O cenário é distante do programado um ano atrás, quando o governo de Cuba deu largada para um extenso calendário de eventos — entre solenidades, colóquios e festivais de arte — comemorativos do centenário de nascimento de Fidel Castro, patriarca do regime socialista implantado pela revolução de 1º de janeiro de 1959. A data será celebrada nesta quinta-feira (13/8), com o país em risco permanente de apagão: desde que invadiram a Venezuela para sequestrar o presidente Nicolás Maduro, os Estados Unidos impõem à ilha um agressivo bloqueio naval que impede a chegada de petróleo.
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Sem a entrada de combustível, não apenas estão paralisados os transportes. A geração de eletricidade depende de usinas movidas a diesel, e nos últimos meses se sucedem os apagões, com momentos de escuridão total se alternando com outros em que a eletricidade é disponível apenas algumas horas por dia. Hospitais, escolas e empresas, em geral, funcionam com escalas reduzidas. Quem trabalha como autônomo, de casa — os chamados cuentapropistas —, levanta por vezes em plena madrugada para aproveitar as horas úteis.
Tania Peón, diretora de Saúde Mental na capital, Havana, relata que grande parte da população vive em "estado de alerta" permanente. "As pessoas passam o tempo todo tentando resolver necessidades básicas", explica. "É estresse em cima de estresse", enfatiza. Uma pesquisa realizada em 2025 com adultos detectou níveis "extremamente severos" de depressão e ansiedade, diretamente relacionados aos apagões recorrentes e prolongados. Claudia Sifredo, estudante de 29 anos, frequenta no hospital Calixto García um grupo de autoajuda criado para amortecer o impacto da crise. "Tudo é caótico... tanta incerteza que a gente nem sabe como levar o dia a dia", desabafa.
"Cuba vem celebrando oficialmente o centenário de Fidel Castro durante todo o ano de 2026, com marchas, jornadas culturais e atividades acadêmicas", disse ao Correio Jorge Duany, catedrático emérito de antropologia na Universidade Internacional de Miami (EUA). "Mas a grave crise econômica, energética e demográfica deve limitar o alcance e o entusiasmo, até pelas dificuldades para deslocamento, que condicionam o ambiente dos festejos."
Modernização
Ainda assim, ressalta o estudioso, "as autoridades reiteram o compromisso com o legado de Fidel, insistindo em um discurso de resistência às pressões dos EUA". Na reta final para o centenário, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou um pacote de 176 reformas que abrem mais e mais setores da economia ao capital privado, inclusive externo, e reduzem o aparato burocrático, embora mantendo na essência o planejamento centralizado. "Elas representam a tentativa mais ambiciosa de modernizar o modelo socialista da ilha", avalia Duany, ex-diretor do Instituto de Investigações sobre Cuba na universidade.
Assim como ele, o professor Paolo Spadoni, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade de Augusta, no estado norte-americano da Geórgia, classifica como "ambicioso" o pacote de reformas, por "outorgar um papel sem precedentes às forças de mercado e aos empreendedores privados, reconhecendo implicitamente as deficiências crônicas do modelo econômico socialista". Spadoni acredita que as medidas podem "reconfigurar a economia de maneira fundamental, em um período relativamente curto". Mas pondera que "o impacto final dependerá de como elas se implementem".
Ambos os especialistas identificam a inspiração do projeto nas experiências bem-sucedidas com a abertura econômica na China e no Vietnã. "Nos dois países, as reformas combinaram uma maior abertura para o mercado com a preservação do sistema de partido único", explica Duany. "Cuba parece se encaminhar também para uma 'economia de mercado socialista'", arrisca.
Spadoni lembra que os processos de abertura dos regimes comunistas asiáticos "começaram há muitas décadas, em condições externas muito distintas", e se caracterizaram pelo gradualismo. Em Cuba, observa, "esses esforços reformistas parecem impulsionados menos por uma convicção genuína sobre os benefícios de uma economia mais orientada para o mercado do que pela grave crise econômica que o país atravessa, sob uma pressão estadunidense sem precedentes". O professor de Augusta acredita que "o tempo dirá como serão a economia e o sistema político da ilha nos próximos meses" — a depender da evolução das relações com Washington.
"O governo Trump sustenta que tem pouca responsabilidade pela crise atual, enquanto o governo de Havana insiste em que as recentes reformas são uma decisão soberana, alheia às sanções", analisa Spadoni. "Ambas as afirmações são insustentáveis."
