
Uma expedição na necrópole de Sacará, situada a cerca de 32 quilômetros ao sul do Cairo, trouxe à tona novos vestígios do Egito Antigo que prometem enriquecer a compreensão sobre o uso continuado daquela região ao longo das eras. Durante os trabalhos arqueológicos realizados na porção oeste da área dedicada à deusa Bastet, conhecida como necrópole de Bubasteion, pesquisadores identificaram a sepultura de um dignatário com cerca de 4 mil anos, acompanhada por uma estrutura arquitetônica peculiar: um portal ilusório sem saída.
O complexo funerário pertencia a Sekhentiu-Ptah, uma figura proeminente da administração estatal. Conforme detalhado em nota oficial emitida pelas autoridades governamentais de turismo e antiguidades do país, o antigo funcionário exercia atribuições de grande relevância na corte.
Suas funções abrangiam desde o cargo de camareiro do monarca e gestor das obras públicas até a supervisão dos manuscritos régios e dos escribas, além do desempenho de funções sacerdotais dedicadas à divindade Maat.
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No interior do jazigo, os especialistas registraram, além da porta cenográfica, itens destinados aos rituais de culto e manutenção do falecido, como uma bacia de higienização e uma plataforma reservada à apresentação de dádivas. No contexto cultural e de crenças da civilização egípcia, tais elementos arquitetônicos simbólicos tinham finalidade espiritual, servindo de passagem para que a alma transitasse livremente entre as dimensões terrena e pós-terrena.
Conforme noticiado pela revista norte-americana Smithsonian, as buscas no sítio, que ostenta o título de Patrimônio Mundial pela Unesco por ter integrado o conjunto funerário da antiga capital Mênfis, também revelaram um sistema subterrâneo de poços destinados a sepultamentos.
Apesar de o local ter sido alvo da ação de saqueadores em épocas remotas, as câmaras preservavam fragmentos de ossadas humanas e um acervo de bens cerimoniais. Dentre os artefatos resgatados, destacam-se mais de uma centena de figuras conhecidas como ushabti, estatuetas moldadas com o propósito de atuar como servidores do falecido na eternidade.
A necrópole abrange uma trajetória cronológica extensa. A localidade consolidou-se como o principal campo de sepultamento para a nobreza e a dinastia governante durante o Reino Antigo, período compreendido entre 2700 a.C. e 2200 a.C., mantendo seu prestígio e recebendo inumações sucessivas até o domínio romano.
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Sobre o fascínio exercido pelo local ao longo dos milênios, a publicação Smithsonian já havia resgatado a análise de Campbell Price, especialista em coleções do Egito e Sudão no Museu de Manchester, na Inglaterra. O curador enfatizou que “Sacará era o lugar ideal para ser visto morto”, pontuando ainda que o terreno contava com “essa energia numinosa e divina que ajudava a entrar na vida após a morte.”
A riqueza documental espalhada pela região atrai a atenção de historiadores desde as primeiras explorações científicas sistematizadas no século XIX. O pesquisador Magdy Shaker ressaltou à revista o valor histórico do complexo ao destacar que “além dos monumentos reais, Saqqara está repleta de túmulos de oficiais de quase todas as épocas da história do antigo Egito, muitos com inscrições e cenas de grande qualidade”.
A relevância das contínuas descobertas impulsiona também projetos de modernização na região. Em paralelo ao avanço das pesquisas arqueológicas, o governo local desenvolve intervenções de infraestrutura e ampliação dos acessos para estruturar a recepção do volume crescente de visitantes interessados em conhecer o patrimônio egípcio, conforme amplamente divulgado em matérias jornalísticas sobre a região de Sacará.

Revista do Correio
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