
Um relatório anual da UN Women (ONU Mulheres) e do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (UN Desa, pelas siglas em inglês), divulgado nesta quinta-feira (17/9), revela que apenas em 2197 o mundo alcançará a igualdade de gênero, na pior das hipóteses, e adverte que um recuo político deliberado tem revertido décadas de progresso. Intitulado Gender Snapshot 2026 (Panorama de Gênero 2026), o documento também destaca que instituições dedicadas ao avanço da paridade entre homens e mulheres têm sofrido um enfraquecimento sistemático, o que coloca as conquistas em risco. Segundo o dossiê, um em cada três mecanismos institucionais para a promoção da igualdade de gênero teve o poder institucional debilitado desde 2024. No mesmo período, 25% dessas instituições passaram por cortes financeiros, enquanto 10% perderam o controle total de seu orçamento.
Além da erosão das instituições, o relatório alerta que seis em sete países são governados por um homem. No ritmo atual, a paridade de gênero nos parlamentos nacionais não será uma realidade pelo menos até 2089. Apesar de representarem metade da população mundial, as mulheres ainda ocupam poucos espaços de poder — apenas 27,4% de assentos parlamentares e 22,4% dos cargos em gabinetes do Executivo. Nove em dez ministros da Defesa são homens. Na pasta da Economia, a proporção é de oito para cada dez. Os números também são preocupantes no que diz respeito ao comando de empresas: 5,8% dos CEOs das empresas de capital aberto são mulheres.
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"A evidência é clara: quando mulheres lideram, as sociedades são mais fortes; as economias, mais resilientes; e os resultados são melhores para todos. No entanto, enquanto o poder permanecer concentrado em instituições que sistematicamente excluem as mulheres, as sociedades continuarão a ficar aquém de suas expectativas", declarou Sima Bahous, diretora executiva da UN Women. "A igualdade não pode ser alcançada sem acesso igual ao poder."
"Os dados não dão lugar à ambiguidade. No ritmo atual, a igualdade de gênero está a 171 anos de distância. O que o relatório mostra é que isso (o cenário previsto) não é inevitável, mas um resultado de escolhas. (...) Investir em igualdade de gênero, instituições e sistemas estatísticos não é um custo, mas o caminho mais curto para a promessa da Agenda 2030 de igualdade de poder para todos", disse, por sua vez, Li Junhua, subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para Assuntos Econômicos.
Discrepância
O dossiê da UN Women escancara uma realidade marcada pela desigualdade no mercado de trabalho. Apesar de mais mulheres terem preenchido vagas de emprego nos últimos dez anos, atualmente, apenas 63,9% daqueles com idades entre 25 e 54 anos estão empregadas. O índice de homens chega a 92%. Ao mesmo tempo, mulheres são absorvidas por trabalhos informais e precarizados. A divulgação do documento ocorre às vésperas da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, e a pouco mais de três meses da escolha de um novo secretário-geral.
A UN Women e o UN Desa apelaram pela reversão do retrocesso político sobre a igualdade de gênero e por uma partilha de poder equânime. Para as autoras do relatório, é crucial garantir que as mulheres tenham voz igualitária nas decisões políticas e econômicas; financiar adequadamente as instituições de igualdade de gênero; proteger as organizações de direitos das mulheres e o espaço cívico; e assegurar que as mulheres tenham poder igual para influenciar as decisões que afetem a economia, a paz, a segurança, a tecnologia e a vida da população.
A estratégia para fechar o vácuo de liderança entre homens e mulheres envolve seis pontos, segundo a UN Women: implementar cotas de gênero reais, não simbólicas; reduzir o custo de disputa de cargos eletivos; fortalecer as instituições de igualdade de gênero; eliminar as lacunas nos direitos legais; financiar diretamente as organizações voltadas para as mulheres; e transformar normas e estereótipos de gênero.
LONGE DA PARIDADE
Veja as principais conclusões do relatório da UN Women (ONU Mulheres)
PASSO LENTO
- No ritmo atual, o mundo terá que esperar 171 anos até se alcançar uma completa igualdade de gênero.
VIOLÊNCIA E DISCRIMINAÇÃO
- Quase uma em cinco mulheres se casa antes dos 18 anos.
- Pelo menos 230 milhões de mulheres e meninas em todo o mundo são sobreviventes de mutilação genital feminina.
- Quase uma em cada três mulheres em todo o mundo sobreviveu à violência por parte de um parceiro ou à violência sexual ao longo da vida.
- 316 milhões de mulheres sofreram violência física ou sexual praticada pelo parceiro, nos últimos 12 meses.
IMPACTO NAS INSTITUIÇÕES
- Um em cada quatro mecanismos institucionais de igualdade de gênero sofreu cortes orçamentários nos últimos dois anos.
- Um em cada três teve seu poder institucional enfraquecido ao longo do mesmo período.
- 42% das entidades da ONU relataram um enfraquecimento nos esforços em prol da igualdade de gênero.
VÁCUO JURÍDICO
- 51% dos 131 países analisados apresentam lacunas jurídicas significativas sobre igualdade de gênero.
- Quase dois terços dos países oferecem pouca ou nenhuma proteção jurídica aos direitos das mulheres à terra, criando barreiras significativas à propriedade da terra e à segurança da posse.
MERCADO DE TRABALHO
- Em 2026, apenas 63,9% das mulheres entre 25 e 54 anos estavam empregadas, enquanto o índice de homens chegava a 92%.
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