Encontro de cúpula

Em encontro com Trump, Xi afina o tom da relação entre EUA e China

Entre amabilidades e honrarias, presidente chinês apresenta ao mundo uma potência que recebe Trump de igual para igual e avisa: deslize em Taiwan pode colocar Washington e Pequim em conflito

Donald Trump embarca de volta para os Estados Unidos, na sexta-feira (15/5), ao fim de dois dias de uma visita de Estado em que foi recebido na China com cerimonial requintado e amabilidades retóricas, mas leva na bagagem duas ordens de mensagens entregues em público pelo colega Xi Jinping. No terreno das aparências e formalidades, o anfitrião esmerou-se em apresentar ao mundo a imagem do encontro entre duas potências mundiais em condição de igualdade. Mais diretamente, advertiu o visitante de que não aceita interferências externas a respeito de Taiwan, que o regime comunista de Pequim considera parte inalienável do país, e um tratamento inadequado para o impasse pode colocar os dois países "em conflito".

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Um encontro para o chá, seguido por almoço no complexo reservado à alta cúpula do Partido Comunista, honraria reservada a bem poucos chefes de Estado, encerrou pela manhã de hoje (noite de quint-feira), em Brasília) a agenda entre Trump e Xi. Na noite anterior, o presidente chinês se alternou entre afagos e advertências no jantar de gala oferecido ao colega norte-americano.

"Ambos acreditamos que a relação entre China e Estados Unidos é a mais importante relação bilateral do mundo", discursou o anfitrião no brinde com o qual abriu a solenidade. "Devemos fazer com que ela funcione, e nunca atrapalhar seu andamento", observou. Adiante, Xi não se furtou a ressaltar o lugar ocupado por Taiwan, que desde a vitória comunista na guerra civil, em 1949, é governada por dissidentes e conta com apoio dos EUA. "É o tema mais importante entre nós. Se for mal conduzido, as duas nações podem ter um choque, ou mesmo entrar em conflito, o que nos empurraria para uma situação muito perigosa."

Novo patamar

"O encontro de Pequim parece, mais do que um recomeço total, a tentativa de criar um novo sistema operacional para uma coexistência competitiva", disse ao Correio Jing Qian, cofundador do Centro para Análise sobre a China, ligado ao think tank Asia Society. "O ponto importante é que as leituras de uns e outros usam linguagens políticas muito distintas, mas não apontam para direções completamente opostas."

Wenran Jiang, professor da Universidade de Alberta, no Canadá e conselheiro do Instituto para Paz e Diplomacia, associa o tom de cada um dos presidentes — com Trump limitando-se a exaltar a "grandeza" da China e a "liderança" de Xi — ao impasse da Casa Branca na guerra que iniciou contra o Irã, hoje aliado de peso para Pequim. "Nos últimos meses, o tabuleiro da geopolítica oscilou de maneira dramática", analisa. "Pela primeira vez em décadas, são os EUA que se veem em posição profundamente vulnerável, de crescente dependência em relação à ajuda da China para sair de um desastre em que se meteram sozinhos."

"Os EUA não conseguiram até o momento atingir os seus objetivos na guerra do Irã", concorda o professor de relações internacionais da UnB Roberto Goulart Menezes, doutor em ciência política. Ele lembra que a China, ao contrário dos EUA, tem interesse na solução do conflito, em particular no fim do bloqueio no Estreito de Ormuz, vital para seu suprimento de petróleo. "Daí que Trump pede a Xi que pressione o regime iraniano para abrir totalmente o estreito. O fato é que a China não quer se envolver na questão para impor uma derrota ao Irã."

John Delury, pesquisador sênior para relações EUA-China no Asia Society, classifica as cenas e palavras da visita de Trump a Pequim como "uma mudança histórica". "A ascensão inevitável da China a uma posição na qual rivaliza de maneira legítima com os EUA é algo que está se desenrolando diante dos nossos olhos", ressalta. "Hoje, Pequim é a segunda capital do mundo."

Agenda econômica

Em contraste com as advertências sobre Taiwan e as reticências sobre o Irã, o presidente chinês reservou, além das amabilidades, palavras positivas no terreno econômico e comercial, sob o lema de "estabilidade estratégica construtiva". "A mensagem é clara: da perspectiva de Pequim, EUA e China podem desfrutar de relações mais amenas desde que a questão de Taiwan não pressione", diz Wendy Cutler, que já exerceu interinamente o posto de Representante Comercial da Casa Branca. "Não é surpresa que o presidente Trump não tenha mencionado o assunto em seu brinde, no jantar de gala", observa. "Em vez disso, colocou o foco em acesso a mercados, investimentos e o interesse comum no Estreito de Ormuz."

 

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Três perguntas para

Roberto Goulart Menezes, professor de relações internacionais da UnB

Pode-se dizer que a China trata a visita de Trump de maneira a apresentar-se como uma potência mundial de primeira classe?
Não diria que o presidente Xi Jinping usaria uma visita de Trump, em sua própria casa, para se apresentar como um potência global. Isso acirraria a disputa entre eles, além de atiçar os EUA na sua cruzada anti-China. Creio que, na disputa comercial de 2025, Xi marcou a posição da China de que não aceita as arbitrariedades dos EUA.

Em que medida se pode considerar a gravidade da advertência pública feita aos EUA sobre a Taiwan?
A China nunca aceitou discutir o status de Taiwan senão como uma ilha rebelde. Mas o fato é que, nos últimos 20 anos, a China conquistou um aparato de defesa que impõe dissuasão a qualquer tentativa de independência de Taiwan. Xi reafirmou aos EUA que a independência da ilha é inegociável.

Deve-se esperar, como saldo dessa cúpula, algum tipo de declaração conjunta mais abrangente sobre comércio e novas tecnologias?
A primeira vez que Trump se reuniu com Xi foi em 2017. De lá para cá, muita coisa mudou. Trump dá continuidade à política dos EUA de bloquear ou retardar a liderança tecnológica chinesa. Assim, o que Xi busca é assegurar que o acerto da disputa entre China e EUA não saia dos trilhos.