CLÃ BOLSONARO

Briga entre Michelle e Flávio abala plano bolsonarista para eleger Senado 'anti-STF'?

Disputa no clã Bolsonaro envolve definição de candidatos ao Senado, prioridade na meta de conquistar maioria para cassar ministros do STF; base lulista também enfrenta divisões.

'O jogo mais interessante é o Senado porque ele é capaz de parar os ditadores de toga', afirma Eduardo Bolsonaro -  (crédito: AFP via Getty Images)
'O jogo mais interessante é o Senado porque ele é capaz de parar os ditadores de toga', afirma Eduardo Bolsonaro - (crédito: AFP via Getty Images)

As eleições de 2026 são marcadas por uma disputa inédita pelo Senado Federal. Lideranças dos campos bolsonarista e lulista chegam a dizer que a eleição que renovará dois terços da Casa será tão ou mais importante que a corrida presidencial.

Em outubro, cada unidade federativa elegerá dois senadores, parlamentares que serão fundamentais para definir as leis do país nos quatro anos seguintes.

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Mas, para além do impacto legislativo, essa eleição entrou no centro da disputa política por causa do poder que o Senado tem frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) — é a instituição responsável por aprovar novos integrantes para a Corte e também a única que pode cassar seus ministros, uma das principais agendas da direita bolsonarista desde que o o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) virou alvo de investigações criminais e acabou condenado por tentativa de golpe de Estado.

Atualmente, dezenas de pedidos de impeachment contra integrantes do STF estão parados na mesa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), apesar da pressão bolsonarista, sendo Alexandre de Moraes o principal alvo. Por isso, esse campo sonha em conquistar a maioria do Senado ou, ao menos, ampliar sua bancada, para ter mais condições de pressionar por cassações de ministros a partir de 2027.

"É óbvio que, no xadrez político, a Presidência da República é muito importante, mas muito mais importante é o Senado", defendeu o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), em novembro, em entrevista ao canal Jovem Pan.

"O jogo mais interessante é o Senado porque ele é capaz de parar os ditadores de toga. O presidente não", continuou o ex-parlamentar, que participa ativamente das articulações para definir as candidaturas do PL e de aliados, mesmo morando nos Estados Unidos.

A importância dada à corrida ao Senado, porém, tem provocado rachas dentro da própria direita bolsonarista, culminado na briga pública entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o pré-candidato presidencial do PL, o senador Flávio Bolsonaro.

Após divulgar um vídeo na semana passada em que dizia ter sido maltratada por seu enteado em meio a discordâncias na definição do quadro eleitoral do PL no Ceará, ela renunciou na terça-feira (30/06) à presidência do PL Mulher, sem esclarecer se disputará uma vaga no Senado pelo Distrito Federal, algo que vinha sendo dado como certo no campo bolsonarista.

No centro da discordância entre ela e Flávio, está a disputa eleitoral no Ceará, onde Michelle se recusa a aceitar os planos da direção do PL de apoiar a candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Estado e, na composição para essa aliança, rifar a pré-candidatura de Priscila Costa (PL) ao Senado.

Vereadora mais votada em Fortaleza, Costa atuava como braço direito de Michelle dentro do PL Mulher, do qual é vice-presidente. No entanto, André Fernandes, presidente do PL no Ceará e deputado federal mais votado no Estado, prefere lançar seu pai, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE), para o cargo de senador.

Para o cientista político Lucas Aragão, da Arko Advice, a briga com Michelle tem efeitos negativos claros sobre a campanha presidencial de Flávio, devido a sua importância como liderança feminina e evangélica, e atrapalha as negociações do PL nos Estados.

Apesar disso, ele avalia que o campo bolsonarista ainda está mais forte na disputa pelo Senado do que a esquerda, devido à centralidade que deram a essa eleição.

"Isso [a briga na família Bolsonaro] é ruim para os palanques regionais do Flávio e para a organização do PL nos Estados, porque deixa ali possíveis aliados um pouco mais assustados, receosos de se alinhar com o Flávio".

O Valdemar [Costa Neto, presidente do PL] está tratando isso com imensa seriedade porque ter uma bancada relevante no Senado dá a ele força para eleger um presidente do Senado, como ele já vocalizou algumas vezes que tem interesse, ou para direcionar a pauta do Davi Alcolumbre [caso ele se reeleja presidente da Casa]", disse Aragão.

Na quarta-feira (1/7), Michelle faltou a um evento da pré-campanha em que Flávio se reuniu com lideranças femininas. Na ocasião, ele repudiou pela primeira vez uma declaração do influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo afirmando que "mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras".

A fala foi feita na semana passada, em vídeo que também chamava Michelle Bolsonaro de "feminista" em tom crítico. Os ataques de Figueiredo e outros bolsonaristas ligados ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro no exterior são apontados como uma das causas do afastamento da ex-primeira-dama.

Homem pendura camisa contra Alexandre de Moraes em varal com camisas em manifestação bolsonarista
AFP via Getty Images
'O jogo mais interessante é o Senado porque ele é capaz de parar os ditadores de toga', afirma Eduardo Bolsonaro

Raio-X das forças no Senado

Hoje, o Senado é majoritariamente composto por políticos de centro-direita. O bolsonarismo não tem maioria na Casa, mas é uma força relevante. O PL tem 15 senadores, quase um quinto das 81 vagas, sendo a maior bancada partidária.

E há senadores de outros partidos que, bolsonaristas ou não, também apoiam a cassação de ministros do STF, como Damares Alves (Republicanos-DF), Hamilton Mourão (Republicanos-RS), Eduardo Girão (Novo-CE), Marcos do Val (Avante-ES), Esperidião Amin (PP-SC) e Alessandro Vieira (MDB-SE).

Segundo a Lei do Impeachment, é possível iniciar um processo de cassação contra um ministro do STF com a aprovação da maioria simples do Senado (metade do quórum presente na sessão), mas duas ações questionam o rito atual no Supremo e tentam aumentar esse patamar.

Já o PT tem a quarta maior bancada no Senado, com nove parlamentares, atrás também de PSD (14) e MDB (10), partidos do Centrão, grupo que reúne legendas de centro-direita que costumam se aliar a governos de variados espectros políticos.

O arranjo atual já provoca dores de cabeça no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em abril, o Senado impôs uma derrota histórica ao rejeitar a indicação de Jorge Messias ao STF. E, agora, oferece mais resistência à pauta governista de acabar com a jornada de trabalho 6x1, após a proposta ser facilmente aprovada na Câmara.

Para Lucas Aragão, da Arko Advice, o Senado será um desafio ainda maior para Lula, caso consiga se reeleger.

"Minha visão é de que o Senado vai, sim, dar um passo mais à direita. Acho que essa vai ser uma das manchetes no dia 5 de outubro", diz, referindo-se ao dia seguinte ao primeiro turno eleitoral.

Na sua leitura, alguns motivos explicam esse favoritismo: o primeiro deles é que o bolsonarismo, por ser um fenômeno mais recente que o lulismo e mais atuante nas redes sociais, conseguiu produzir mais lideranças novas.

O segundo, continua, é a forte mobilização contrária ao STF, intensificada com a condenação de Jair Bolsonaro e alimentada também pelo escândalo do Banco Master, que levantou questionamentos em relação à atuação dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli devido a possíveis ligações com a instituição liquidada ou seu dono, Daniel Vorcaro — ambos negam qualquer irregularidade.

"A direita tem uma pauta para falar de Senado Federal na eleição, que é: 'olha o STF, olha os excessos, olha a judicialização da política, olha o ativismo judicial, olha a insegurança jurídica, olha a segurança pública, o prende-solta, o solta-prende'. O que a esquerda tem para falar sobre eleições para o Senado? Pouca coisa", analisa.

As disputas nos Estados

O cenário nacional das disputas pelo Senado ainda não está totalmente claro porque as candidaturas só serão definidas após as convenções partidárias, que ocorrem entre 20 de julho e 5 de agosto. O prazo para os partidos formalizarem os candidatos na Justiça Eleitoral é 15 de agosto.

Pré-candidatos do PL ou alinhados ao campo bolsonarista aparecem com chances de conquistar até mesmo as duas vagas em disputa em alguns Estados que tradicionalmente votam mais à direita.

É o caso de Santa Catarina, onde a deputada federal Caroline de Toni (PL), o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL) e o senador Esperidião Amin (PP) despontam como favoritos.

No Distrito Federal, o PL pretende disputar as duas vagas e ameaça desbancar a atual senadora Leila Barros (PDT), que tentará a reeleição. Até a briga com Flávio, as prováveis candidatas do partido eram Michelle Bolsonaro e a deputada federal Bia Kicis, que foi a mais votada do DF para a Câmara em 2022. Caso Michelle desista, a expectativa é que o atual senador Izalci Lucas (PL-DF) tente a reeleição.

Já no Paraná, o ex-procurador da República Deltan Dallagnol (Novo) e o deputado federal Filipe Barros (PL) são pré-candidatos competitivos no lado bolsonarista, mas o ex-senador Álvaro Dias (MDB), o deputado estadual Alexandre Curi (PSD) e a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) também aparecem bem posicionados.

O campo lulista, por sua vez, mantém força em alguns Estados do Nordeste. O PT é favorito a conquistar as duas vagas na Bahia. Apesar do desgaste sofrido pelo senador Jaques Wagner após ser alvo de uma operação da Polícia Federal dentro das investigações do Banco Master, ele segue aparecendo em segundo lugar em pesquisa de intenção de voto, atrás apenas de Rui Costa — ambos são ex-governadores baianos.

Já em Pernambuco, o senador Humberto Costa (PT) tentará um novo mandato, enquanto a ex-deputada federal Marília Arraes, que trocou o PT pelo PDT neste ano, também aparece como candidata competitiva.

Estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais ainda apresentam cenários mais incertos, com as principais candidaturas em fase de definição.

Para a cientista política Lara Mesquita, pesquisadora do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getulio Vargas (FGV Cepesp), ainda é cedo para cravar tendências, mas há a possibilidade de o bolsonarismo conquistar cadeiras de diferentes grupos.

"Pode tanto crescer em cima da esquerda, mas eu acho que é mais provável que cresça em cima do Centrão, que tem mais cadeiras a perder", ressalta.

Mesquita diz que não é a primeira vez que o Senado desponta como uma disputa eleitoral importante. Ela lembra que, em 2006, quando Lula tentava seu segundo mandato presidencial, o petista deu especial ênfase à competição pelas vagas do Senado, preocupado em fortalecer sua base governista. Agora, porém, a motivação é nova, diz.

"Em 2006, Lula dava importância ao Senado, mas não era contra uma instituição. Acho que isso é muito inédito: ter um discurso de que é importante eleger uma bancada forte no Senado para controlar o Supremo", ressalta.

Simone Tebet, Haddad e Lula lado a lado
Reuters
Simone Tebet é uma das apostas de Lula para o Senado

A reação lulista e o racha da direita em SP

O foco bolsonarista no Senado tem causado reação de outras forças políticas e até mesmo rachas na direita.

No campo lulista, a estratégia é lançar apenas dois nomes fortes na maioria dos Estados para evitar dispersão de votos em várias candidaturas, contou à BBC News Brasil a ex-ministra do Planejamento e Orçamento Simone Tebet (MDB), pré-candidata ao Senado por São Paulo.

Ela, que já foi senadora por Mato Grosso do Sul pelo MDB, transferiu seu domicílio eleitoral para São Paulo e trocou de partido para disputar uma das vagas no Senado pelo PSB, em uma aliança com o PT, que disputará o governo do Estado com Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda.

Além dela, é pré-candidata na mesma aliança outra ex-ministra de Lula: Marina Silva (Rede), que comandou a pasta do Meio Ambiente.

Já Márcio França (PSB), ex-ministro do Empreendedorismo, também queria disputar o Senado, mas foi convencido a concorrer a vice-governador na chapa de Haddad, dentro da estratégia de não pulverizar os votos do campo lulista em vários candidatos, conforme explicou Tebet na entrevista à BBC News Brasil.

"Não há possibilidade de essa frente ampla ou desse campo democrático lançar mais do que dois candidatos ao Senado em São Paulo. E isso não é só voz corrente, é uma determinação dos partidos aliados de que a estratégia é lançar, na maioria dos Estados, no máximo, dois pré-candidatos."

"Isso é uma estratégia político-eleitoral visando fazer maioria no Senado, porque, hoje, a situação é adversa. Talvez este seja, de todas as eleições pós-democracia, o momento em que a eleição para o Senado vai ser tão importante quanto para presidente da República. Porque ali é que está a mudança ou não da regra do jogo", disse, em referência aos possíveis impactos sobre o STF.

Do outro lado, a disputa pelo Senado também provocou briga no campo bolsonarista em São Paulo.

Condenado criminalmente no STF por tentar interferir no julgamento de seu pai articulando retaliações dos EUA ao Brasil, Eduardo Bolsonaro articula para concorrer ao Senado como primeiro suplente do pré-candidato André do Prado (PL), atual presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

A decisão irritou o ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles (Novo), que também pretende disputar uma vaga.

Além de Prado, Eduardo Bolsonaro e Tarcísio caminham para apoiar o ex-secretário estadual da Segurança Pública Guilherme Derrite (PP) para concorrer à segunda vaga ao Senado em São Paulo.

Para Salles, Eduardo Bolsonaro deu as costas a um aliado bolsonarista fiel para ser suplente de um expoente do Centrão, após ter criticado essa postura no passado.

"Ele próprio, ao final, acaba virando suplente de um cara que é Centrão na veia, que é o André do Prado. Então, quem mudou e se contradisse foi ele. Não eu", disse em entrevista à BBC News Brasil.

O filho de Jair Bolsonaro articulou a aliança com o presidente da Alesp diante da dificuldade de ele próprio encabeçar a disputa por uma vaga no Senado morando no exterior e condenado no STF. Apesar dessa decisão já resultar na inelegibilidade do ex-deputado, Prado declarou que manterá Eduardo com o seu primeiro suplente, destacando que ainda serão analisados recursos tentando reverter a condenação.

A decisão de disputar como suplente está sendo vista como uma forma de tentar chegar ao Senado caso Prado seja eleito, mas venha a se licenciar para ocupar um cargo no Poder Executivo, em eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa presidencial ou no caso de reeleição do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

"Com certeza algo está sendo negociado, porque não é comum a gente ver um nome de maior peso político vindo como suplente", nota a cientista política Lara Mesquita.

"O termo candidato laranja, muito usado para candidaturas femininas, aplica-se perfeitamente a um caso como esse", continuou.

Na visão de Lucas Aragão, da Arko Advice, o campo lulista está montando uma chapa forte em São Paulo, algo importante para garantir um bom palanque para Lula. O petista perdeu no Estado para Jair Bolsonaro em 2022, mas venceu na capital — manter esse desempenho pode ser determinante para conquistar um novo mandato.

Aragão acredita que o campo pode ter força para conquistar uma das vagas ao Senado em São Paulo. Hoje, as duas vagas pertencem a Mara Gabrilli (PSD) e Alexandre Giordano (MDB), que não tentarão a reeleição.

Para os especialistas ouvidos, porém, ao menos uma tende a ficar com o campo de Tarcísio, que hoje aparece como favorito à reeleição. Segundo Lara Mesquita, historicamente é comum que o governador eleito consiga eleger ao menos um candidato ao Senado que o apoie.

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BBC
Mariana Schreiber - Da BBC News Brasil em Brasília
postado em 02/07/2026 04:50 / atualizado em 02/07/2026 05:18
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