Conflitos internacionais

Trump intensifica pressão sobre Putin e Netanyahu antes de trégua

Trump avalia pedir à Síria que atue contra o movimento fundamentalista xiita libanês Hezbollah e não descarta retomar as sanções ao petróleo da Rússia. Irã exige retirada israelense do território libanês, em desafio a premiê do Estado judeu

Às vésperas da assinatura do acordo de cessar-fogo com o Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou a pressão sobre Israel e Rússia. Em mais um sinal de indisposição com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, o republicano aproveitou a cúpula do G7, em Évian-les-Bains, na França, para pedir ao líder do Estado judeu que seja "mais responsável com o Líbano" e sugerir que a Síria passe a lidar com o movimento fundamentalista xiita Hezbollah.

O titular da Casa Branca também demonstrou disposição de impor novas sanções contra o petróleo de Moscou — uma forma de demonstrar insatisfação com o prolongamento da guerra. "Em breve vamos poder fazer isso porque o petróleo já está fluindo" pelo Estreito de Ormuz", garantiu Trump, ao citar o canal marítimo por onde passam 20% da produção mundial da commodity. O republicano acredita que o russo Vladimir Putin utiliza o petróleo para financiar a invasão à Ucrânia. 

A trégua com Teerã esbarra nos planos de Netanyahu para o Líbano. Nesta terça-feira (16/6), o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, principal negociador do regime teocrático islâmico, condicionou o cessar-fogo à retirada israelense do território libanês. "Sem a retirada das forças de Israel dos territórios que ocuparam durante essa guerra, o conflito não terá chegado ao fim por completo", declarou o ministro.  

O Khatam Al Anbiya, comando central do Exército iraniano, prometeu uma "resposta dura" a uma ofensiva israelense que deixou quatro mortos no território libanês. "Se o exército infanticida do regime sionista não encerrar seus atos de agressão no sul do Líbano, deve esperar uma dura resposta das poderosas Forças Armadas da República Islâmica do Irã", declarou.  O comunicado militar acusou Israel de violar o cessar-fogo no Líbano "84 vezes" desde segunda-feira (15/6), quando o acordo foi anunciado.  

Professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Cristina Soreanu Pecequilo avalia que Trump não tem obtido bons resultados com relação às negociações russo-ucranianas. Ela interpreta a nova onda de pressões sobre Putin como reflexo da dificuldade de Washington em negociar com Moscou. "Quando observamos as manifestações que o presidente americano faz na cúpula do G7, ao aproximar-se de Zelensky, afirmar que teve uma boa reunião com ele e utilizar o exemplo da guerra contra o Irã como prova de sua ação pacifista, isso acende o alerta para Moscou, mas também soa contraditório", advertiu.  

Mahmoud Zayyat/AFP - Ali Hassan Najdi, 64 anos, observa bandeira do Hezbollah sobre escombros da cada do primo, no sul do Líbano

Pecequilo destacou que tanto a Rússia quanto a China exerceram uma ponte com o Paquistão nas negociações para um acordo de cessar-fogo entre EUA e Irã. De acordo com ela, independentemente da abertura, ou não, do Estreito de Ormuz, o petróleo da Rússia ainda é essencial para muitas nações, principalmente as asiáticas. "Apesar de a dependência do Ocidente ser um pouco menor, em relação ao petróleo de Moscou, acho que a imposição de sanções é uma forma de pressionar e mostrar serviço no momento em que os EUA não conseguiram obter da Rússia e da Ucrânia as vantagens que gostariam nas negociações", disse a professora da Unifesp. 

Michael O'Hanlon, especialista em Rússia e Ucrânia pelo Brookings Institution, espera que a Casa Branca intensifique a pressão especialmente sobre o Kremlin. "Há alguns precedentes com as sanções impostas a duas empresas petrolíferas russas, no outono passado. A reabertura do Estreito de Ormuz também deve ajudar nesse sentido", disse ao Correio. O estudioso lembrou que, por várias vezes, Trump tentou forçar Moscou a assinar um acordo de paz e fracassou. "Ninguém pode calcular em que momento Putin decidirá que a continuação da guerra não vale a pena. Por isso, precisamos exercer mais pressão — aparentemente, o que fizemos até agora não foi suficiente."

Em relação ao conflito no Oriente Médio, Pecequilo considera "razoavelmente irresponsável" o aceno de Trump para que a Síria lide com o Hezbollah. "A Síria começa a se reorganizar agora. Trata-se de um governo controverso, que foi montado a partir de fundamentalistas muito próximos ao Estado Islâmica", comentou. Ela explicou que Damasco não tem condições políticas nem militares de enfrentar o Hezbollah. "O grande cerne da questão é que o governo libanês não consegue controlar o Hezbollah, e Israel não tem o mínimo interesse na construção da paz. Muito pelo contrário: o governo Netanyahu depende da continuidade do tensionamento político para fortalecer sua posição dentro dos EUA", afirmou. 

A professora da Unifesp admitiu que a relação entre Trump e Netanyahu tem sofrido diversos abalos. "Há uma insatisfação muito grande dos EUA com as políticas que Israel vem tomando no Oriente Médio. Existe uma clara desconexão entre as necessidades políticas internas dos dois líderes no que se refere ao Irã. Para Israel, a importância do conflito é enorme para a continuidade do domínio da extrema direita. Para os EUA, Trump precisa encerrar a guerra, caso contrário isso terá consequências muito sérias para as suas pretensões eleitorais e do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato, em 3 de novembro", analisou Pecequilo. 

O israelense Kobi Michael, analista senior do Instituto para Estudos de Segurança Nacional (em Tel Aviv) e do Instituto Misgav para Segurança Nacional e Estratégia Sionista, alertou que os planos da Casa Branca de incumbir a Síria de combater o Hezbollah são "sem sentido" e "muito perigososos". "Em primeiro lugar, a Síria não dispõe de um exército realmente bem treinado; o que lhe resta são milícias jihadistas-salafistas, muito menos profissionais e capazes em assuntos militares e de combate, em comparação com o Hezbollah. Em segundo, existe uma profunda animosidade entre essas milícias e o Hezbollah, e não há dúvida de que buscarão vingança. O resultado será derramamento de sangue e massacre. Em terceiro, qualquer envolvimento sírio enfraquecerá o governo e o Exército libaneses", disse ao Correio. Ele acredita que o Líbano jamais aceitará a intervenção da Síria como potência estrangeira. 

Agradecimentos a Teerã

O movimento xiita libanês Hezbollah, aliado ao Irã, agradeceu à República Islâmica por ter incluído no acordo de cessar-fogo com os Estados Unidos a suspensão dos ataques de Israel ao sul do Líbano. Em mensagem endereçada ao presidente do Majlis (o parlamento iraniano), o xeque Naim Qassem, secretário-geral do grupo, manifestou "profunda gratidão" ao regime islâmico de Teerã por ter negociado com os EUA termos que "obrigam a entidade sionista a uma cessação imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo a libanesa". "O Irã é o campeão da verdade e da resistência", acrescentou Qassem, assegurando que a República Islâmica "deu tudo ao Hezbollah, à resistência e ao povo libanês sem tomar nada em troca", em sua nota.

EU ACHO...

Arquivo pessoal - Kobi Michael, analista senior do Instituto para Estudos de Segurança Nacional e do Instituto Misgav para Segurança Nacional e Estratégia Sionista (em Tel Aviv)

"A entrada de milícias sírias no Líbano fornecerá a desculpa e a legitimidade definitivas para o Hezbollah permanecer como entidade militar armada, atuando como defensor e protetor do território libanês. Essa sugestão de Trump pode causar enormes problemas para o Hezbollah e até mesmo enfraquecê-lo, mas será muito mais perigosa para todos os outros. Parece que essa sugestão reflete uma estupidez estratégica e uma total ignorância em relação à história e à natureza dessa região."

Kobi Michael, analista senior do Instituto para Estudos de Segurança Nacional e do  Instituto Misgav para Segurança Nacional e Estratégia Sionista (em Tel Aviv)

Cartunista russo dissidente é assassinado na Polônia

Um cartunista russo crítico do presidente Vladimir Putin foi assassinado a tiros no leste da Polônia. dois bielorrussos foram detidos, informaram a Justiça e a polícia polonesas. Robert Kouzovkov, 44 anos, conhecido pelo nome artístico de Semion Skrepetski, foi assassinado à queima-roupa na cidade de Biaa Podlaska. Uma investigação foi aberta, informou o porta-voz do Ministério Público, Marcin Kozak. Os dois bielorrussos acabaram detidos nas imediações do consulado de seu país em Biaa Podlaska, acrescentou o porta-voz. Segundo as autoridades polonesas, Skrepetski levou três tiros disparados por uma pessoa não identificada. Quando caiu no chão, o agressor se aproximou e efetuou mais dois tiros à queima-roupa. Skrepetski era conhecido por suas charges às vezes provocativas, direcionadas contra importantes figuras políticas russas, de Putin e do líder soviético Josef Stalin ao falecido opositor Alexei Navalny.

 

 


Mais Lidas

Mahmoud Zayyat/AFP - Bandeira do Hezbollah sobre escombros no sul do Líbano
Arquivo pessoal - Kobi Michael, analista senior do Instituto para Estudos de Segurança Nacional e do Instituto Misgav para Segurança Nacional e Estratégia Sionista (em Tel Aviv)