A designação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como entidades terroristas internacionais pelo Departamento de Estado norte-americano, nesta quinta-feira (28/5) marcou a maior derrota do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na sua relação com o governo do presidente Donald Trump desde a imposição do tarifaço, em 2025.
Foi uma batalha que demorou mais de um ano, com idas e vindas de lado a lado e que, neste momento, parece ter sido vencida pelo grupo político agora liderado pelo senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O governo brasileiro era contra a medida. O principal argumento era de que ela poderia colocar em risco a soberania nacional ao abrir espaço para ações militares norte-americanas sob o pretexto de combate ao terrorismo.
O governo também alegava que a medida iria contra a legislação brasileira que faz uma distinção entre as atividades praticadas por facções criminosas e o terrorismo.
Do outro lado, o grupo liderado por Flávio Bolsonaro vinha defendendo publicamente a medida há mais de um ano apontando a posição contrária do governo Lula à designação como uma suposta demonstração de conivência da administração petista com o crime organizado.
A decisão, aliás, veio um dia depois de Flávio Bolsonaro ter encerrado uma viagem para Washington, onde se encontrou com o presidente Donald Trump, o vice-presidente J.D. Vance e com o secretário de Estado, Marco Rubio.
O governo brasileiro nunca havia considerado o assunto totalmente superado dentro da administração Trump dado o que assessores de Lula classificam como imprevisibilidade do presidente norte-americano.
Apesar disso, a BBC News Brasil apurou que a decisão dos EUA pegou de surpresa até mesmo diplomatas que acompanhavam parte das conversas entre os dois países sobre o assunto.
Durante sua passagem pelos Estados Unidos, Flávio disse ter defendido, para toda a equipe de Trump, que o país tomasse a medida contra as organizações criminosas brasileiras.
Antes da viagem de Flávio, interlocutores do presidente Lula afirmavam, em caráter reservado, que o governo interpretaria um anúncio da administração Trump considerado negativo como uma possível ingerência no processo eleitoral do Brasil e que o governo responderia a exemplo do que aconteceu durante o tarifaço em 2025.
Resposta brasileira
A BBC News Brasil apurou que o governo brasileiro pretende modular a resposta à medida adotada pelos EUA para evitar um desgaste ainda maior junto ao público interno a poucos meses das eleições.
A resposta oficial do governo só deverá sair a partir de amanhã, após reuniões internas.
As reuniões vão incluir integrantes do Ministério das Relações Exteriores e da Presidência e há possibilidade de que outras pastas façam parte do debate, como a da Fazenda.
Na resposta, o governo deverá defender medidas adotadas recentemente contra o crime organizado e afirmar que o país estaria aberto a cooperação internacional no combate às facções.
Um integrante do governo ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que o governo reconhece que a decisão dos EUA foi resultado da ação da ala bolsonarista com acesso ao governo norte-americano.
A interpretação é que a ala bolsonarista teria atuado para criar um constrangimento ao governo, levando a administração petista a se manifestar contra a medida para depois ser criticada por supostamente defender facções criminosas.
Ele disse ainda que um dos aspectos que mais estaria preocupando o governo são os possíveis impactos da medida junto ao sistema financeiro brasileiro. O governo teme que empresas ou bancos brasileiros possam ser sancionados por conta de eventuais vínculos comerciais ainda que involuntários com essas facções.
A BBC News Brasil procurou o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e o Palácio do Planalto, mas não recebeu resposta até o momento.
Cronologia da derrota
A ideia de adotar sanções contra organizações criminosas brasileiras como o PCC e o CV como entidades terroristas vinha sendo estudada pelo governo norte-americano há vários anos.
Em 2021, por exemplo, a Secretaria do Tesouro incluiu o PCC como uma entidade designada, uma classificação que permite impor sanções aos seus integrantes ou a empresas que mantivessem negócios com a facção.
Mas o plano de designar PCC e CV como entidades terroristas ganhou força, de fato, após o início do segundo mandato de Donald Trump, em 2025.
O plano vinha sendo discutido internamente pela área técnica do Departamento de Estado, com auxílio de oficiais da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
Entre o final de 2025 e o início de 2026, o Departamento de Estado enviou assessores ao Brasil que se reuniram com promotores brasileiros especializados no combate ao crime organizado para obter mais informações sobre o assunto.
Maio de 2025
Em maio de 2025, por exemplo, o governo norte-americano enviou o então chefe interino da estratégia de sanções do Departamento de Estado ao Brasil, David Gamble, e o assessor Ricardo Pitta.
Pitta chegou a se reunir com a família Bolsonaro e, segundo o senador Flávio Bolsonaro, já naquele momento, a família defendeu a designação do PCC e do CV como organizações terroristas.
O movimento foi monitorado pelo governo brasileiro que, já naquela época, via essa possibilidade como uma possível interferência norte-americana na política brasileira de combate ao crime organizado.
Julho de 2025
Em julho de 2025, quando Trump impôs o tarifaço sobre produtos brasileiros, a expectativa na diplomacia brasileira era de que a medida sobre facções brasileiras poderia ser adotada naquela época, o que acabou não ocorrendo.
O governo Lula, por sua vez, tentou desmontar o discurso pró-designação adotando um discurso de que a classificação das facções como organização terrorista não seria efetiva no combate ao crime organizado.
Em setembro de 2025, por exemplo, Lula criticou a possível medida em seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).
"É preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terrorismo. A forma mais eficaz de combater o tráfico de drogas é a cooperação para reprimir a lavagem de dinheiro e limitar o comércio de armas. Usar força letal em situações que não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento", disse Lula em uma referência a ataques que vinham sendo feito pelos Estados Unidos a embarcações na costa de países latino-americanos como Venezuela e Colômbia.
O assunto continuou a ser discutido em Washington.
Março de 2026
A possibilidade de designação continuou a ser estudada pelo Departamento de Estado até que, no dia 8 de março deste ano, o portal UOL revelou que o governo norte-americano estava prestes a adotar a medida.
A notícia fez com que o governo brasileiro montasse uma espécie de "operação de emergência" para impedir a adoção da medida.
Naquele mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou por telefone com Marco Rubio sobre o assunto.
Dois dias depois, no dia 10 de março, um porta-voz do Departamento de Estado divulgou uma nota reiterando que o governo norte-americano considerava as duas facções como ameaças ao país.
"Os Estados Unidos consideram as organizações criminosas do Brasil — incluindo o PCC e o CV — como ameaças significativas à segurança regional, devido ao seu envolvimento no tráfico de drogas, na violência e no crime transnacional", dizia o texto.
Lula passou então a defender, de forma ainda mais ostensiva, que os Estados Unidos cooperem com o Brasil no combate ao crime organizado como alternativa à designação.
Ao mesmo tempo, os governos dos dois países discutiam propostas de cooperação nessa área.
No dia 13 de março, o jornal Folha de S. Paulo revelou que os EUA haviam enviado um plano ao Brasil em que pediam que o país adotasse medidas para extinguir o PCC e o CV.
Nas semanas que se seguiram, o esforço da diplomacia brasileira parecia ter surtido efeito e a designação não veio.
Maio de 2026
O assunto, no entanto, voltou à tona nesta semana durante a visita de Flávio Bolsonaro a Washington.
Ele se encontrou com o presidente Trump, seu vice, J.D. Vance e com Marco Rubio.
Nos encontros, disse Flávio, ele defendeu a designação do PCC e do CV como organizações terroristas.
"Batemos de novo na mesma tecla de que os Estados Unidos deveriam classificar, sim, CV e PCC como organizações terroristas. Dissemos que, se Deus quiser, a partir de 2027, o Brasil vai ser um aliado no combate ao crime organizado, diferente do atual governo, que parece proteger esses marginais", disse Flávio após o encontro com Marco Rubio, na quarta-feira.
Segundo ele, Rubio teria parecido até mais favorável à proposta que Trump.
Antes da viagem de Flávio, interlocutores do presidente Lula diziam que, ainda que o governo tivesse conseguido se aproximar de Trump nos últimos meses, inclusive com uma visita ocorrida há menos de um mês, a administração petista tinha a convicção de que diversos setores do governo norte-americano têm uma preferência clara pela candidatura de Flávio Bolsonaro em relação à de Lula.
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