
A menos de um mês de receber na Casa Branca o colega Xi Jinping, Donald Trump colocou na agenda do encontro mais um capítulo nas conturbadas relações comerciais — e diplomáticas — entre Estados Unidos e China, as duas maiores potências econômicas. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou na segunda-feira (25/8) um novo e rigoroso pacote de sanções destinado a isolar o Irã, batizado pelo presidente como "Dia D da guerra econômica". A ideia é ameaçar também empresas e outros agentes de terceiros países que mantenham relações comerciais e financeiras com Teerã com punições, inclusive a exclusão do sistema internacional baseado no dólar.
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O governo comunista de Pequim reagiu no dia seguinte, e sem rodeios. O porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Lin Jian, condenou a adoção de "sanções ilegais unilaterais" e afirmou a determinação do país para tomar "todas as medidas necessárias" para defender seus interesses. "Nossa cooperação com o Irã sempre foi conduzida dentro dos limites do direito internacional e não deve ser sujeita a interferências ou interrupções", arrematou.
Em particular, a capacidade da China para responder efetivamente a um bloqueio no sistema financeiro internacional é objeto de debate entre especialistas e estudiosos. "Pequim construiu mecanismos importantes para reduzir sua vulnerabilidade ao dólar. O próprio Tesouro dos EUA reconhece que grande parte do petróleo iraniano vendido à China é liquidada em iuanes", disse ao Correio o professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM. "Mas isso não significa que a China disponha hoje de um substituto integral para o sistema dólar. Pode resistir, mas não é imune."
Trunfo
"A capacidade de resposta chinesa está, sobretudo, na sua capacidade industrial e na dependência da economia dos EUA em relação ao país, aí incluídos os minerais críticos e as terras raras", analisa Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB. Ele lembra, ainda, o trunfo representado pela ampliação da presença diplomática de Pequim na América Latina, que o governo Trump volta a tratar como "área de influência natural" dos EUA. Assim como o impasse militar com o Irã no Oriente Médio, "a presença da China na região é uma preocupação incluída por Trump na agenda" do encontro, marcado para 24 de setembro.
O especialista da ESPM vê o cerco econômico ao Irã como "mais uma variável dentro de uma negociação muito maior, que envolve tarifas, tecnologia, inteligência artificial, cadeias produtivas e competição estratégica". E aposta que, na visita do presidente chinês, o anfitrião usará as sanções secundárias como instrumento de pressão, antes da reunião de cúpula em Washington. "O fato de o novo pacote ter poupado, até agora, grandes instituições financeiras chinesas pode ser lido exatamente dessa maneira: a ameaça talvez seja, no momento, mais valiosa do que sua execução", pondera.
Rudzit avalia que Pequim procura, nesse novo round da disputa comercial com Washington, "algo além de apenas fazer sua voz ser ouvida", em assuntos de alcance global. "Está afirmando que não reconhece aos EUA o direito de determinar unilateralmente com quem terceiros países podem manter relações econômicas", explica. "Trump usa uma capacidade que decorre da centralidade do dólar para dar alcance extraterritorial às suas decisões. A China contesta justamente essa capacidade."
Nesse terreno, o professor do Irel/UnB identifica como tática de Xi "explorar as contradições dos EUA e tirar proveito das trapalhadas políticas" de sua contraparte. "A China evita disputar e se manifestar de forma contundente em certos temas internacionais", observa Menezes. "Enquanto vai estreitando os vínculos com o Sul Global, isso vai fortalecendo sua posição, mas não implica que tenha um roteiro bem traçado para criar uma ordem global alternativa aos EUA."
Saiba Mais
Três perguntas para
Como você avalia a possibilidade de os EUA imporem sanções a empresas, instituições ou personalidades da China, no âmbito do pacote anunciado para asfixiar economicamente o Irã?
Os EUA já vêm sancionando empresas chinesas envolvidas com petróleo iraniano, aquisição de tecnologia e redes de financiamento. O ponto decisivo, agora, seria subir um degrau e atingir instituições financeiras importantes, ameaçando seu acesso ao sistema financeiro baseado no dólar. Scott Bessent deixou explícito que nenhum país estaria fora do alcance das sanções.
A reação inicial da China sinaliza a determinação do regime de fazer sua voz ouvida em assuntos de alcance global?
A resposta foi bastante explícita: Pequim rejeitou sanções unilaterais não autorizadas pelo Conselho de Segurança da ONU, afirmou que sua cooperação com o Irã é legítima e avisou que adotará as medidas necessárias para proteger seus interesses. Portanto, a disputa não é apenas sobre o Irã: é também sobre quem pode estabelecer regras e impor custos no Sistema Internacional.
Em mais esse round nas disputas comerciais entre as duas maiores potências econômicas, qual delas parece mais sujeita a "piscar primeiro"?
Eu evitaria apostar que uma das duas simplesmente “piscará”. Acho mais provável que vejamos concessões táticas dos dois lados, sem que nenhum dos lados abandone sua posição estratégica. Trump enfrenta limites: uma escalada contra grandes instituições chinesas poderia repercutir sobre comércio, cadeias produtivas, inflação e mercados americanos. A China pode tolerar custos econômicos significativos, quando considera que estão em jogo interesses estratégicos, mas também depende profundamente do comércio internacional e não tem interesse em uma ruptura financeira descontrolada. (SQ)
Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM
Chefe da CIA visita Moscou em segredo
Um avião militar que partiu dos Estados Unidos e fez escala na Letônia pousou na manhã de ontem em Moscou, sem anúncios oficiais, para levar à capital russa o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), John Rattcliffe, segundo informaram a rede de TV CBS e o site Axios — conhecido por ter conexões nos bastidores de Washington. Até o fim do dia, nenhum dos dois governos havia confirmado a visita, que seria a primeira do chefe da CIA à Rússia e a de mais alto escalão desde que Donald Trump retornou à Casa Branca.
Nas últimas semanas, circularam nos EUA especulações sobre uma possível viagem à Rússia dos enviados presidenciais Steve Witkoff e Jared Kushner, embora nenhuma data tivesse sido sido confirmada. Em Moscou, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que "não dispunha de informações" sobre a presença de Ratcliffe, nem sobre qualquer reunião com emissários norte-americanos prevista para os próximos dias na sede do governo. O avião decolou de volta para a capital letã, Riga, no início da tarde (hora local).
"Não é comum que funcionários norte-americanso desse escalão visitem Moscou repentinamente e sem anúncio, a menos que haja alguma coisa urgente", disse à emissora pública britânica BBC John Foreman, que serviu como adido militar do Reino Unido na capital russa entre 2019 e 2022. O oficial citou como possível objetivo da viagem um contato para evitar uma escalada de tensão entre EUA e Rússia, relacionada a uma recente atividade de drones que causou alarme em aeroportos da Alemanha. O Kremlin é visto como suspeito pelo incidente, que estaria relacionado à guerra na Ucrânia.
O conflito, iniciado em 2022, motivou a imposição de sanções de Washington a Moscou e estremeceu as relações bilaterais no governo de Joe Biden. Donald Trump, que como candidato prometeu "acabar com a guerra em 24 horas", se eleito, ensaiou uma reaproximação e recebeu o colega Vladimir Putin no Alasca, no ano passado, mas não conseguiu progressos na direção de um acordo de paz, ou ao menos um cessar-fogo.

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