Tragédia na Venezuela

Vítimas de terremoto reclamam que estão entregues à própria sorte

Moradores do estado de La Guaira, o mais afetado pelo duplo terremoto de 24 de junho, e voluntários acusam o governo de Delcy Rodríguez de abandono. Quatro policiais são presos, acusados de saques

Homem mostra fotos de desaparecidos em meio aos escombros na prala de Los Cocos, em Caraballeda, no estado de La Guaira -  (crédito: Juan Barreto/AFP)
Homem mostra fotos de desaparecidos em meio aos escombros na prala de Los Cocos, em Caraballeda, no estado de La Guaira - (crédito: Juan Barreto/AFP)

Desde 24 de junho, quando a Venezuela sofreu o terremoto mais devastador de sua história, o advogado Freddy Cimino, 32 anos, tem feito um ritual diário: dirige 58km de Los Teques, capital do estado de Miranda, até o litoral de La Guaira. Leva insumos, alimentos, medicamentos e disposição para ajudar a remover os escombros e buscar sobreviventes. "O maior desafio por aqui é o regime de Delcy Rodríguez, que não ajuda e não permite que outras pessoas também deem sua contribuição", desabafou ao Correio. "Não apenas nos sentimos abandonados, como vejo que os próprios cidadãos tiveram que se organizar, sozinhos, para salvar vidas. As autoridades impõem limites a quem tenta ajudar, em vez de canalizar esforços. Faltam voluntários e insumos."

Em meio à tragédia, policiais têm se aproveitado para cometer saques e invadir apartamentos de desabrigados. Quatro agentes do Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminalísticas (CIPC) foram presos em La Guaira, depois que um deles acabou filmado com várias cédulas na mão. 

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Sadrad Rondon Bolívar, 18, também saiu de Caracas e viajou à cidade costeira de Macuto na condição de voluntário. "Por aqui, são as pessoas que se ajudam. Não vi nenhum político nem membros da força de segurança se desdobrando para ajudar os venezuelanos. Se por acaso fazem algo pelos afetados, é por interesse próprio ou porque desejam tirar alguma vantagem", afirmou à reportagem. "Repito: somente o povo auxilia o povo. Os próprios venezuelanos, com a ajuda de nações irmãs, abastecem os hospitais com suprimentos", acrescentou. 

Por sua vez, Luisana Andrea Uzcátegui de Silva, treinadora de futebol em Caraballeda, admitiu que as necessidades mudam "minuto a minuto". "Há mais de 100 prédios derrubados, cerca de 50 mil pessoas desaparecidas. Em algumas ocasiões, os socorristas ficam sem alimentação. Para nós, o mais importante é que as pessoas envolvidas nas buscam tenham comida e energia para retirar nossos familiares dos escombros", disse ao Correio. Luisana busca o atleta argentino Luca Gámez, de oito anos, que estava na residência dos tios, no Edifício Miramar — o prédio de dez andares colapsou por inteiro. 

Até o fechamento desta edição, o governo venezuelano confirmava 2.295 mortos e mais de 11 mil feridos. Segundo Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional (o parlamento, de maioria chavista), pelo menos 12.841 pessoas ficaram desabrigadas. A escala da catástrofe será provavelmente maior: a Organização das Nações Unidas (ONU) estima em 50 mil o número de desaparecidos. Em quase todo o estado de La Guaira, o odor de corpos em decomposição sugere que ainda há muitos mortos sob os escombros. 

Na opinião de Rodrigo Cabezas, economista e professor da Universidad del Zulia (em Maracaibo), a catástrofe enfrentada pela Venezuela "desnudou o Estado controlado pelo governo autoritário de Delcy Rodríguez". "Sua capacidade de responder para salvar vítimas tem sido vergonhosa. Não há equipes de resgate e maquinário pesado. Nosso sistema de saúde estava colapsado antes mesmo do duplo terremoto. Não fosse a ajuda internacional, isso seria terra arrasada. O país inteiro clama por eleições presidenciais para que tenhamos um novo governo legítimo", afirmou ao Correio. Luisana concorda com o estudioso. "O governo de Delcy Rodríguez é o pior que tivemos na Venezuela. Depois de sete dias, a presidente manifestou-se apenas para anunciar o luto nacional. A culpa maior pela quantidade de mortos é do próprio governo."

Em Catia La Mar, balneário de La Guaira, dezenas de edifícios em ruínas foram marcados com a letra D (de "deceased" ou morto, em português), um sinal de que o local foi vasculhado pelos socorristas. "Não se perde tempo em um lugar onde não se espera encontrar pessoas com vida", explicou à agência France-Presse (AFP) Javier Rodes, coordenador de um grupo de resgate da Espanha. Oito dias depois dos terremotos, as chances de encontrar alguém com vida sob os escombros reduziu drasticamente. 

"Atos vergonhosos"

Os agentes do Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminalísticas (CIPC) que foram presos depois de saquearem dinheiro de prédios em ruínas estão à disposição da Justiça e serão demitidos. "À luz dos recentes eventos nas áreas afetadas pelos terremotos no estado de La Guaira, foi confirmado que um grupo de policiais, desviando-se de suas funções e aproveitando-se dos esforços de resgate e ajuda humanitária, agiu de forma inadequada ao se apropriar de objetos de valor encontrados entre os escombros", informou o CIPC, por meio de comunicado. "Essa conduta individual, reprovável e contrária aos valores fundamentais de nossa doutrina, compromete diretamente o prestígio da instituição e o respeito público." Diosdado Cabello, vice-presidente da Venezuela, prometeu "intolerância" contra os policiais e classificou os crimes como "atos vergonhosos, indecentes e imorais".

EU ACHO...

Alexis Brache, 56 anos, trabalhador portuário, morador de Macuto
Alexis Brache, 56 anos, trabalhador portuário, morador de Macuto (foto: Arquivo pessoal )

"Estamos abandonados pelo governo. Aqui, em La Guaira, fomos deixados à própria sorte. Como é possível que — além dos próprios moradores da região — as primeiras pessoas a chegar com ajuda e para resgatar as vítimas do terremoto tenham sido socorristas de El Salvador, quando deveriam ter sido os órgãos do nosso próprio país? É inacreditável, meu Deus!"

Alexis Brache, 56 anos, trabalhador portuário, morador de Macuto 

Freddy Cimino, 32 anos, advogado, morador de Los Teques (estado de Miranda) e voluntário em La Guaira
Freddy Cimino, 32 anos, advogado, morador de Los Teques (estado de Miranda) e voluntário em La Guaira (foto: Arquivo pessoal )

"A capacidade de resposta do regime encabeçado por Delcy Rodríguez fez com que se perdessem demasiadas vidas, especialmente nas primeiras 48 horas, que eram consideradas cruciais. O governo nunca investiu em prevenção de terremotos, enquanto utilizou os lucros do petróleo no uso de ferramentas para reprimir o povo."

Freddy Cimino, 32 anos, advogado e voluntário em La Guaira

  • Alexis Brache, 56 anos, trabalhador portuário, morador de Macuto
    Alexis Brache, 56 anos, trabalhador portuário, morador de Macuto Foto: Arquivo pessoal
  • Freddy Cimino, 32 anos, advogado, morador de Los Teques (estado de Miranda) e voluntário em La Guaira
    Freddy Cimino, 32 anos, advogado, morador de Los Teques (estado de Miranda) e voluntário em La Guaira Foto: Arquivo pessoal
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postado em 02/07/2026 04:50 / atualizado em 02/07/2026 05:31
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