O funeral de Estado do líder supremo iraniano Ali Khamenei começou neste sábado (04/07), em Teerã. A data não foi escolhida por acaso: Dia da Independência dos Estados Unidos. Os caixões com os corpos dele e de familiares — inclusive da neta Zahra Mohammadi Golpayegani, de 14 meses — foram expostos pela primeira vez na Grande Mosalla, um complexo religioso onde são realizadas as tradicionais orações, em Teerã.
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Vestidos de preto, os milhares de participantes se reuniram desde as primeiras horas da manhã de ontem, mesmo antes de a televisão estatal anunciar o início oficial dos atos. Alguns exibiam cartazes vermelhos com as frases"Vingança!", "Morte aos Estados Unidos", "Morte a Israel!", "Morte a Trump". Esse foi o tom que acompanhou todas as primeiras horas do funeral, no mesmo dia em que os Estados Unidos celebram o 250º aniversário de sua independência.
A frase "Teu nome permanecerá eterno nesta terra de outro", estampava um cartaz colocado no local, em referência à autoridade máxima iraniana. Milhares de pessoas se reuniram em uma demonstração de força após a guerra contra Israel e Estados Unidos. Sob o comando de Ali Khamenei, o Irã apoiou por anos grupos armados de toda a região, entre eles o movimento islâmico palestino Hamas e o Hezbollah libanês.
A cerimônia é realizada quatro meses depois da morte do aiatolá nos bombardeios israelenses e americanos, escalando o conflito em 28 de fevereiro. Os milhares de participantes se reuniram desde as primeiras horas da manhã de ontem, mesmo antes de a televisão estatal anunciar o início oficial dos atos. o tom das hostilidades acompanhou todas as primeiras horas do funeral.
"Prometemos ao líder supremo que permaneceremos com ele até o fim. Todas essas pessoas estão aqui por ele", diz Reza, um professor universitário de 37 anos, para a Agência AFP. As autoridades estimam que entre 15 e 20 milhões de pessoas participam dessas homenagens apenas em Teerã. As manifestações estão sendo anunciadas como as maiores da história do país.
A presença mais aguardada pela população para a cerimônia é a do filho de Khamenei, Mojtaba. Mas ainda não foi confirmada até o fechamento desta edição. O filho o sucedeu no início de março como guia supremo. Supostamente ferido durante os ataques que mataram seu pai, o dirigente se expressou, até agora, apenas por meio de mensagens escritas e não apareceu em público.
"O último adeus"
Antes do início oficial da cerimônia,uma multidão aguardava na noite de sexta em frete à Grande Mosalla, para ser as primeiras a entrar. "Queremos dar um último adeus ao nosso guia e, por isso, a espera não é nem dolorosa nem difícil para nós", disse à AFP, professora Somayye Hamedi, de 44 anos, vestida com um chador preto.
Muitos dos que foram ao velório ontem choravam. Outros aguardavam sentados no chão e outro recitaram cânticos religiosos difundidos."Vir aqui é a última e a única coisa que podemos fazer" por Ali Khamenei, que "sacrificou sua vida" pelo Irã, disse à AFP, Fatemeh Nowdehi, estudante de 25 anos.
O caixão ficará exposto dia e noite até segunda-feira, em Mosalla, antes de uma procissão pelas ruas da capital. As cerimônias fúnebres terão duração de seis dias. Depois, o caixão fará escala em várias cidades do Irã e do Iraque, antes do sepultamento, em 9 de julho, na cidade santa de Mashhad, onde o guia supremo nasceu.
Para receber iranianos de todo o país, mais de 400 tendas do Crescente Vermelho iraniano foram instaladas em um grande parque da capital, segundo a AFP. Também foram colocados caminhões-pipa, prontos para refrescar a multidão diante de temperaturas que devem ultrapassar os 35°C.
Personagem da notícia
Forjado na linha de combate
Sílvio Queiroz
Ali Khamenei não era o favorito do aiatolá Khamenei, inspirador da revolução de 1979 e primeiro líder supremo da República Islâmica, para sucedê-lo no posto que, em alguma medida, equipara-se ao Poder Moderador conferido ao imperador Pedro I na primeira Constituição do Brasil independente. Até meses antes da morte de Khomeini, seu favorito era o aiatolá Hussein Ali Montazeri, um clérigo xiita com sólida formação teológica e identificado com setores radicais da juventude que protagonizaram, desde 1978, os protestos que terminaram por varrer a monarquia do xá Reza Pahlavi.
Montazeri, no entanto, identificou-se progressivamente com uma ala do clero iraniano classificada, nos anos iniciais do regime, como "progressista". Terminou por se indispor publicamente com Khomeini por ter condenado a execução de opositores, entre eles integrantes do grupo de esquerda islâmica Mujahedin-e-Khalq ("combatentes do povo"). Foram eles os responsáveis por um atentado que, em 1981, dizimou 70 líderes religiosos, naquela altura organizados no Partido Revolucionário Islâmico (PRI).
Por ironia, foi essa ação que projetou Khamenei para o núcleo central do poder em Teerã. Uma das vítimas, o aiatolá Mohammad Beheshti, era cotado para assumir a Presidência do Irã. Em seu lugar, assumiu o posto Mohammad Ali Rajai, que escapou ao atentado na sede do PRI, mas não a outro, no gabinete do primeiro-ministro Mohammad-Javad Bahonar. Em agosto de agosto de 1981, com a jovem República Islamicaa imersa na guerra iniciada pelo Iraque de Saddam Hussein, apoiado pelo Ocidente, pela União Soviética e por quase todo o mundo árabe tornou-se presidente.
Firmou-se pela lealdade incondicional ao líder supremo ao longo de toda a guerra, encerrada em 1988, e estreitou laços com a Guarda Revolucionária Islâmica, hoje a espinha dorsal da defesa do regime. Com a morte de Khomeini, em 4 de junho de 1991, a Assembleia dos Sábios, órgão religioso composto por eleição popular direta, escolheu Khamenei como o próximo líder supremo. Apesar das credenciais teológicas consideradas inferiores às de Montazeri e outros aiatolás do campo "progressista", ele mostrou habilidade para trafegar entre as correntes do clero e do regime. Ao longo de quase quatro décadas, sua palavra foi definitiva em disputas internas, inclusive nas eleições presidenciais e legislativas, e nos confrontos externos enfrentados pelo Irã, em especial com os Estados Unidos e Israel.
A morte sob bombardeio, no primeiro dia da guerra americano-israelense iniciada em 28 de fevereiro, transformou Khamenei em mártir, uma categoria reverenciada com particular devoção no islã xiita. Ele será sepultado no santuário dedicado ao Imã Reza, oitavo líder histórico do xiismo, em Mashhad, a cidade onde nasceu, em 1939. Com a eleição do filho, Mojtaba Khamenei, para sucedê-lo, a República Islâmica pode ter inaugurado uma linha de poder dinástica, cuja durabilidade será atestada nos próximos anos.
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