Imigração na Europa

Crise em Ceuta é prato cheio para a extrema-direita

Invasão de milhares de marroquinos ao enclave espanhol de Ceuta deve ser usada no reforço do discurso de partidos ultraconservadores. Crise migratória aumenta o risco de medidas mais restritivas para fechar as fronteiras do continente

Migrantes caminham em direção a Fnideq, no norte do Marrocos, depois de retornarem de Ceuta -  (crédito: Abdel Majid Bziouat/AFP)
Migrantes caminham em direção a Fnideq, no norte do Marrocos, depois de retornarem de Ceuta - (crédito: Abdel Majid Bziouat/AFP)

As recentes imagens de milhares de migrantes atravessando a nado do Marrocos até o enclave espanhol de Ceuta, como se fossem uma torrente humana, chocaram a comunidade internacional e preocuparam especialmente a União Europeia (UE). Para especialistas consultados pelo Correio, a mais recente crise no continente pode reforçar o discurso de partidos da extrema-direita e facilitar a imposição de políticas migratórias mais rígidas. Em 2027, a França e a Espanha realizarão eleições gerais em meio ao crescimento, respectivamente, do Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, e do Vox, de Santiago Abascal. Em Portugal, o partido Chega!, de André Ventura, também vem ganhando força nos últimos anos. 

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A espanhola Berta Álvarez-Miranda, professora de sociologia da Universidad Complutense de Madrid e especialista em sociologia das migrações, avalia que imagens como as vistas em Ceuta alimentam a simpatia por uma extrema-direita que promete mais segurança e mais "seleção" dos imigrantes. "A impressão de falta de controle nas fronteiras que essas imagens geram no público é facilmente explorada politicamente para defender políticas fronteiriças mais restritivas", explicou ao Correio. "A meu ver, a Europa precisa implementar efetivamente as políticas existentes, em vez de reformá-las, abordando as fragilidades na cooperação com os países terceiros envolvidos na gestão dos fluxos migratórios e na prevenção da perda de vidas humanas."

Para Álvarez-Miranda, a recente entrada massiva em Ceuta pode incentivar políticas europeias de imigração mais restritivas. Um fenômeno ocorrido nos últimos anos, em resposta a uma série de eventos nos quais países de origem ou de trânsito de migrantes negligenciaram o controle das fronteiras ou produziram, de forma intencional, um fluxo massivo. "Temos exemplos na mesma Ceuta e na Polônia, Letônia e Lituânia, em 2021; na Finlândia, em 2015 e em 2023; e na Grécia, em 2015 e em 2020", lembrou.  

Professor da Universidade Abdelmalek Essaadi (em Tétouan, no Marrocos), Ahmed Dardari explicou ao Correio que muitos governos interpretam o movimento irregular de migrantes como um teste da habilidade da UE para proteger suas fronteiras externas. "Eles temem que o fenômeno possa se espalhar para seus limites territoriais, forçando-os a apertarem os controles fronteiriços, os procedimentos de asilo e o retorno dos migrantes. Enquanto Ceuta não for devolvida ao Marrocos, o fluxo de migrantes continuará sendo uma possibilidade a qualquer momento", advertiu. 

Dardari lembrou que a invasão a Ceuta coincide com a ascensão de partidos de extrema-direita e populistas. "Eles exploram tais crises para endurecer suas posições sobre a imigração, associando-a a riscos de segurança, econômicos e sociais. Também exercem pressão interna, com a adoção de políticas mais rigorosas, a fim de evitar parecerem lenientes aos olhos da opinião pública", disse o marroquino. 

Ainda segundo Dardari, a crise em Ceuta renovou os apelos por uma revisão abrangente da política migratória da Europa, enfatizando o papel do Marrocos como parceiro no enfrentamento dos desafios migratórios e de segurança fronteiriça, além da necessidade de expansão da cooperação entre nações de origem e trânsito. "Ela foi explorada para influenciar o equilíbrio político na União Europeia, especialmente depois que a Espanha tentou anexar os enclaves marroquinos de Ceuta e Melilla às suas reivindicações territoriais no Atlântico — proposta rejeitada pelos EUA e pela Turquia."

Myriam Cherti — investigadora do Centro sobre Migração, Política e Sociedade da Universidade de Oxford — admitiu que a escalada da travessia em Ceuta pode ser usada para justificar políticas migratórias mais rigorosas. "Inclusive, para reforçar narrativas de extrema-direita sobre fronteiras descontroladas, soberania e fracasso das proteções asilo. Ceuta e Melilla são fronteiras simbólicas, o que torna fácil apresentar a crise como uma ameaça mais ampla à Europa", disse à reportagem. 

Descentralização

A estudiosa de Oxford vê a crise no enclave como um "poderoso pretexto" para os ultraconservadores. Mas descarta que ela forneça base factual sólida para retratar a migração em toda a Europa como algo uniformemente fora de controle.

Cherti espera que a UE adote uma combinação de controles físicos de fronteiras mais rigorosos, procedimentos mais ágeis e maior vigilância digital. "Uma resposta política mais sustentável combinaria a gestão fronteiriça com operações de resgate eficazes, acolhimento humanitário, decisões individuais sobre asilo e retorno, salvaguardas para crianças, monitoramento independente e acesso à mobilidade legal."

O marroquino Mehdi Lahlou, professor de economia da Universidade de Rabat e especialista em migração internacional, considera como "bastante evidente" a tentativa da extrema-direita de "sequestrar" a crise em Ceuta. Ele lembrou que uma parcela crescente da opinião pública europeia acredita na possibilidade de fazer mais para "defender" as fronteiras externas do continente. "Além da militarização dessas fronteiras e das repatriações em massa de migrantes considerados indesejáveis, parece difícil ir além, sob o risco de transformar todos os países de 'origem' em inimigos das nações europeias", disse à reportagem.

 

Eu acho...

"A UE busca se proteger contra situações em que países de origem ou de trânsito usam migrantes como moeda de troca — visando ajuda financeira, redução de sanções, apoio geoestratégico ou ganhos territoriais. Isso ocorre por meio de medidas emergenciais, nas quais os países se comprometem ao apoio mútuo, e da flexibilização des normas de asilo."

Berta Álvarez-Miranda, professora da Universidad Complutense de Madrid e especialista em sociologia das migrações

"A crise de Ceuta atribui responsabilidade a um país específico e exige uma abordagem europeia conjunta, baseada na partilha de responsabilidades, no reforço da cooperação com o Marrocos e com os países de origem, por meio de investimentos em desenvolvimento, no combate às redes de tráfico de pessoas e no estabelecimento de canais de migração legais e seguros."

Ahmed Dardari, professor da Universidade Abdelmalek Essaadi (em Tétouan, no Marrocos)

  • Homem reza ao chegar em segurança a Ceuta; mulher recebe ajuda na travessia (D)
    Homem reza ao chegar em segurança a Ceuta; mulher recebe ajuda na travessia (D) Foto: Jorge Guerrero/AFP
  • Com a ajuda de uma boia e amparada por outro marroquino, mulher nada para alcançar Ceuta
    Com a ajuda de uma boia e amparada por outro marroquino, mulher nada para alcançar Ceuta Foto: Jorge Guerrero/AFP
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postado em 09/08/2026 05:00 / atualizado em 09/08/2026 07:30
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