
O ditado é chinês, mas bem que poderia valer para o cenário envolvendo Estados Unidos e Arábia Saudita: "O que você ouve pode ser falso; o que você vê é verdade". Um dia depois do anúncio da Casa Branca de que os dois países chegaram a um acordo nuclear que se estenderia por décadas e movimentaria bilhões de dólares, o governo de Donald Trump agora impôs uma condição ao pacto. O reino saudita terá que aderir aos Acordos de Abraão e normalizar as relações com o Estado de Israel caso deseje levar adiante a parceria nuclear civil com Washington.
A advertência foi feita pelo próprio Trump em sua própria plataforma Truth Social. "O acordo civil nuclear (não haverá e enriquecimento de material!) sendo feito o Departamento de Energia dos Estados Unidos e a Arábia Saudita — e que diz respeito apenas a usos não militares, semelhante aos que o Irã, os Emirados Árabes Unidos e outros possum — será aprovado, mas está totalmente condicionado à adesão da Arábia Saudita aos muito respeitados e bem-sucedidos Acordos de Abraão", escreveu o republicano.
Israel reagiu com entusiasmo à condição imposta por Trump. "A entrada da Arábia Saudita nos Acordos de Abraão representaria um avanço histórico rumo à paz no Oriente Médio", declarou o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. "A ação militar conjunta americana e israelense contra o regime genocida em Teerã e a derrota do eixo terrorista iraniano por Israel criaram a possibilidade de expandir o círculo da paz", acrescentou.
Os Acordos de Abraão foram uma série de pactos de normalização de relações com Israel mediados por Trump em seu primeiro mandato (2017-2021). Nos termos dos documentos, Emirados Árabes, Bahrein e Marrocos normalizaram suas relações com Israel em 2020. Desde então, nenhum outro país havia se somado à iniciativa do presidente americano. O Sudão também aderiu, mas posteriormente mergulhou em uma guerra civil e nunca ratificou ou implementou o acordo.
Líder do Projeto de Zona Livre de Armas de Destruição em Massa no Oriente Médio do Instituto das Nações Unidas para Pesquisas sobre Desarmamento, a israelense Chen Kane lembrou ao Correio que a declaração de Trump foi feita por meio de um tuíte, depois da assinatura do acordo. "Até onde sabemos, isso não foi objeto de negociação para inclusão no texto. Se não consta no acordo ou nas atas acordadas, não tem validade jurídica. Trump poderia decidir não encaminhar o texto ao Congresso caso realmente decida fazer disso uma condição para o acordo", afirmou a estudiosa, também diretora do Programa de Não Proliferação no Oriente Médio do Centro James Martin de Estudos de Não Proliferação (CNS).
Palestina
Para Kane, a probabilidade de adesão da Arábia Saudita aos Acordos de Abraão é "baixa a curto pazo". "Há muito o reino se recusa a aderir aos acordos na ausência de um caminho para a criação de um Estado palestino. Isso poderia mudar caso o governo e a política de Israel em relação ao Estado palestino sofressem alterações nas próximas eleições israelenses, em outubro", admitiu. Ela avalia o pacto americano-saudita como um "afastamento significativo da política de não proliferação dos EUA vigente desde 1996, a qual exigia a entrada no Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e, pelo menos no Oriente Médio, o compromisso de não realizar atividades de enriquecimento ou reprocessamento com tecnologia própria"
Ministro ultraconservador e judeus violam status quo da Esplanada das Mesquitas
O ministro israelense de Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, de extrema direita, visitou, ao lado de centenas de judeus, a Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém Oriental, um local no centro do conflito israelense-palestino e regido por um status quo em vigor desde 1967. A visita coincidiu com o Tishá BeAv, dia de jejum e luto do calendário judaico que relembra a destruição dos Templos de Jerusalém e está associado a outras tragédias deste povo. Jornalistas da agência France-Presse constataram que Ben Gvir e os visitantes, entre eles colonos, ingressaram no início da manhã e que alguns deles, incluindo o ministro, rezaram no local, apesar de o status quo proibir orações judaicas ali. "Vejam o que está acontecendo aqui: os judeus rezam e sentem que este lugar lhes pertence por direito", declarou Ben Gvir em um vídeo compartilhado no Telegram. "Todo o mundo entende que o Estado de Israel é a autoridade soberana. Ainda há caminho a percorrer e, com a ajuda de Deus, continuaremos avançando." Em 2000, a segunda intifada — levante palestino — começou depois de uma visita do então líder da oposição, Ariel Sharon, à Esplanada das Mesquitas.
Ameaça de novo castigo ao Irã
Irã e Estados Unidos prometeram intensificar seus ataques depois que os houhis, rebeldes do Iêmen, aliados ao Irã, abriram outra frente em sua ofensiva contra navios sauditas no Mar Vermelho. O conflito se espalhou para o Mar Vermelho esta semana, depois que rebeldes iemenitas declararam um bloqueio aos portos da Arábia Saudita e alegaram ter atacado dois petroleiros sauditas. Como consequência, o preço do petróleo disparou.
O valor do barril de Brent do Mar do Norte para entrega em setembro subiu 7,04%, a US$ 100,69 (cerca de R$ 513,51) — um limite que não tinha alcançado desde maio passado -, devido aos temores sobre o trânsito de petróleo pelo Mar Vermelho, uma rota alternativa para evitar o Estreito de Ormuz. Seu equivalente americano, o barril de West Texas Intermediate para entrega no mesmo mês, subiu 6,17%, a US$ 92,19 (ou R$ 469,71).
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou aplicar "um grande castigo militar" ao Irã e aos rebeldes houthis no Iêmen caso lancem novos ataques. O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, denunciou, uma atitude "irracional" e "dominante" dos EUA, depois de 12 dias consecutivos de bombardeios americanos contra o território iraniano. "Indivíduos comprometidos dentro da administração dos EUA estão agindo como se não vissem a realidade. Eles ignoram a situação real e parecem focados apenas em 2028. A agressividade irracional que defendem só garantirá que o presidente pague um preço mais alto pelo acordo que tenta alcançar", escreveu o ministro.
Houthis
Do outro lado da Península Arábica, os houthis iemenitas afirmaram que atacaram, na quarta-feira (22/7), com mísseis e drones, dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho, o Encelia e o Layla, concretizando a ameaça de bloquear a Arábia Saudita nessas águas, que servem de rota alternativa ao Estreito de Ormuz.

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