidos ainda mais", confirmou o assessor do aiatolá Khamenei. "Sempre alegaram que seu país era um porto seguro para investimentos, mas hoje estamos testemunhando a maior fuga de capitais de lá", completou Mohammad Mokhber.
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