
Uma vantagem na casa dos 30 mil votos, com cerca de 1 milhão mais por contar, deixava claro, na noite de segunda-feira (8/6), que o próximo presidente do Peru terá contra si praticamente a metade do país — uma realidade refletida na composição do Legislativo, em que os partidos liderados pelos dois adversários no segundo turno equivalem em força. Em meio à expectativa de que o resultado final seja formalizado dentro de até um mês, um dos poucos consensos entre os peruanos era pela proclamação breve de um vencedor, que permita a ele — ou ela — começar a costura de um governo capaz de quebrar o ciclo de instabilidade que perdura na última década.
Nesse intervalo, o país teve nove presidentes, sendo que uma, Dina Boluarte, se manteve por três anos. Alguns dos ocupantes do cargo permaneceram por menos de uma semana. A fragmentação política do país, expressa no Congresso, e denúncias em série de corrupção precipitaram o país em um ciclo de instabilidade que a disputa encerrada no domingo não dá sinais de ter resolvido.
Com 95% das mesas eleitorais apuradas, o esquerdista Roberto Sánchez, do partido Juntos pelo Peru, tinha virado a contagem contra a direitista Keiko Fujimori, do Força Popular, e liderava com 50,1% dos votos válidos, contra 49,9%. O resultado, ainda parcial e incapaz de definir o pleito, se aproximava do apurado por institutos de pesquisas no fim da noite de domingo, com base na chamada "contagem rápida" — um sistema que se baseia em resultados parciais e projeta tendências. Nele, Sánchez superou Keiko, contrariando a vantagem — igualmente mínima — atribuída a ela nas pesquisas de boca-de-urna.
"Temos de esperar até o final. O necessário, nesses momentos, é paciência e serenidade. Vamos respeitar o resultado, seja qual for", disse Keiko à imprensa, pela manhã, ao sair de casa, em Lima. Ainda na noite de domingo, diante de simpatizantes em êxtase, Sánchez também havia citado um "empate", e recomendado prudência. "Que a contagem prossiga dentro dos padrões de uma eleição transparente", declarou.
"O que me parece mais profundo é um descontentamento geral com a política e com os resultados que os governos têm apresentado para as populações", disse ao Correio o professor de relações internacionais Juliano Cortinhas, da UnB. "Nesse sentido, há uma mudança constante: quem está no poder tem muita dificuldade em continuar — é um fenômeno mundial dos últimos 10 ou 15 anos." O estudioso lembra que, vença quem vença, "não será uma vitória retumbante". Nem, tampouco, uma derrota clara para quem ficar abaixo. "É um resultado que mostra como nosso continente está polarizado. E essa polarização tende a permanecer por longo tempo."
Com 22 dos 60 senadores e 41 dos 130 deputados, o partido de Keiko, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, tem as maiores bancadas em ambas as casas do Congresso, mas dependeria de alianças para construir maioria. Sánchez exibe situação análoga: seu partido tem 32 deputados e 14 senadores. "O Peru passa por crises institucionais políticas profundas, nos últimos anos, uma sucessão enorme de presidentes, alguns permanecendo por poucos meses, ou por dias", observa o estudioso da UnB . "O que se espera, e o que é melhor para o Peru, é, à parte ser de esquerda ou direita, que haja estabilidade política."
Cortinhas entende que romper o ciclo de trocas precoces de governos é de interesse de todos os vizinhos, inclusive o Brasil. "O melhor resultado é que eles consigam iniciar e terminar mandatos presidenciais sem passar por graves crises. Isso prejudica o continente inteiro", conclui.
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