Igreja Católica

À sombra do cisma

Ordenação de bispos pela Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, à revelia do papa Leão XIV, coloca tradicionalistas em conflito com o Vaticano. Especialistas avaliam os riscos de novos gestos de desobediência para o Trono de São Pedro

Os novos bispos tradicionalistas: Pascal Schreiber (Suíça), Michael Goldade (EUA), Michel de Sivry e Marc Hanappier (França)  -  (crédito: Fabrice Coffrini/AFP)
Os novos bispos tradicionalistas: Pascal Schreiber (Suíça), Michael Goldade (EUA), Michel de Sivry e Marc Hanappier (França) - (crédito: Fabrice Coffrini/AFP)

Há exatamente uma semana, no dia de São Pedro e de São Paulo, Leão XIV enviou uma carta à Fraternidade Sacerdotal de São Pio X e instou seus líderes a não ordenarem os novos bispos. Foi em vão. Na quarta-feira, o movimento tradicionalista fundado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991) ignorou os apelos do papa e realizou a ordenação, sem mandato pontifício — ato considerado automaticamente cismático pelo direito canônico. Nas últimas quatro décadas, o movimento religioso contestou as decisões da Igreja Católica. 

Especialista em Vaticano e doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana (em Roma), Filipe Domingues explicou ao Correio que a Igreja Católica é acolhedora o suficienta para que dentro dela exista uma variedade de expressões da fé, além de visões de mundo e da vida eclesial. "É preciso ter uma comunhão dos princípios básicos da fé, para que se possa considerar católico. Reconhecer o Creio, os sacramentos, a autoridade papal, os dogmas da tradição da Igreja e a liturgia", comentou. "Há grupos tradicionalistas, que preferem a visão de mundo de Igreja antes do Concílio Vaticano II, mas reconhecem a autoridade papal, respeitam o pontífice e tentam dialogar. Ainda assim, resistem a algumas inovações do Concílio e permanecem no corpo da Igreja."

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

De acordo com Domingues, a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X nunca teve uma situação legítima, desde sua fundação. "Começou com a excomunhão de Lefebvre e de alguns outros, por causa de outra ordenação, 40 anos atrás. A partir daí, nunca foram legitimados, pois queriam o reconhecimento jurídico dentro da Igreja, e nenhum dos papas jamais permitiu isso", disse. "João Paulo II, Bento XVI, Francisco e, agora, Leão XIV tentaram acomodar, aconselhar e orientar a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, mas sem sucesso. Eles têm uma agenda muito clara e não aceitam a autoridade do Concílio Vaticano II. Isso coloca em questão princípios da fé essenciais para a Igreja. Ao questionarem o Concílio, colocam-se no limbo."

O reverendo Robert A. Gahl, diretor do Programa de Gerenciamento da Igreja e professor da The Catholic University of America (em Washington D.C.), admitiu ao Correio que a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X ameaça a unidade da Igreja. "Eles questionam os ensinamentos do Concílio Ecumênico Vaticano II e a legitimidade do Novus Ordo Missae, a missa celebrada pela maioria dos católicos desde o fim da década de 1960. Além disso, ameaçam a autoridade do papa, o sucessor de São Pedro, de governar a Igreja, ao regularem quem pode ser consagrado bispo." O religioso advertiu que "não há salvação para aqueles que rejeitam a Igreja conscientemente". "Que Deus queira que eles se arrependam e retornem à comunhão."

"Bálsamo"

Gahl alertou sobre o risco de agravamento do cisma na Igreja. "A pronta resposta de Leão XIV oferecerá um bálsamo calmante e medicinal, de cura e clarea. Isso favorecerá o restabelecimento da plena comunhão, embora exiga uma dolorosa reconciliação", disse. De acordo com o americano, tradicionalistas desafiam o papa "por buscarem clareza textual em vez do conforto da unidade com a Santa Mãe Igreja". "Eles buscam ritos antigos, mas esses são legitimamente oferecidos por muitos que estão em plena comunhão, como a Fraternidade Sacerdotal de São Pedro", lembrou. "Os que seguem a desobediência ilícita e cismática da Fraternidade de São Pio X pecam por soberba, em vez de submeterem à obediência ao sumo pontífice."

Domingues não crê que o desafio da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X à Igreja estimule outros movimentos. "Nenhum dos demais grupos tradicionalistas quer ser considerado cismático. É muito constrangedor." O brasileiro vê o caso do grupo de Lefebvre, estimado em 500 mil fiéis, 700 padres e seis bispos, como específico e assegura que outros tradicionalistas preservam o alinhamento com o papa.

O italiano Massimo Faggioli, professor de eclesiologia, teologia e história do catolicismo no Trinity College (em Dublin), explicou à reportagem que a Fraternidade de São Pio X é um grupo muito pequeno e, por isso, descarta um grande cisma. "O problema reside naqueles bispos, membros do clero e leigos de destaque que, embora não sejam formalmente membros do grupo, se simpatizam com ele. O problema é a zona cinzenta, que se ampliou especialmente desde os esforços de Bento XVI para promover a reconciliação com a Fraternidade de São Pio X."

O retorno à comunhão 

O Dicastério para a Doutrina da Fé divulgou as instruções para que os membros da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X possam ser reincorporados à Igreja

Renúncia e aceitação do Concílio Vaticano II

O sacerdote que decidir deixar a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e mostrar-se disposto a aceitar o Concílio Vaticano II, bem como a legitimidade da missa, ainda que vinculado ao rito antigo, deverá encontrar um ordinário (como um bispo diocesano) que aceite acolhê-lo ad experimentum

Carta ao papa

Em seguida, o sacerdote deverá "escrever de próprio punho ao Santo Padre uma carta na qual se apresente e peça a remissão das censuras em que incorreu por ter recebido a ordenação de um bispo excomungado ou irregular, ou por, tendo sido ordenado válida e legitimamente, ter posteriormente ingressado na Fraternidade Sacerdotal São Pio X". 

Profissão de fé

O sacerdote deverá ainda anexar o certificado de ordenação sacerdotal e apresentar, datadas e assinadas, a Professio fidei e a Formula adhaesionis. A "Profissão de Fé" sintetiza os conteúdos da fé católica e da Fórmula de Adesão pela qual o sacerdote promete fidelidade ao papa. 

Remissão das censuras

Depois que receber a documentação por parte do Ordinário, o Dicastério para a Doutrina da Fé redigirá um documento conhecido como Rescrito de remissão das censuras. Nele, o Vaticano autoriza o Ordinário a acolher o sacerdote requerente "por um período de prova de pelo menos um ano e não superior a três anos, ao término do qual poderá ser realizada a sua incardinação".

Eu acho...

"A Fraternidade Sacerdotal de São Pio X está carregada de contradições. Eles afirmam ser mais católicos do que o papa. Alegam ser mais rigorosos quanto aos requisitos para a salvação e afastam-se da Santa Igreja. Condenam o 'modernismo' e ficam presos à Contrarreforma do século 16. A Igreja de hoje encontra-se em continuidade viva com a Igreja pela qual São Pedro morreu na cruz."

Robert A. Gahl, diretor do Programa de Gerenciamento da Igreja e professor da The Catholic University of America (em Washington)

 "Eles agiam em nome de uma Igreja Católica. Em nenhum momento a Igreja legitimou suas ações ou reconheceu que poderiam atuar em seu nome, à exceção do Jubileu da Misericórdia, em que Francisco autorizou a confissão. Francisco queria que todos recebessem a reconciliação. Por isso, permitiu que os sacerdotes da Fraternidade São Pio X pudessem conferir o sacramento. Foi o momento de maior aceitação desse grupo." 

Filipe Domingues, doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma)

 

 

  • Google Discover Icon
postado em 06/07/2026 05:14
x