
Morador de Nahariya, cidade costeira situada 30km ao norte de Haifa e a 10km da fronteira libanesa, o empresário e fotógrafo israelense Elroy Worcman, 30 anos, recebeu as notificações de ataque em mensagem enviada pelo celular. Às 22h deste domingo (7/6) pelo horário local (16h em Brasília), ele, a esposa e a filha de um ano e meio correram para o abrigo antibombas, dentro do apartamento. "Vi que havia alarmes de ataques em várias cidades no entorno de Haifa. Ouvimos as explosões. É algo maluco, porque parece que voltamos a um tipo de rotina. Esperávamos que isso ocorresse, porque Israel havia matado um líder do Hezbollah em Beirute", contou ao Correio, por telefone. Ao som de explosões, a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã chegou, neste domingo, ao 100º dia. Pela primeira vez desde 8 de abril, quando começou a vigorar o cessar-fogo no Oriente Médio, o Irã atacou o norte de Israel com mais de 10 mísseis balísticos.
O regime teocrático islâmico acusou o Estado judeu de "cruzar todas as linhas vermelhas" ao bombardear subúrbios do sul de Beirute, um dos redutos do movimento fundamentalista xiita Hezbollah. "O Exército de Israel deve parar seus ataques no sul do Líbano e nos subúrbios e, se ampliar os ataques na região ou responder à ação do Irã, enfrentará hostilidades ainda mais devastadoras e lamentáveis", declarou o general Ali Abdollahi, comandante em chefe das forças armadas iranianas, em pronunciamento transmitido em rede nacional de televisão.
Na tentativa de impedir o colapso da diplomacia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, telefonou para o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para tentar convencê-lo a não retaliar. Em entrevista à emissora Fox News, Trump mandou um recado ao Irã: "O que eu sugiro é o seguinte: vocês lançaram seus mísseis. Isso basta — voltem à mesa de negociações e façam um acordo". Mais tarde, o republicano afirmou ao jornal Financial Times que Netanyahu não terá "nenhuma escolha" a não ser aceitar um acordo com o Irã. "É uma daquelas coisas que tem ocorrido há 3 mil anos, ou 47 anos, dependendo de como você contar", disse, em menção à Revolução Islâmica de 1979, quando o regime dos aiatolás ascendeu ao poder.
Além da pressão de Trump, Netanyahu sofreu críticas internas. O ex-primeiro-ministro Naftali Bennett disse que este é "o momento da verdade" e defendeu uma ação contundente e eficaz de Israel. "Nesta noite, Teerã deve queimar", reagiu o ultradireitista Itamar Ben Gvir, ministro da Segurança Nacional.
Festa em Teerã
Sirenes de alerta soaram na cidade portuária de Haifa e em outras localidades do norte de Israel. As forças israelenses confirmaram o ataque e anunciaram que preparam uma "resposta poderosa" à agressão. Também em Haifa, uma idosa de 79 anos ficou ferida em um dos ataques ao tentar chegar ao abrigo antiaéreo. Nas redes sociais, viralizaram vídeos de iranianos celebrando os ataques a Israel, com bandeiras do Irã e do Líbano, pelas ruas de Teerã. Imagens de mísseis carregando mensagens alusivas ao magnata pedófilo Jeffrey Epstein foram divulgadas pela agência de notícias semioficial iraniana Mehr News.
A Síria e o Irã fecharam os seus respectivos espaços aéreos até segunda ordem. Apesar do alerta de Teerã sobre as operações contra o Hezbollah, Israel avisou que manterá a campanha militar "em todo o Líbano". "Atacamos os subúrbios do sul de Beirute em resposta aos incessantes ataques do Hezbollah contra os assentamentos israelenses no norte", declarou o general de brigada Effie Defrin. "As IDF continuarão suas operações em todo o Líbano e intensificarão seus ataques contra a organização terrorista Hezbollah. Não permitiremos mais ataques contra cidadãos do Estado de Israel", acrescentou.
O site de notícias Axios informou que a Casa Branca não deu "luz verde" para Israel bombardear Beirute. "Não tivemos envolvimento nisto", disse uma autoridade do governo Trump, sob anonimato.
Teste para aliados
A aliança entre Estados Unidos e Israel pode ser colocada à prova, a depender da reação do Estado judeu à agressão iraniana. Minutos depois do lançamento dos mísseis, Donald Trump disse que instaria Benjamin Netanyahu a não contra-atacar. Israel vê o Irã como uma ameaça existencial, por conta do programa de mísseis balísticos e do enriquecimento de urânio. Trump apostava suas fichas em acordo de cessar-fogo abrangente. O titular da Casa Branca começou a guerra incentivado por seu maior aliado no Oriente Médio e, agora, tenta sair de uma armadilha e pôr fim ao conflito, que chegou ontem aos 100 dias.
Ao mesmo tempo que tem o potencial de atender aos seus projetos eleitorais, a desejada trégua negociada por Washington impediria que Netanyahu debilitasse ainda mais o movimento fundamentalista islâmico Hezbollah e ganhasse prestígio político. Tanto EUA quando Israel realizarão eleições parlamentares cruciais para Trump e para Netanyahu em outubro e em novembro. Há exatamente uma semana, o presidente americano teria gritado com o israelense durante um telefonema tenso sobre as operações militares no Líbano. "Você é um maluco f...", disse Trump, segundo fontes revelaram ao site Axios.

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