Menos de uma semana depois de deixar a China com uma advertência ao governo de Taiwan para que "não declare independência", uma declaração sob medida para agradar o regime comunista de Pequim, Donald Trump acenou nesta quinta-feira (21/5) para a ideia de conversar — por telefone — com o presidente da ilha, Lai Ching-te. Um dos temas centrais deve ser um pacote de US$ 14 bilhões em equipamento militar norte-americano cuja venda foi aprovada pelo Congresso, mas depende da sanção do presidente. O governo chinês respondeu prontamente, lembrando que o assunto foi discutido por Trump com o colega Xi Jinping, durante a visita, e que Pequim "se opõe firmemente a contatos oficiais" entre Washington e Taipé.
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"Vou falar com ele, eu falo com todo mundo", respondeu Trump aos jornalistas, na Casa Branca, quando questionado sobre a disposição de discutir com Lai o pacote de material bélico, que incluiria mísseis de defesa antiaérea e sistemas contra drones. Caso se confirme, a conversa será a primeira em 47 anos entre um presidente dos EUA no exercício do mandato e um líder taiwanês. Em 1979, Washington reconheceu formalmente o governo de Pequim como único representante do país, e desde então mantém com Taipé apenas relações comerciais. O próprio Trump chegou a falar por telefone com o presidente de Taiwan em 2016, como presidente eleito, antes de tomar posse no primeiro mandato.
Lai reagiu à notícia afirmando que ficaria "feliz em discutir as questões com o presidente Trump". Visto pela China como partidário da secessão, o presidente taiwanês garantiu que seu governo está comprometido "em manter o status quo no Estreito de Taiwan", e acusou o regime comunista do continente de "perturbar a paz e a estabilidade".
O porta-voz da chancelaria chinesa, Guo Jiakun, respondeu aos acenos de Trump aconselhando a Casa Branca a "parar de enviar sinais equivocados às forças separatistas". Invocou os dois dias de discussões entre o presidente norte-americano e o colega Xi Jinping, na semana passada, e reforçou a mensagem. "A China insta os EUA a aplicarem o importante consenso alcançado", declarou à imprensa.
Jogo duplo
O professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM, não vê no aparente ziguezague mais uma manifestação da política externa errática que os observadores atribuem a Trump, mais ainda nesse segundo mandato. "É uma postura calculada para não parecer que está cedendo aos interesses chineses, e isso é voltado para o público interno", disse, em entrevista ao Correio. "Ao mesmo tempo, ele deixa claro que não vai aceitar a independência de Taiwan, e isso é fundamental para a China."
É semelhante a análise de Juliano Cortinhas, professor da mesma cadeira na UnB. "Trump está jogando de acordo com a lógica dele, que tem sido baseada em forçar uma situação e depois voltar atrás", explica. Ele observa que o presidente dos EUA parece "se fazer de irracional e imprevisível para deixar a outra parte perdida, e a partir disso tentar alcançar o maior ganho possível". Por isso, complementa, "ele vai à China, promete que vai deixar de apoiar Taiwan e depois oferece um pacote de ajuda militar". Com isso, "irrita Pequim, provoca uma reviravolta nas relações, força a mão de novo e tem um ganho maior".
O professor da UnB pondera que essa abordagem, no entanto, "só funciona para quem tem muito poder nas mãos e muita capacidade de impor sua vontade", o que não corresponderia a sua condição atual. "Os EUA são um país muito pressionado, passando por uma crise econômica, com eleições legislativas pela frente e Trump com a popularidade extremamente baixa." Em linha semelhante, o estudioso da ESPM lembra que o pacote de US$ 14 bilhões em armas "é um ponto de atrito importante" na agenda bilateral. "Isso pode ter alguma reação por parte de Pequim, que está se sentindo mais confiante para reagir às ações de Washington."
