Oriente Médio

Com agenda de guerra própria, Israel passa de aliado dos EUA para obstáculo

Insistência de Israel em seguir agenda própria na guerra contra o Hezbollah, no Líbano, transforma-se no principal obstáculo, para Trump, na busca de um acordo para encerrar a guerra de desgaste com o Irã

Terra arrasada após bombardeio em subúrbio de Tiro, no sul do Líbano: ofensiva israelense alimenta resistências do Irã e irrita Washington -  (crédito: Kawnat HajuAFP)
Terra arrasada após bombardeio em subúrbio de Tiro, no sul do Líbano: ofensiva israelense alimenta resistências do Irã e irrita Washington - (crédito: Kawnat HajuAFP)

O Departamento de Estado norte-americano recebeu nesta terça-feira (2/6) os embaixadores de Israel e do Líbano em Washington para uma nova rodada de negociações diretas destinadas a encerrar a ofensiva militar israelense no sul libanês — desdobramento da guerra iniciada em 28 de fevereiro pelos EUA e Israel contra o Irã, há três meses. O anfitrião, o secretário Marco Rubio, se disse convencido de que as partes poderiam assinar a paz "já amanhã", não fosse a interferência do movimento xiita libanês Hezbollah. A percepção, no entanto, parece destoar do tom de uma tensa conversa mantida por telefone, na véspera, entre Donald Trump e o premiê Benjamin Netanyahu: de acordo com fontes da Casa Branca, citadas pelo portal norte-americano Axios, o presidente dos EUA teria acusado o aliado de se interpor a um acordo entre Washington e o regime islâmico de Teerã, que impõe um cessar-fogo efetivo no Líbano como condição para o encerramento do conflito.

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"Israel não tem nenhuma reivindicação territorial no Líbano. O Hezbollah é o único obstáculo", afirmou Rubio em audiência na Comissão de Relações Exteriores do Senado. "Sem o Irã, não existiria Hezbollah", explicou. As versões vazadas para o Axios, no entanto, sugerem que Trump vê Israel como um empecilho para pôr fim a um conflito que castiga a economia dos EUA — e do mundo — e projeta dificuldades para o presidente nas eleições legislativas de novembro. "O mundo inteiro odeia você, e por isso odeia Israel", teria dito o presidente ao premiê, no telefonema, segundo o portal. "Você está completamente louco!", teria esbravejado, referindo-se à ampliação da ofensiva israelense no Líbano, incluindo a retomada dos ataques aéreos à capital, Beirute.

"As decisões de Netanyahu sobre a continuidade dos ataques ao Líbano têm prejudicado os interesses dos EUA. Portanto, é um aliado que está se tornando problemático para os interesses do presidente Trump de encerrar a guerra", disse ao Correio o professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM. A escalada de violência entre Israel e o Hezbollah entrou sem rodeios na pauta entre Washington e Teerã no início da semana, quando porta-vozes iranianos anunciaram a suspensão das negociações — indiretas — até que entre em vigor um "cessar-fogo efetivo" no Líbano.

Na noite de segunda-feira, Trump anunciou ter recebido de Netanyahu a garantia de poupar Beirute, ao que a milícia xiita teria respondido com a promessa de cessar as próprias ações militares. "O Hezbollah concordou em deixar de disparar contra Israel e seus soldados. Da mesma forma, Israel concordou em deixar de disparar contra eles. Vejamos quanto isso dura; tomara que seja pela eternidade!", escreveu o presidente norte-americano em sua plataforma, a Truth Social.

Na avaliação do estudioso da ESPM, o premiê israelense, que enfrentará em setembro uma crítica eleição legislativa, opera com objetivos próprios que se estendem para além do Líbano e condicionam as opções dos EUA. "Não é só sobre o Líbano: é em relação a todo o Oriente Médio", explica. "Ao que tudo indica, está se confirmando que essa guerra começou por uma ideia e uma promessa de Netanyahu a Trump, de que o regime iraniano cairia", afirma Rudzit. "A agenda própria de Netanyahu tem feito o governo dos EUA refém no Oriente Médio todo."

Contra o relógio

Cada um com os próprios desafios pela frente, o presidente dos EUA e o premiê de Israel tomam decisões e dão passos com o horizonte nas urnas — mas operam com os relógios em fusos horários distintos. "São os EUA que têm pressa para fechar um acordo de paz", analisa o professor. "Trump tem pressa: quanto mais a guerra perdurar, mais alta vai ser a inflação nos EUA, principalmente nos combustíveis. Estão chegando as férias de verão, os americanos viajam muito de carro, e é certo que isso vai prejudicar o Partido Republicano na disputa pela Câmara dos Deputados."

Rudzit avalia que o Irã, ao contrário, parece ver o tempo correndo a seu favor. "O regime iraniano tem menos pressa, porque não foi derrotado, continua no poder e tem o controle quase total do Estreito de Ormuz: só estão passando navios que o governo de Teerã permite, por serem de países aliados ou pagarem pedágio", avalia. "Do ponto de vista político, eles ganharam essa guerra. Por isso mesmo, não têm a menor urgência em fechar um acordo." 

Não é bom pra os EUA

Juliano Cortinhas, professor de relações internacionais da UnB

A ligação dos Estados Unidos com Israel é muito antiga, vem desde a criação do Estado de Israel, em 1948, e até antes, pela presença dos judeus na formação do povo norte-americano. Há toda uma ligação financeira, comercial, política — são laços muito tradicionais. Uma obra clássica que fala sobre isso é 'O lobby israelense e a política externa dos EUA', de John Measrshimer e Stephen Walt, que traz dados e números a respeito. Descreve a forma como essa construção é feita no dia-a-dia.

Não vejo essa como uma relação saudável para os EUA, em nenhum momento. Eles perdem a capacidade de se posicionarem no Oriente Médio como um país que poderia trazer mais estabilidade para a região. Se eles apoiam Israel, isso compromete a participação do país como um ator que pudesse favorecer essa estabilidade. O problema é que é eles se distanciam cada vez mais disso.

É nesse momento que estamos: os EUA enfraquecidos no sistema internacional, sem grandes condições de atuar para resolver acordos, alcançar a paz. E, ao mesmo tempo, presos a Netanyahu. Então, me parece que Trump é muito mal assessorado. Essa é, hoje, uma relação prejudicial ao interesse nacional dos EUA, que seria muito mais de trazer paz e estabilizar o sistema de relações internacionais.

 

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postado em 03/06/2026 05:50
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