
A data não foi escolhida por acaso: 4 de julho. NoDia da Independência dos Estados Unidos, o Irã começa oficialmente os funerais públicos do aiatolá Ali Khamenei. Nesta sexta-feira (3/7), os caixões com os corpos dele e de familiares — inclusive da neta Zahra Mohammadi Golpayegani, de 14 meses — foram expostos pela primeira vez na GrandeMosalla, um complexo religioso onde são realizadas as tradicionais orações, em Teerã. "Teu nome permanecerá eterno nesta terra de outro", estampava um cartaz colocado no local, em referência à autoridade máxima iraniana.
As cerimônias fúnebres, que devem reunir entre 15 milhões e 20 milhões de participantes somente na capital, terão duração de seis dias. A despedida de Khamenei é uma exibição de força e de resiliência depois dos sucessivos ataques realizados pelas forças dos Estados Unidos e de Israel.
Enquanto o Irã velava o guia supremo iraniano morto em um bombardeio israelo-americano em 28 de fevereiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, visitava o Monte Rushmore, em Dakota do Sul, onde estão esculpidos os rostos dos antecessores George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelte Abraham Lincoln.
Em Teerã, os holofotes voltaram-se para Ahmad Vahidi. Foi a primeira aparição em público do chefe da Guarda Revolucionária, o exército ideológico do regime iraniano. Uma fotografia enviada pela agência de notícias Fars mostrou Vahidi com a mão sobre o caixão de Khamenei, rezando por alguns minutos.
Ele sucedeu Hossein Salami e Mohammad Pakpour, ambos mortos em ataques aéreos no início da guerra. Em declaração à televisão estatal do Irã, Vahidi enviou um recado aos americanos. "Eles precisam saber que o sangue puro do nosso imã mártir marcará mais um ponto de virada nos triunfos do amado islã em toda a arena global.Levarão para o túmulo o desejo de ver esta nação se render. Esta nação se elevará cada vez mais, dia após dia, graças a esse sangue puro", declarou.
Na segunda-feira (6/7), o cortejo com o caixão de Khamenei sairá às ruas de Teerã e chegará, na terça-feira, a Qom — cidade sagrada para o islamismo. O aiatolá será sepultado em 9 de julho, em Mashhad (nordeste), sua terra natal.
Na quinta-feira (2/7), o regime iraniano advertiu aos "inimigos do Irã" que "evitem qualquer erro de cálculo", ao prometer uma dura retaliação a qualquer ameaça ou agressão externa. Há o temor de que Trump aproveite o Dia da Independência americana para realizar ataques aéreos contra o país persa, em uma demonstração de poderio bélico.
Professor de relações internacionais da ESPM, Gunther Rudzit disse crer que Trump não deverá escalar a crise com o Irã durante o funeral. "Ele pretende deixar a guerra, que os EUA perderam, para trás. Trump quer fazer com que os americanos esqueçam essa guerra. Por isso, não tentará chamar a atenção para essa situação, a fim de não renovar essa percepção de derrota para o eleitorado", afirmou à reportagem.
Para Rudzit, a escolha do 4 de Julho para o início da visitação pública ao funeral de Khamenei apenas coincide com um feriado xiita. "Entendo muito mais como uma data religiosa do que, efetivamente, a intenção de provocar os Estados Unidos", observou o estudioso.
Em entrevista ao Correio, Abdollah Nekounam Ghadirli, embaixador da República Islâmica do Irã no Brasil, afirmou que a presença massiva e sem precedentes de iranianos no funeral de Ali Khamenei estampa o fracasso dos governos dos Estados Unidos e de Israel (leia Duas perguntas para). O diplomata prevê que a morte do guia supremo iraniano fortalecerá o Irã.
Filho e sucessor
Autoridades do regime persa compareceram em peso à Grande Mosalla para um tributo a Ali Khamenei. Entre elas, estavam o presidente Masoud Pezeshkian e o líder do Parlamento e chefe da equipe de negociadores, Mohammed Bagher Ghalibaf. Uma das expectativas é se o novo guia supremo, Mojtaba Khamenei, filho do falecido aiatolá, renderá homenagens ao pai pessoalmente. Rumores dão conta de que Mojtaba teria ficado desfigurado no bombardeio que matou sua família.
DUAS PERGUNTAS PARA...
Abdollah Nekounam Ghadirli, embaixador da República Islâmica do Irã no Brasil
Que mensagem o Irã transmitirá aos EUA e ao mundo coma despedida de seu líder supremo?
A mensagem transmitida por este imenso e histórico cortejo fúnebre é a firmeza do povo iraniano em defender a visão e a estratégia do líder mártir. Essa concentração sem precedentes representa um grande fracasso para os regimes dos Estados Unidos e de Israel; eles haviam perpetrado o covarde assassinato do líder mártir, acreditando que isso desviaria o povo iraniano e seu governo do caminho rumo à independência. O mártir Khamenei é agora ainda mais poderoso e influente do que foi durante sua vida. Ao longo de seus 37 anos de liderança, ele traçou um roteiro para o Irã que abrange pelo menos o próximo século. A continuidade desse caminho foi solidamente consolidada por seu martírio. Depois do martírio de Khamenei, o Irã emergirá mais forte e muito mais influente no cenário global.
Há algum simbolismo no fato de o funeral ocorrer no 4 de Julho?
Certamente não há conexão. No entanto, se fosse possível estabelecer uma conexão, ela seria a de descrever a vitória de uma civilização — antiga, autêntica e brilhante — sobre um ator com 250 anos de história. (RC)

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