Em meio ao impasse nas negociações sobre o pós-guerra na Faixa de Gaza e da ofensiva crescente de colonos judeus sobre a Cisjordânia ocupada, com a conivência denunciada do Exército israelense, uma ampla frente de oposição se articula para disputar as eleições legislativas da Autoridade Nacional Palestina (ANP), em 28 de novembro. O Hamas, alvo frontal de Israel em Gaza, reuniu no início da semana representantes de outras cinco forças político-militares palestinas para discutir a apresentação de uma lista conjunta de candidatos, com o propósito de desafiar o presidente da ANP, Mahmoud Abbas. O bloco inclui grupos islâmicos e laicos e até um setor do Fatah, o partido nacionalista de Abbas.
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"O Hamas decidiu ir às urnas com uma frente nacional a mais ampla possível", disse ao Correio o analista Alon Ben-Meir, iraquiano de origem judaica, professor de relações internacionais da Universidade de Nova York. Especialista em assuntos do Oriente Médio, Ben-Meir considera a iniciativa do movimento islâmico "de dimensão estratégica, não apenas eleitoral". O Hamas "contesta a reivindicação do Fatah como representação exclusiva (dos palestinos) e expõe a convocação de eleições apenas legislativas (e não presidenciais) como uma tentativa de Abbas para renovar a própria legitimidade".
Bruno Beakline, cientista político e professor de relações internacionais na Onifin, de Porto Alegre, lembra que listas eleitorais conjuntas entre os setores críticos ao presidente da ANP "não são novidade", e se fizeram presentes nas eleições previstas para 2021 — e canceladas, de última hora, depois que o Hamas "entrou em guerra para proteger a população de Jerusalém ocupada da limpeza étnica no bairro de Sheik Jarrah", na Esplanada das Mesquitas. "A tendência é que a unidade entre os setores políticos que têm moral alto, pela longa resistência ao genocídio, é muito factível, apesar da relação sempre tumultuada entre forças laicas seculares e forças islâmicas."
O estudioso de Nova York avalia que a vitória de uma coligação anti-Abbas é "tangível", mas considera improvável que o Hamas repita a vitória de 2006 — na última eleição legislativa da ANP —, quando conquistou sólida maioria e a autoridade para formar o governo palestino. Neste ano, ao que indicam os movimentos iniciais, "o setor do Fatah ligado a Abbas decidiu disputar sozinho", embora admita alianças, desde que excluam o Hamas e a Jihad. O apoio ao partido nas pesquisas está em 21%, enquanto o Hamas "caiu de 41%, em 2006, para 28%, com 40% dos entrevistados respondendo que nenhuma das duas forças merece" liderar a ANP. "Com 200 cadeiras em jogo e a exigência de apenas 1% de votos para ter representação, o mais provável é uma fragmentação".
Rearranjo de forças
O fator capaz de fazer a balança pender para o lado dos opositores de Abbas é a aproximação de um setor do Fatah, a Reforma Democrática, liderada por Mohammed Dahlan. Natural do campo de refugiados de Khan Yunis, em Gaza, e atualmente exilado em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, Dahlan foi nos anos 1990 o braço-direito, no território, da ANP, então presidida pelo líder histórico, Yasser Arafat. Na época, reprimiu com energia o Hamas, mas acabou virtualmente expulso do Fatah em 2011, já sob comando de Abbas.
"A oposição a Abbas hoje supera antigas desavenças", pondera Ben-Meir. "Dahlan encontrou terreno comum com o Hamas na hostilidade compartilhada (ao presidente da ANP). E o 8º Congresso do Fatah aprofundou as diferenças organizativas e a competição por vagas na lista de candidatos", completa. "Uma coalizão também favorece a reivindicação de uma eleição presidencial simultânea." O analista acredita que a escalada de ataques dos colonos na Cisjordânia ocupada radicaliza o eleitorado contra a ANP, mais do que transfere votos diretamente para o Hamas". E aponta como beneficiários, também, "os rivais de Abbas no próprio campo nacionalista".
O professor brasileiro vê na atitude de resistência o capital político-eleitoral dos partidos e movimentos palestinos que denunciam a passividade da ANP sob Abbas. "A presença de colonos invasores é um acinte ao direito internacional", afirma. "Não é possível que uma situação de colaboração seja normalizada. Dessa forma, os setores políticos que combatem o colaboracionismo vão ganhar espaço."
