Informações desencontradas sobre um acordo inicial entre Estados Unidos e Irã se sobrepunham, nesta quinta-feira (28/5), à troca de ataques pontuais entre as partes e apontavam um possível caminho para a solução do conflito iniciado em 28 de fevereiro — e mantido em banho-maria desde 8 de abril, quando entrou em vigor um cessar-fogo. De acordo com fontes dos EUA, a base do entendimento seria a prorrogação da trégua por 60 dias, sobre a base da reabertura do Estreito de Ormuz para a navegação comercial, principalmente de petroleiros, e o início de negociações sobre o programa nuclear iraniano.
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Na versão que transpirou de Washington, o acerto dependeria da chancela do presidente Donald Trump. De Teerã, no entanto, o que saiu foi um desmentido da notícia, veiculada inicialmente pelo portal norte-americano Axios. Desde o início da semana, as duas partes alternam iniciativas diplomáticas e militares — as primeiras, sigilosas; as outras, ostensivas. O Comando Central (CentCom) dos EUA, que responde pelas operações militares no Oriente Médio, anunciou ter atacado alvos militares no litoral sul do Irã, na terça-feira (26/5). Nesta quinta-feira (28), foi a vez de a Guarda Revolucionária iraniana informar sobre um bombardeio à base norte-americana de onde teria partido o ataque, situada no Kuwait.
Foi na sequência dessas escaramuças que emergiram as versões sobre o acordo-quadro — uma espécie de rascunho — que teria sido costurado em negociações indiretas, com mediação do Paquistão e do Catar. Elas se somam a indicações partidas na véspera, de Teerã. O entendimento envolveria entre cinco e 14 pontos, segundo as diferentes fontes, versando sobre questões que variam desde o tráfego marítimo por Ormuz até o programa nuclear, passando pela retirada das forças norte-americanas da região e pelo levantamento das sanções econômicas e diplomáticas impostas por Washington à República Islâmica, unilateralmente.
Na quarta-feira (27), ao fim de uma reunião de planejamento estratégico com seu gabinete, Trump teria descartado, em termos categóricos, qualquer concessão ao Irã nesse terreno. "Não estamos falando sobre alívio das sanções ou de dar dinheiro a eles", teria dito o presidente, segundo revelaram fontes com acesso às discussões. "Nem sanções, nem dinheiro: vamos manter o controle sobre esses fundos, e entregaremos quando eles se comportarem adequadamente — mas por enquanto não é como estão se portando."
Atoleiro
O professor Roberto Goulart Menezes, titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB, localiza nos "objetivos amplos demais" fixados para a guerra o principal obstáculo do presidente norte-americano para sair dela, a cinco meses de uma eleição legislativa crucial para a segunda metade do mandato. "Trump corre contra o tempo para tirar do horizonte essa guerra, que já causou o aumento dos preços dos combustíveis e do custo de vida nos EUA", disse ao Correio. "O fechamento do Estreito de Ormuz aumentou o preço dos combustíveis, nos EUA e no mundo. E o Irã descobriu que tem o poder de fato sobre Ormuz", avalia. "Para dobrar o regime islâmico, os EUA teriam de levar tropas para território iraniano, e isso poderia ser como o atoleiro de George W. Bush no Iraque."
"O estrago para a eleição de novembro nos EUA está feito", concorda o professor de relações internacionais Juliano Cortinhas, também da UnB. "Ninguém nos EUA entendeu essa guerra, e a queda de popularidade do Trump parece irreversível, porque está atrelada também ao mau desempenho do governo nos assuntos domésticos", completa. O estudioso vê nas negociações em andamento "um sinal de que ele está aceitando os limites impostos pela reação iraniana e pela capacidade do regime islâmico para se defender e contra-atacar".
Cortinhas observa, no entanto, que o presidente norte-americano foi "arrastado para o conflito" pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu — que, como o aliado, tem pela frente uma eleição arriscada. "Não vejo um acordo de paz com o Irã como solução de longo prazo para o Oriente Médio", pondera o professor da UnB. "Se eu fosse apostar em um cenário para o futuro da região, seria de ainda mais instabilidade — até que Netanyahu e Trump saiam do poder."
O colega do Irel/UnB, aponta a prorrogação indefinida do cessar-fogo, como contemplada nas conversações em curso, como opção para a Casa Branca, mas vê o regime islâmico em posição mais favorável para protelar um acordo definitivo. "O Irã sabe que a guerra é ilegítima nos EUA, não tem o aval do Congresso, e mesmo uma parte dos republicanos, eleitores de Trump, é contra ela", resume Menezes.
Israel avança sobre Gaza
O Exército de Israel recebeu ordens do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para assumir o controle de 70% do território palestino da Faixa de Gaza, decisão que contraria frontalmente os termos do cessar-fogo firmado em outubro de 2025 com o movimento islâmico Hamas. O acordo deveria pôr fim a dois anos de uma guerra iniciada pelos ataques dos islamistas ao sul israelense, em 7 de outubro de 2023, com saldo de mais de 1.300 mortos. O revide deixou 72 mil vítimas do lado palestino, e apesar da trégua novos ataques se sucedem quase diariamente.
"Estamos com o Hamas nas cordas", afirmou Netanyahu, acrescentando que suas tropas controlam atualmente 60% de Gaza, um aumento em relação aos 50% dominados antes da entrada em vigor do cessar-fogo. "Minha ordem é avançar para 70%", declarou o premiê em uma entrevista coletiva na Cisjordânia — outro território palestino ocupado desde 1967, e atualmente palco de uma onda de violência por parte de colonos israelenses contra a população árabe.
Israel e Hamas acusam-se mutuamente de violar o cessar-fogo. A primeira fase da trégua, negociada sob pressão dos Estados Unidos, permitiu a libertação de reféns israelenses mantidos em Gaza em troca de palestinos mantidos em prisões israelenses. A etapa seguinte previa o desarmamento do Hamas e a retirada gradual das forças israelenses — um avanço que, há semanas, parece improvável de se concretizar.
De acordo com os termos do acordo, Israel deveria recuar para aquém da chamada "linha amarela", que delimitava a área ainda sob controle do Hamas. Já no último dia 15, porém, Netanyahu havia anunciado a expansão do domínio israelense para 60% de Gaza.
Na área sob autoridade do Hamas, mais de 2 milhões de palestinos vivem em condições de superpopulação, em uma situação considerada "catastrófica" por diversas ONGs humanitárias, que acusam Israel de não cumprir as obrigações assumidas nos entendimentos.
