América do Sul

Venezuela começa a moldar o seu futuro após queda de Maduro

Negociações para impulsionar a transição política rumo à era pós-chavismo, sob mediação dos EUA, começam com esperança, mas também preocupação. Especialistas avaliam as chances de sucesso do diálogo

Sindicalista envolto na bandeira da Venezuela assina outra bandeira, durante protesto pelas eleições, na última terça-feira, em Caracas  -  (crédito: Federico Parra/AFP)
Sindicalista envolto na bandeira da Venezuela assina outra bandeira, durante protesto pelas eleições, na última terça-feira, em Caracas - (crédito: Federico Parra/AFP)

Pela primeira vez, autoridades do governo da presidente encarregada da Venezuela, Delcy Rodríguez, e lideranças da oposição iniciaram um diálogo mediado pelos Estados Unidos. A negociação de uma transição política, após a deposição de Nicolás Maduro, começou neste sábado (1º/8) com o desfalque importante de María Corina Machado, principal adversária do regime chavista e laureada com o Prêmio Nobel da Paz. Nos últimos dias, manifestantes saíram às ruas de Caracas para exigir "eleições já", em desafio ao Palácio de Miraflores.

Na sexta-feira, Alejandro Fleming, ex-ministro de Turismo da Venezuela e ex-embaixador na União Europeia, afirmou que a participação de María Corina seria "fundamental". "O que for decidido vai contribuir para a redemocratização da Venezuela", aposta. 

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Fundador e ex-diretor do Centro de Estudos Políticos da Universidad Católica de Caracas, Benigno Alarcón avalia que as negociações entre oposição e governo começam em um clima que oscila entre o otimismo e ceticismo. "Este é o 18º processo de diálogo, e todos sabemos que as negociações anteriores não deram nenhum resultado positivo. Por isso, o ceticismo é mais do que justificado. Por outro lado, há algumas razões para sermos otimistas'", admitiu ao Correio.

Alarcón ressaltou que a atual conjuntura é muito diferente das anteriores. Segundo ele, jamais ocorreu uma negociação condicionada por um país estrangeiro, que tem a capacidade de sujeitar decisões tomadas na mesa e tentar obrigar as partes a cumprirem com o que acordam. 

"O que podemos esperar dependerá da atitude a ser tomada pelos EUA durante a mediação. Se os Estados Unidos deixaram que as negociações sigam em frente como mais um processo entre os venezuelanos, à semelhança dos 17 anteriores, então o diálogo não terá resultado. Agora, se houver uma intervenção ativa dos americanos, veremos algo diferente. Nesse caso, poderemos ver acordos que serão obrigados de se cumprir", comentou o professor da Universidad Católica de Caracas.

Em resumo, ele entende que, se os EUA assumirem apenas uma postura facilitadora, sem intervirem, a negociação fracassará; "se condicionarem o processo e utilizarem suas alavanças de poder sobre o regime da Venezuela, e sua influência sobre a oposição, o processo poderá ter final feliz". 

O economista e dissidente Roberto Cabezas, ex-ministro das Finanças da Venezuela durante o governo de Hugo Chávez, afirmou à reportagem que movimentos políticos estão ansiosos e vigilantes. "O desejo é de que esse diálogo não seja uma fraude, além de trair a aspiração da Venezuela de realizar, o quanto antes, eleições presidenciais com uma instituição eleitoral imparcial. Se concordarem, o país apoiará a medida; caso contrário, a crise de ilegitimidade de Delcy Rodríguez se agravará." 

Cabezas admite que a oposição se fortaleceu depois de 3 de janeiro. Segundo ele, a deposição de Maduro levou ao enfraquecimento da ditadura, facilitando a libertação de presos políticos, a suspensão da perseguição e o sequestro de lideranças. "No entanto, a ditadura mantém-se no poder, por meio da fraude eleitoral de 28 de julho de 2024. Apesar disso, a liderança de María Corina Machado é forte e tem o apoio das maiorias populares que desejam a mudança."

Progressos limitados

José Vicente Carrasquero Aumaitre, professor de ciência política da Universidad Simón Bolívar (em Caracas), lamenta o fato de os atores venezuelanos não terem capacidades iguais nem definirem livremente a agenda de diálogo. "É mais como uma mesa para acordos visando implementar um roteiro estabelecido pelos EUA, que detêm um poder coercitivo decisivo", disse ao Correio.

O estudioso espera progressos concretos, ainda que limitados, como a libertação de presos políticos, o fim da perseguição a opositores, a restauração dos direitos políticos e o estabelecimento das garantias eleitorais. "O risco é o de que Delcy Rodríguez e seu irmão, Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional), tentam atrasar o processo, exigindo o levantamento de sanções ou a liberação de recursos. Essas decisões não dependem das forças democráticas, mas exclusivamente de Washington." 

Ainda segundo Aumaitre, a remoção de Maduro do poder eliminou o centro de autoridade do regime e abriu brecha para que a oposição se fortaleça na luta pela recuperação da democracia. "A questão é que a estrutura chavista continua controlando as instituições, os corpos de segurança e boa parte da adminstração pública", observou. Ele entende que a oportunidade para as forças democráticas deve-se ao fato de a estrutura agora depender da tutela e das decisões dos EUA. "A oposição poderá se fortalecer se mantiver a coesão, se preservar a legitimidade popular e se conseguir converter a pressão americana em resultados institucionais concretos. Porém, sua margem de autonomia é reduzida: ela não controla as armas, os recursos nem o ritmo do processo."

Aumaitre reconhece o perigo de a Venezuela passar de um regime autoritário interno a uma transição excessivamente tutelada desde o exterior. "Os EUA não deveriam substituir a vontade política dos venezuelanos nem converterem-se na fonte definitiva da legitimidade."

 

Eu acho...

"O país espera que o governo dos Estados Unidos apoie a transição para a democracia e respeite nossa soberania. Um governo eleito pelo povo terá a legitimidade para reestruturar o país e manter relações amistosas e de cooperação com os EUA. Até o momento, não vejo o governo americano como um obstáculo à restauração da nossa democracia."

 

Rodrigo Cabezas, economista, ex-ministro das Finanças da Venezuela (2007), dissidente e membro da esquerda democrática

"Washington detém a capacidade real de impor condições, gerir incentivos e determinar o ritmo da transição. Isso pode favorecer a democratização se seu poder for usado para desmantelar a repressão e garantir eleições. Mas pode ser dificultado se a estabilidade, o petróleo, a segurança regional ou os interesses estratégicos dos EUA prevalecerem sobre a soberania popular."

 

José Vicente Carrasquero Aumaitre, professor de ciência política da Universidad Simón Bolívar (em Caracas)

 

"Até o momento, priorizou-se um processo de normalização das relações econômicas com os Estados Unidos em detrimento da democratização. É aqui que começamos a nos preocupar.  O momento certo para enfrentar a democratização dependerá, em grande medida, de os EUA manterem ou controlarem certas alavancas, como a pressão militar e a econômica."

 

Benigno Alarcón, fundador e ex-diretor do Centro de Estudos Políticos da Universidad Católica de Caracas

 

  • Simpatizante da opositora María Corina Machado participa da manifestação contra o governo
    Simpatizante da opositora María Corina Machado participa da manifestação contra o governo Foto: Juan Barreto/AFP
  • Homem segura cartaz com a inscrição
    Homem segura cartaz com a inscrição "Trump traidor", em alusão à intervenção dos EUA na Venezuela Foto: Federico Parra/AFP
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postado em 02/08/2026 05:00
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