Oriente Médio

Arábia Saudita e EUA assinam acordo nuclear de décadas e bilhões

Sauditas e americanos firmam pacto de cooperação atômica para fins civis e sinalizam respeito à não proliferação. Parceria abre caminho para enriquecimento de urânio. Especialista alerta para risco da falta de rigor nas inspeções

Donald Trump e Pete Hegseth (D), secretário da Defesa, recebem corpos de militares americanos mortos no Oriente Médio  -  (crédito: Saul Loeb/AFP)
Donald Trump e Pete Hegseth (D), secretário da Defesa, recebem corpos de militares americanos mortos no Oriente Médio - (crédito: Saul Loeb/AFP)

Washington e Riad formalizaram um pacto de cooperação nuclear para fins civis, além de um acordo bilateral sobre salvaguardas nucleares. Os documentos foram firmados pelo secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, e pelo homólogo saudita, o príncipe Abdulaziz bin Salman. "Os dois acordos estabelecem, em conjunto, a base jurídica para uma parceria de várias décadas e de bilhões de dólares, que impulsionará diversos objetivos econômicos e estratégicos prioritários, incluindo a não proliferação nuclear", anunciou o Departamento de Energia dos EUA.

"Podem ficar tranquilos: esses acordos respeitam os mais elevados padrões de segurança nuclear e não proliferação, ao mesmo tempo em que se baseiam na melhor tecnologia e nos melhores cientistas nucleares do mundo — desenvolvidos e formados aqui mesmo, nos Estados Unidos", completou Wright.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

O jornal The Washington Post informou que o acordo abre caminho para que os sauditas enriqueçam combustível nuclear. Em troca, eles se comprometem a usar empresas americanas para abastecer os seus reatores. O Congresso dos EUA tem um prazo de 90 dias para se manifestar sobre o tema. Duas fontes familiares afirmaram à TV CNN que Riad não precisará adotar o "padrão ouro" de supervisões internacionais. 

O anúncio ocorre em meio à escalada de tensão entre EUA e Irã. Washington acusa Teerã de perseguir um programa nuclear com fins militares. Enquanto Wright assinava o acordo com os sauditas, o presidente Donald Trump estava na Base Aérea de Dover (em Delaware), onde recebeu os corpos de americanos mortos em ataques do regime iraniano, considerado uma ameaça também por Riad. 

Kelsey Davenport, diretora de Política de Não Proliferação da Arms Control Association (Associação para o Controle de Armas), alertou ao Correio que o acordo "abandona normas de longa data de não proliferação e cria o risco de que a Arábia Saudita desenvolva meios para produzir material físsil sem salvaguardas internacionais mais intrusivas". "Isso cria novo risco de proliferação no Oriente Médio, o qual poderia ter repercussões mais amplas à medida que outros Estados buscam equiparar-se às capacidades sauditas."

Especialista do Institute for Science and International Security (Instituto de Ciência e Segurança Internacional, em Washington), Sarah Burkhard afirmou à reportagem que é preciso conhecer os detalhes do acordo antes de avaliar seus méritos em termos de não proliferação — a medidas de transparência e verificação, bem como à transferência de tecnologia. "Quanto ao enriquecimento, as informações indicam que o acordo não prevê uma proibição absoluta, mas não estabelece uma autorização explícita. Ele prevê um estudo conjunto sobre a viabilidade comercial do enriquecimento. Caso esse estudo aponte inviabilidade, a Arábia Saudita ficará proibida de atividades de enriquecimento por 10 anos."

Dois pesos...

Burkhard não vê uma política de "dois pesos, duas medidas" em relação à abordagem americana para a questão nuclear envolvendo o Irã e a Arábia Saudita. De acordo com ela, a proibição a Teerã seria voltada somente ao enriquecimento de urânio, não ao programa nuclear; além disso, os iranianos poderiam manter o reator. "A Arábia Saudita cumpre adequadamente as disposições do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e as salvaguardas associadas, mantendo uma postura de cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)."

A estudiosa entende que a situação contrasta com a do Irã. "Teerã busca capacidade de armamento nuclear há duas décadas, em desafio ao TNP, o que tem levado a confrontos com inspetores", disse Burkhard. Davenport, por sua vez, afirmou que o acordo complica as negociações com o Irã. Na opinião dela, um pacto com Teerã exigirá um monitoramento mais intrusivo da AIEA. "O Irã relutará em aceitar salvaguardas adicionais se os sauditas não forem submetidos ao mesmo padrão. É pouco provável que o Irã aceite restrições de longo prazo ao enriquecimento de urânio caso Riad adquira a capacidade nos próximos anos."

EU ACHO...

Sarah Burkhard, especialista senior do Institute for Science and International Security (Instituto de Ciência e Segurança Internacional, em Washigtom D.C.)
Sarah Burkhard, especialista senior do Institute for Science and International Security (Instituto de Ciência e Segurança Internacional, em Washigtom D.C.) (foto: Arquivo pessoal)

"O risco de Arábia Saudita fabricar uma arma nuclear não é maior do que era anteriormente. As ambições de Riad em relação a isso estão ligadas às capacidades do Irã. O acordo com a Arábia Saudita poderia proporcionar mais previsibilidade e maior influência para os EUA sobre o futuro programa nuclear saudita. No mínimo, ele impede que o país avance rapidamente no enriquecimento de urânio com outros parceiros estrangeiros, como o Paquistão. No entanto, quando todos os detalhes forem divulgados, acompanharemos atentamente a existência de brechas."

Sarah Burkhard, especialista senior do Institute for Science and International Security (Instituto de Ciência e Segurança Internacional, em Washigtom D.C.) 

Kelsey Davenport, diretor de Política de Não Proliferação da Arms Control Association (Associação para o Controle de Armas)
Kelsey Davenport, diretor de Política de Não Proliferação da Arms Control Association (Associação para o Controle de Armas) (foto: Arquivo pessoal )

"Mesmo que o acordo se concretize, a Arábia Saudita ainda levará anos para desenvolver armas nucleares. Portanto, não há ameaça iminente. Além disso, é pouco provável que Riad tome medidas imediatas para construir uma bomba, uma vez que tal iniciativa desencadearia sanções e uma reação internacional negativa. O cenário mais provável é que a Arábia Saudita avance até o limiar da capacidade nuclear, adquirindo os meios necessários para construir uma bomba, caso decida fazê-lo."

Kelsey Davenport, diretor de Política de Não Proliferação da Arms Control Association (Associação para o Controle de Armas)

Rebeldes do Iêmen atacam no Mar Vermelho

Os rebeldes houthis do Iêmen reivindicaram ataques contra dois navios petroleiros sauditas no Mar Vermelho, abrindo nova frente na guerra entre os Estados Unidos e o Irã, que continua a se expandir pela região. A reivindicação ocorreu no momento em que os Estados Unidos lançaram nova onda de bombardeios contra alvos militares iranianos, na 12ª noite consecutiva da ofensiva americana ao Irã.

Além disso, o presidente Donald Trump ameaçou destruir pontes e usinas de energia no Irã em resposta a qualquer ataque contra embarcações no Estreito de Ormuz, enquanto Teerã advertiu que dará uma "resposta contundente".

"Nossa doutrina de defesa é clara: olho por olho.Qualquer agressão contra o Irã, incluindo nossa infraestrutura, exigirá uma resposta forte e decisiva. Aqueles que contribuírem para tal agressão, seja qual for o tipo de apoio, também serão considerados alvos legítimos", avisou o chanceler iraniano, Abbas Araghchi.

Trump também advertiu que a guerra, que custou aos EUA mais de US$ 37 bilhões (cerca de R$ 187 bilhões), "não terminou"."Cada vez que a República Islâmica do Irã atacar um navio no Estreito de Ormuz, seja com mísseis, drones ou qualquer outro tipo de arma ou munição, os Estados Unidos vão bombardear e destruir uma ponte ou uma central elétrica", escreveu o republicano em sua plataforma Truth Social.

Violação

Por meio de um comunicado publicado no Telegram, os houthis afirmaram que "realizaram uma operação militar de grande impacto contra dois petroleiros sauditas que violaram o bloqueio", identificando as embarcações como Encelia e Layla. O grupo controla o estratégico Estreito de Bab el-Mandeb, no sul do Iêmen, passagem obrigatória para os navios que seguem em direção ao Canal de Suez, rota que leva à Europa.

A agência britânica de segurança marítima UKMTO informou que um projétil atingiu um navio petroleiro no mar Vermelho, ao largo da costa da Arábia Saudita.

Antes do ataque dos houthis, nove navios retornaram para perto do Estreito de Bab el-Mandeb no Mar Vermelho. Na terça-feira, os rebeldes iemenitas ameaçaram um bloqueio marítimo à Arábia Saudita. A ONU externou preocupação com as ameaças doshuthis e reiterou anecessidade de pleno respeito às resoluções pertinentes do Conselho de Segurança. 

  • Sarah Burkhard, especialista senior do Institute for Science and International Security (Instituto de Ciência e Segurança Internacional, em Washigtom D.C.)
    Sarah Burkhard, especialista senior do Institute for Science and International Security (Instituto de Ciência e Segurança Internacional, em Washigtom D.C.) Foto: Arquivo pessoal
  • Kelsey Davenport, diretor de Política de Não Proliferação da Arms Control Association (Associação para o Controle de Armas)
    Kelsey Davenport, diretor de Política de Não Proliferação da Arms Control Association (Associação para o Controle de Armas) Foto: Arquivo pessoal
  • Google Discover Icon
postado em 23/07/2026 05:00
x