ESTADOS UNIDOS

Taxas de crédito de longo prazo nos EUA atingem maior nível desde 2007

Rendimento dos títulos do Tesouro americano de 30 anos, ou seja, os juros pagos pela dívida americana nesse prazo, terminou no início do dia em 5,34%, antes de recuar ligeiramente

As taxas de juros da dívida pública dos Estados Unidos de longo prazo atingiram nesta terça-feira (18/8) seu nível mais alto desde 2007, ilustrando os riscos inflacionários do conflito no Oriente Médio e as preocupações com o nível de endividamento do país.

O rendimento dos títulos do Tesouro americano de 30 anos, ou seja, os juros pagos pela dívida americana nesse prazo, terminou no início do dia em 5,34%, antes de recuar ligeiramente.

Os Estados Unidos não desembolsavam tanto por sua dívida havia quase duas décadas, quando ocorreu a crise das hipotecas em 2007-2008.

A taxa dos títulos de 10 anos estava em 4,71%, ante 3,94% antes dos primeiros bombardeios israelenses e americanos contra o Irã, no fim de fevereiro.

Com o barril de petróleo girando em torno de US$ 90 após mais de cinco meses de hostilidades no Oriente Médio, "os investidores estão cada vez mais preocupados com a possibilidade de um choque inflacionário ainda prolongado", avalia Fiona Cincotta, analista da Forex.com.

A trégua nos preços observada em julho nos Estados Unidos - a inflação desacelerou para 3,4% na comparação anual - pode ser de curta duração, alertam os especialistas.

Nessas condições, os investidores exigem rendimentos mais elevados para financiar o governo federal, de modo a compensar os aumentos de preços, que corroem com o tempo o valor de seu capital emprestado.

Trata-se de um novo revés para o presidente Donald Trump, que prometeu reduzir os preços e os custos de endividamento.

A forte alta das taxas observada nesta terça-feira é apenas o mais recente de uma sucessão de episódios semelhantes, como ocorreu em maio ou no fim de julho. Eles costumam ocorrer após altas nos preços do petróleo.

"O mercado teme que o Fed [Federal Reserve, o banco central dos EUA] demore a reagir" diante da expectativa de uma inflação maior, avalia Sam Stovall, analista da CFRA, em declarações à AFP.

"Os rendimentos (dos títulos) estão subindo porque o mercado considera que o Federal Reserve poderia reagir lentamente demais diante dos preços persistentemente altos do petróleo e da inflação obstinadamente elevada."

Diante de uma inflação alta, o Fed pode usar as taxas de juros como ferramenta, elevando-as para encarecer o crédito e, assim, reduzir as pressões sobre os preços.

Mas, se a instituição permanecer à margem, os investidores estarão dispostos a agir por conta própria, acrescenta Stovall.

"A ausência de uma orientação clara por parte do Fed desde que Kevin Warsh assumiu suas funções como presidente e encerrou toda comunicação prospectiva dirigida aos mercados (...) foi um fator que alimentou a alta" das taxas, explica, em uma nota, Neil Wilson, analista da Saxo Markets.

A IA como concorrente  

Segundo os analistas do Commerzbank, as preocupações do mercado "vão além da política monetária".

A dívida federal americana já supera US$ 39,9 trilhões, segundo dados oficiais do Departamento do Tesouro, quase o dobro do nível de 2010.

E o peso dessa dívida está longe de diminuir: na semana passada, foram concluídas duas emissões de títulos do Tesouro de 10 e 30 anos, totalizando US$ 67 bilhões, a taxas que não eram vistas desde 2007 e 2001, respectivamente.

O governo americano também precisa enfrentar uma concorrência crescente por parte das empresas, já que as gigantes de tecnologia recorrem cada vez mais ao mercado para financiar seus enormes gastos relacionados a centros de dados e soluções de inteligência artificial (IA).

"Taxas de juros mais elevadas implicam mecanicamente um aumento dos custos" para os americanos, lembra Sam Stovall, que já enfrentam a escalada dos preços da gasolina.

Seu aumento eleva as parcelas mensais dos financiamentos imobiliários, encarece os empréstimos para as empresas e faz subir as taxas dos financiamentos de automóveis, assim como as dos cartões de crédito, muito difundidos nos Estados Unidos.

Diante desse endurecimento das condições de financiamento, famílias e empresas tendem a reduzir seus gastos, um ajuste que poderia, a longo prazo, pesar sobre o crescimento americano.

A alta das taxas dos títulos não se limita aos Estados Unidos, já que as economias de todo o mundo são abaladas pelos temores inflacionários relacionados à guerra no Oriente Médio.

No Japão, os rendimentos dos títulos soberanos aumentaram recentemente até níveis inéditos há várias décadas, uma alta que também é observada na França e na Alemanha.

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