Uma salva de bombardeios contra alvos no litoral sul do Irã, na noite de quarta-feira (8/7), indicou que os Estados Unidos parecem dispostos a iniciar uma nova rodada de luta aberta no Oriente Médio, ainda que não tenham descartado de maneira definitiva o acordo negociado em junho com mediação de Paquistão, Catar e Turquia. O estopim para a retomada das hostilidades, segundo Washington, foram ataques iranianos contra navios no Estreito de Ormuz, via naval crítica para o mercado de petróleo e ponto nevrálgico do conflito iniciado pela ofensiva de EUA e Israel contra a República Islâmica, em 28 de fevereiro. Falando na capital turca, Ancara, durante a reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o presidente Donald Trump declarou "morto" o cessar-fogo com Teerã e prometeu "ataques duros ainda nesta noite".
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Analistas e observadores se debruçam sobre o cenário no Golfo Pérsico desde a última rodada de fogo cruzado, com bombardeios norte-americanos contra alvos iranianos, na terça-feira. Na madrugada seguinte, o Irã revidou lançando mísseis contra instalações militares norte-americanas no Bahrein, sede da 5ª Frota, e no Kuwait, onde ficam aquarteladas suas forças terrestres. Em resposta, Trump afirmou aos parceiros na aliança militar que o memorando de entendimento assinado em Islamabad "acabou, da minha parte". Não chegou a anunciar a retirada dos "excelentes negociadores" que seguem trabalhando no acordo definitivo com a contraparte iraniana, mas disse considerar o esforço "uma perda de tempo", e referiu-se à nova liderança do regime de Teerã como "escória".
"Podemos considerar que Trump busca uma segunda fase na guerra contra o Irã, mesmo sabendo que não tem apoio do Congresso", pondera o professor Roberto Goulart Menezes, titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB. Ele chama a atenção para a coincidência entre a nova crise no frágil cessar-fogo e os funerais do aiatolá Ali Khamenei, segundo líder supremo da República Islâmica, morto no primeiro dia de guerra — uma cerimônia para a qual a Casa Branca prometeu um período de trégua. "Ao atacar o Irã durante a celebração, desrespeitando os rituais, Trump procura cutucar o Irã para que aceite os termos que os EUA querem impor."
Assim como o estudioso do Irel, o professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM, acredita que os EUA "não estão em condição de empurrar o Irã a uma rendição total, como não tiveram durante os quatro, cinco meses de conflito". Ele lembra que "mesmo assessores próximos" entenderam que os EUA "não tinham como derrotar militarmente" o Irã — por isso convenceram o presidente a aceitar o acordo de Islamabad. "Do ponto de vista estratégico, nada mudou", conclui Rudzit.
Menezes avalia que o retorno à "guerra total" dos primeiros 40 dias do conflito não interessa ao regime islâmico. "O Irã, de início, não queria a guerra, e segue querendo garantias de que os ataques não voltarão a ocorrer", afirma. "Quer reconstruir a parte do país que foi destruída, quer retomar a normalidade, inclusive aceitou reabrir o Estreito de Ormuz. Mas as ações dos EUA empurram para uma situação de alerta total." Para o professor da ESPM, "o regime de Teerã ganhou a guerra e sabe que tem esse instrumento para pressionar o governo americano". Ele minimiza as ameaças de Trump — "não dá para acreditar em nada que ele diz" —, e lembra "uma antiga máxima que diz que, em toda guerra, a verdade é sempre a primeira baixa".
Ambos os especialistas apontam as eleições legislativas de novembro, nos EUA, como um fator capaz de condicionar a condução do conflito pela Casa Branca. "Trump segue correndo contra o tempo para encerrar o conflito, apesar de estar dando declarações no sentido contrário", diz o professor do Irel/UnB. "Ele sabe que o último recurso que tem é enviar tropas para invadir o Irã, mas isso poderia, certamente, voltar-se contra seus objetivos de manter o controle da Câmara e do Senado, ou pelo menos de uma das casas do Congresso". Gunther Rudzit vai na mesma linha: "Voltar a uma guerra total tem custo econômico muito grande: o preço do petróleo já disparou, como o da a querosene de aviação, e a gasolina também vai subir nos postos dos EUA. Quanto mais perto da eleição, esse efeito econômico vai ser pior para o Partido Republicano".
