América Latina

Trump arma o cerco no "quintal"

Embalado pela vitória de aliados por toda a América Latina, o presidente dos EUA joga pesado na expansão das bases militares pela região e coloca em alerta o governo Lula, praticamente solitário no lado esquerdo do tabuleiro político

mapa Bases americanas -  (crédito: Valdo Virgo)
mapa Bases americanas - (crédito: Valdo Virgo)

A posse de mais dois aliados aliados, nas próximas semanas, coloca Donald Trump na posição de entrar pela segunda metade do atual mandato com o cenário talvez mais favorável que poderia conceber dentro do plano estratégico que delineou para os Estados Unidos no contexto de um mundo em que os Estados Unidos confrontam a ascensão econômica, geopolítica e inclusive militar de um novo rival — a China de Xi Jinping, às portas de completar 80 anos de um regime comunista original e, até aqui, bem-sucedido. Na estratégia de Segurança e Defesa que apresentou para o Congresso, em novembro último, o presidente definiu Pequim como o adversário central. E, embora esteja hoje enroscado na guerra que iniciou há quatro meses com o Irã, Trump apontou como terreno principal da disputa não o Oriente Médio, mas a América Latina, que até a virada do século era vista em Washington como "o quintal" dos EUA.

O melhor exemplo, talvez, seja a Colômbia, onde o ultradireitista Abelardo de la Espriella assume presidência em 7 de agosto, no lugar do ex-guerrilheiro Gustavo Petro, primeiro político de esquerda a governar o país em dois séculos de vida independente e republicana. Desde que sua vitória foi confirmada, o presidente eleito acenou com a reativação de quase uma dezena de bases militares instaladas por Washington para o combate aos rebeldes comunistas e aos cartéis do narcotráfico, nos marcos do Plano Colômbia. A perspectiva é semelhante no Peru, que vem de eleger Keiko Fujimori. Javier Milei negocia a instalação de uma base norte-americana na Patagônia argentina, e o presidente do Equador, Daniel Noboa, trava uma queda de braço com a oposição para reabrir a estratégica base naval de Manta, no litoral do Pacífico.

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"Esse movimento pode ser relacionado à chamada 'onda rosa' na América Latina, nos anos 1990", disse ao Correio Miguel Tinker Salas, venezuelano, professor de História Latino-americana da Pomona College, na Califórnia. "A 4ª frota foi reativada por George W. Bush, em 2008, e segue expandindo sua presença. Mais recentemente, com a eleição de governos conservadores na América do Sul, isso passa a cobrir toda a região." O estudioso vê desdobramentos inevitáveis para o Brasil: "Qualquer que seja, o próximo governo brasileiro terá pela frente uma presença militar crescente dos EUA no seu quintal".

O professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM, vê o Brasil "mais isolado, diplomaticamente". Embora não veja no horizonte o risco de uma intervenção militar dos EUA no país, ele alerta para a seriedade do compromisso assumido pelo governo Trump, ao menos no discurso público, com o combate ao narcotráfico — expresso na incursão para captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, nos primeiros dias do ano, e pela recente classificação oficial de facções criminosas brasileiras como "organizações terroristas globais".

"Espero que o presidente Lula, assim como o PT, entenda de uma vez que o combate ao narcotráfico é prioridade da sociedade brasileira, e agora vem essa pressão externa", afirma Rudzit. "Se ele não tomar medidas, em vez de ficar em operações em ano de eleições, o governo Lula 4, se vier a acontecer, pode ter problemas com os EUA."

Juliano Cortinhas, professor de relações internacionais da UnB, acompanha o tom, embora com enfoque distinto e voltado para a disputa de espaço geopolítico entre o Brasil e a potência dominante nas Américas. "Nós somos extremamente vulneráveis, em um contexto em que a presença dos EUA é extremamente preocupante", observa. "Para ter uma defesa coerente, a gente teria não de aumentar o orçamento da área, mas de reestruturar o ministério, torná-lo capaz de conduzir a política da pasta", argumenta. "Lula não fez a lição de casa, de reorganizar as Forças Armadas, e a gente pode pagar um preço alto por isso."

Somos cada vez mais vulneráveis

Essa questão tem de ser avaliada em um contexto maior que a eleição de apoiadores de Trump em países do continente. Eu remeteria a situação ao governo Bolsonaro e à decisão de encerrar a Unasul, uma instituição multilateral regional. Existia um Conselho de Defesa sul-americano, e nele se fazia a discussão conceitual sobre defesa coletiva, sem participação de nenhuma potência extrarregional — os EUA ou a China.

Infelizmente, por uma série de questões políticas, ligadas também à ascensão da extrema direita, a Unasul foi desativada e ficamos sem uma forma de construir respostas coletivas para problemas de segurança e defesa.

O tráfico de drogas é transnacional, por definição, e exige respostas transnacionais. Não adianta a militarização em um país, enquanto outro tem políticas totalmente desconectadas: há necessidade de uma ação coordenada, e a ausência de instituições regionais na América do Sul, hoje, é extremamente prejudicial. Não há uma instância onde os países discutam e definam uma solução coletiva para os problemas de segurança. Isso abre a porta para a presença de potências externas — e, no caso, quem está entrando são os EUA.

A China faz mais comércio de armamentos, sistemas de defesa e tecnologia, bem mais que uma presença definitiva na região, e os EUA estão atacando por aí, estabelecendo uma presença cada vez maior. Está em discussão no Peru um instrumento regional de defesa que Trump está criando, e isso aumenta a nossa insegurança. A presença de uma potência militar global, com bases militares cercando o nosso país, nos torna muito mais vulneráveis.

 

Juliano Cortinhas, professor de relações internacionais da UnB

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postado em 19/07/2026 05:12
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