
Um estudo publicado nesta quarta-feira (15/7) no Australian Journal of Botany, revelou os desafios ambientais, tecnológicos e sociais que podem transformar a Austrália até o ano 2100. Entre as principais previsões estão eventos climáticos mais extremos, como secas, enchentes e incêndios florestais, além da expansão de alimentos cultivados em laboratório e do uso de engenharia genética para proteger a biodiversidade.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade Macquarie, que analisaram quatro ecossistemas australianos: pastagens alpinas, florestas tropicais subtropicais e dois tipos de bosques de eucaliptos. Os cientistas buscaram imaginar diferentes cenários para o futuro, considerando que as mudanças climáticas podem tornar inviável manter muitos ecossistemas exatamente como são atualmente.
Segundo o professor emérito Mark Westoby, um dos autores do estudo, a conservação ambiental precisará passar por uma mudança de paradigma nas próximas décadas. “A ideia geral é que ‘conservação’ e ‘restauração’ estão se tornando menos viáveis no sentido de manter os ecossistemas exatamente como eram no passado”, afirmou o pesquisador.
Os pesquisadores trabalham com a possibilidade de um aumento da temperatura global entre 3°C e 4°C até o fim do século. Nesse cenário, diversas espécies deixariam de encontrar condições adequadas para sobreviver em seus habitats naturais, tornando necessária a transferência deliberada de plantas e animais para regiões mais frias ou áreas de maior altitude.
Além disso, o estudo sugere que será preciso aceitar e até mesmo incentivar, em alguns casos, a formação de novos ecossistemas adaptados às futuras condições climáticas, em vez de tentar restaurar paisagens idênticas às do passado.
Incêndios mais frequentes preocupam pesquisadores
Entre os principais desafios apontados pela pesquisa está o aumento da frequência e da intensidade dos incêndios florestais. De acordo com os cientistas, períodos de clima extremo favoráveis ao fogo devem reduzir o intervalo entre grandes queimadas, alterando permanentemente a vegetação de diversas regiões.
As florestas tropicais aparecem entre os ecossistemas mais vulneráveis, já que dependem de longos períodos sem incêndios para se regenerarem. “Alguns tipos importantes de vegetação, como as florestas tropicais, dependem de longos intervalos entre incêndios intensos. À medida que as condições climáticas extremas propícias a incêndios se tornam mais comuns, será cada vez mais difícil manter esses ecossistemas”, destacou Westoby.
Carne cultivada em laboratório e edição genética entram no debate
O estudo também projeta que avanços tecnológicos poderão desempenhar um papel importante na conservação ambiental. Um dos cenários analisados prevê a substituição gradual da pecuária tradicional por carne e laticínios produzidos em laboratório.
“Se o gado para produção de leite e carne fosse substituído por equivalentes cultivados em laboratório, isso significaria uma mudança no uso da terra em muitos lugares. Haveria oportunidades para cultivar espécies importantes da floresta tropical mais ao sul”, explicou o pesquisador.
Outra possibilidade considerada pelos cientistas é o uso de técnicas de edição genética para controlar espécies invasoras, como o capim-búfalo (Cenchrus ciliaris), planta que favorece a propagação de incêndios e dificulta a recuperação da vegetação nativa.
Para Westoby, ainda há muitas incertezas sobre o comportamento dos ecossistemas nas próximas décadas. No entanto, compreender esses cenários desde já pode ajudar governos e pesquisadores a desenvolver novas estratégias de adaptação diante das mudanças climáticas.
“Existem métodos genéticos em desenvolvimento para suprimir algumas espécies invasoras que têm fortes efeitos nos ecossistemas. Isso abriria novas possibilidades. Há muita incerteza sobre o futuro dos ecossistemas. A pesquisa pode revelar essas possibilidades e abrir novos caminhos para a conservação”, concluiu.
*Estagiária sob supervisão de Paulo Floro.
Saiba Mais

Mundo
Mundo
Mundo
Mundo
Mundo
Mundo