
Marine Le Pen, 57 anos, líder do partido de extrema-direita Reagrupamento Nacional (RN), saiu da Corte de Apelações de Paris como condenada pelo desvio de fundos públicos europeus e como postulante ao Palácio do Eliseu. "Esta noite sou candidata à eleição presidencial", anunciou à emissora de tevê TF1. O tribunal determinou que a política está obrigada a utilizar tornozeleira eletrônica pelo prazo de um ano, mas reduziu a pena de inelegibilidade, o que abriu caminho à candidatura.
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Os franceses vão às urnas em 18 de abril, no primeiro turno das eleições — se nenhum dos candidatos obtiver a maioria dos votos, a segunda rodada de votação será em 2 de maio. Le Pen declarou que entrou com um recurso, na esperança de não precisar usar a tornozeleira durante a campanha eleitoral.
O anúncio de Le Pen sobre a disputa eleitoral marca uma mudança abrupta de planos da ultraconservadora. Na semana passada, ela condicionou a candidatura à possibilidade de realizar uma campanha "livremente", sem ter que solicitar o aval da Justiça para deslocamentos, algo que a tornozeleira eletrônica inviabilizaria. Ontem, Le Pen se reuniu com lideranças do RN, entre elas, Jordan Bardella, o presidente do partido. Com a entrada da filha de Jean Marie Le Pen na corrida eleitoral, Bardella aceitou sair como premiê, caso eleita.
Cristina Soreanu Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acredita que as chances de a extrema-direita francesa chegar à presidência ainda são baixas, apesar da crescente insatisfação popular. "O risco do extremismo de Marine Le Pen acaba sendo um fator decisivo para as coalizões entre o centro e a própria esquerda, ainda que algumas correntes mais radicais não apoiem isso", explicou ao Correio.
Segundo Pecequilo, no campo das eleições legislativas e nos pleitos locais, a direita tem crescido de forma exponencial. "Isso quer dizer que o cenário político pode apresentar mudanças relevantes", alertou. A especialista descarta que a condenação impacte negativamente a imagem de Marine Le Pen. "A maioria dos eleitores de extrema direita não se importa com essas agendas. Considera que as condenações acabam refletindo a perseguição à agenda que defendem. Assim, muitas vezes é um bônus e não um ônus para parte do eleitorado", disse.
Aposta arriscada
"Marine Le Pen fez uma aposta arriscada hoje à noite. Ela poderia ter se dado por satisfeita com a permissão para concorrer à presidência, ainda que sob as restrições de uma tornozeleira eletrônica. No entanto, decidiu contestar a decisão, insatisfeita com a condenação, e apelou à Suprema Corte, esperando ser absolvida de todas as acusações", afirmou ao Correio Jean-Yves Camus, cientista político da Fondation Jean-Jaurès, em Paris.
De acordo com Camus, cabe à máxima instância do Judiciário decidir se emite uma sentença antecipada, algo que Marine espera que ocorra o quanto antes para ir à campanha sem monitoramento. "O tribunal pode optar por julgar o caso no início de 2027 ou depois da eleição. Caso a decisão saia antes e o tribunal mantenha a condenação, ela poderá ter que fazer campanha usando a tornozeleira", comentou. "Se a decisão vier após a eleição, a execução da pena será suspensa até o fim do mandato."
O francês explicou que o RN conta com mais de 30% das intenções de votos no primeiro turno, o que garante vaga no segundo. "A vitória está longe de ser certa. Historicamente, o RN cai para menos de 30% no dia da eleição. A única possibilidade de vitória garantida para Le Pen seria contra Jean-Luc Mélenchon. Isso porque as políticas da esquerda radical e divisivas são rejeitadas por ampla maioria dos franceses", concluiu Camus.
PERSONAGEM DA NOTÍCIA
A ave fênix da política francesa
"Tenho a pele um pouco grossa. Se alguém tentar me matar, é melhor que tenha uma lâmina bem afiada. Acho que tenho certa resiliência." As palavras proferidas por Marine Le Pen, na semana passada, resumem bem a personalidade e a história da ultradireitista. Sua vida de combate começou na infância, como filha do histórico líder da extrema direita e fundador, em 1972, da Frente Nacional (FN), Jean-Marie Le Pen. Quando tinha oito anos, a residência da família, em Paris, foi alvo de um atentado que jamais foi reivindicado.
"Eu estava na minha cama quando uma bomba explodiu e destruiu completamente o prédio onde estávamos dormindo. O medo desapareceu a partir desse momento", admitiu, em dezembro de 2025, à emissora BMFTV. Seus primeiros passos na política estiveram ligados ao pai, a quem apoiou quando, no fim da década de 1980, sua mãe, Pierrette Lalanne, o abandonou de forma abrupta, antes de posar nua para a revista Playboy.
Em 2011, a política assumiu a liderança da FN e começou, de forma metódica, a limpar a imagem racista, homofóbica e antissemita associada ao partido e a seu pai, a quem expulsou em 2015, uma decisão que "nunca" será perdoada, afirmou após a morte dele, em 2025.
Nascida em 5 de agosto de 1968, em Neuilly-sur-Seine, uma cidade de alto padrão localizada a oeste de Paris, ela construiu uma imagem popular, com visitas a mercados, passeios de trator e entrevistas mais íntimas, nas quais também se apresenta como criadora de gatos. Ao mesmo tempo, viu suas ideias contrárias aos imigrantes ganharem espaço em uma França cada vez mais inclinada à direita, mas também em um mundo no qual os movimentos populistas avançavam, como na Itália, no Brasil e nos Estados Unidos.
Advogada, de inconfundível cabelo loiro e olhos claros, construiu sua ascensão política ao somar as preocupações dos franceses com segurança e poder de compra ao tradicional discurso antimigrantes de seu partido, rebatizado em 2018 como Reagrupamento Nacional (RN). Le Pen escolheu como reduto a cidade de Hénin-Beaumont, na outrora próspera região mineradora do norte da França, de onde se apresentou como uma "mãe de família" — tem três filhos e é divorciada duas vezes — disposta a defender os franceses mais "vulneráveis".
Ao mesmo tempo, defendia reservar os benefícios sociais aos franceses e acabar com a reunificação familiar dos imigrantes, além de combater a "ideologia islamista" e proibir o uso do véu em espaços públicos. No cenário internacional, a invasão russa da Ucrânia, em 2022, a afastou do presidente russo, Vladimir Putin, e ela foi gradualmente deixando para trás as propostas mais polêmicas de seu partido, como a saída da França da zona do euro.

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