Diplomacia

Trump ataca ONU, exalta EUA e faz ameaças em discurso na ONU

Em discurso na Assembleia-Geral da ONU, presidente exalta o poderio militar dos EUA, adverte contra "interferências externas" no Hemisfério e coloca para a República Islâmica as opções de "aceitar um acordo" ou ser "aniquilada"

Trump assima acordo com a premiê da Dinamarca e o chefe do governo autônomo da Groenlândia: crise contornada na Otan    -  (crédito: Timothy A. Clary/AFP)
Trump assima acordo com a premiê da Dinamarca e o chefe do governo autônomo da Groenlândia: crise contornada na Otan - (crédito: Timothy A. Clary/AFP)

 

Por mais de meia hora, o dobro do tempo estipulado, Donald Trump ocupou a tribuna da Assembleia-Geral das Nações Unidas para desfilar perante as delegações dos 193 países-membros a oratória que caracteriza a sua intervenção no cenário internacional: exaltou a potência econômica e militar "inigualável" dos Estados Unidos, atacou o sistema multilateral e a própria ONU, afirmou a hegemonia nas Américas e rejeitou como "farsa" os alertas sobre crise climática e inteligência artificial. O discurso se seguiu à fala inaugural, que cabe sempre ao Brasil, e teve também passagens endereçadas ao público interno, a pouco mais de um mês das eleições legislativas. Para o mundo, sobraram as ameaças, começando pela América Latina, onde invocou o poderio bélico demonstrado na Venezuela para rebater "interferências" dos "inimigos". Quanto ao Irã, renovou o ultimato reiterado desde fevereiro: assinar um acordo ou ser "aniquilado". 

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"Não permitiremos mais que ameaças contra os EUA criem uma base de apoio em qualquer lugar do Hemisfério Ocidental (as Américas) e, se necessário, usaremos nosso poderio militar sem igual para proteger nossos interesses nacionais vitais", disse. Apresentou, como demonstração, a operação fulminante que resultou na captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em janeiro. A ameaça estava endereçada, particularmente, a Cuba, que retratou como "um Estado falido" e acusou de patrocinar o terrorismo contra Washington. "Cuba cairá", prometeu, na ausência da delegação da ilha, que se retirou. "O comunismo nunca chegará aos EUA, mas a liberdade chegará a Cuba."

Na avaliação do professor de relações internacionais Roberto Uebel, do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (Nean) da ESPM, Trump fez "um discurso misto". "Fala para o mundo, quando afirma que os EUA são a superpotência e que buscam construir uma hegemonia no Ocidente", observa, em entrevista ao Correio. "No âmbito doméstico, apresenta indicadores econômicos questionáveis, na tentativa de recuperar popularidade, já que a fotografia do momento aponta vitória da oposição democrata nas duas casas do Congresso."

"A ação em Caracas demonstrou não apenas até que ponto atual governo dos EUA está disposto a chegar para atingir seus objetivos geopolíticos, mas também a fragilidade defensiva dos países da América Latina", pondera João Paulo Estevam, pesquisador do Neam/ESPM. "Trump está consciente da ampla vantagem dos EUA, e seu histórico de buscar resultados rápidos e palpáveis, para a mídia e o eleitorado, pode contribuir para futuras ações militares no continente."

"Para o inferno"

Foi pela mesma perspectiva de se dirigir aos eleitores, por um lado, e aos aliados e rivais externos, por outro, que o presidente abordou o impasse militar com o Irã, após quase sete meses de uma guerra que afeta a economia global e doméstica, sem oferecer opção para uma saída honrosa. "Um acordo será feito com o Irã para que eles consigam reconstruir um grande país, como já foi antes, talvez um dos maiores países no Oriente Médio, ou será que eu tenho que aniquilar a República Islâmica para o inferno e rapidamente?", questionou-se.

"Trump fala para uma plateia que sabe que ele não tem muitas opções no Irã", analisa Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB. "Ele tenta reduzir toda a complexidade dessa situação, para a economia, a geopolítica e a segurança internacional, a uma questão de vontade unilateral dos EUA. Como se dissesse: 'Se e quiser, vou lá e aniquilo o Irã'. Ele foi a uma guerra que levou a altos índices de impopularidade, e agora tenta mostrar que tem a solução."

Para Menezes, o presidente "procurou usar o espaço das Nações Unidas para exaltar a si próprio e ao seu governo, sobretudo com a ideia de que os EUA estão mais fortes do que nunca. No entanto, prestes a enfrentar uma eleição decisiva, "acabou, em boa parte, falando para o público internacional".  O professor do Irel acredita que, para Trump, "o sistema multilateral, representado pela ONU, só serve quando atende aos interesses dos EUA".

Diálogo nos bastidores da ONU

O chanceler do Irã, Abbas Araghchi, reuniu-se ontem, à margem da Assembleia-Geral da ONU, com o enviado especial norte-americano, Steve Witkoff. O encontro foi confirmado pelo presidente Donald Trump, falando à imprensa ao lado do colega da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, ao fim de um encontro bilateral. "Foi uma reunião de três horas", disse Trump, que classificou o diálogo como muito bom e acenou com uma nova rodada de conversações "em um futuro muito próximo". Além de Witkoff, estava presente na coletiva o outro enviado especial, Jared Kushner, que é genro do presidente.

A reunião na sede da ONU se seguiu a sinais contraditórios emitidos por ambos os lados, nos últimos dias. A Guarda Revolucionária Isâmica, unidade militar de elite, afirmou ter recebido informações de que os EUA estariam próximos de lançar uma nova e mais ampla rodada de ataques militares. O Comando Militar Central iraniano prometeu "retaliar sem qualquer limitação" contra as bases norte-americanas no Oriente Médio. No início da semana, em Washington, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou que entram hoje em vigor sanções contra empresas de qualquer país que prestarem serviços de apoio de qualquer tipo às companhias aéreas iranianas que voam para o exterior.  

Falando à agência de notícias Reuters, um funcionário de Teerã enviado a Nova York para a Assembleia-Geral admitiu que o país aceitaria reabrir para o tráfego naval o Estreito de Ormuz, via marítima estratégica e centro do atual impasse militar no Oriente Médio, em troca da suspensão do bloqueio norte-americano contra seus portos. De acordo com essa fonte, a delegação enviada aos EUA teria plena autoridade para retomar o diálogo, desde que o outro lado "oficializem o desejo por uma solução diplomática e acertem um cronograma" para o processo.

A possibilidade de retornar à mesa de negociações tinha sido admitida pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em entrevista para a rede NBC. "Estamos abertos a isso, se houver perspectiva de alcançar o objetivo: o Irã não poderá, jamais, ter uma arma nuclear", resumiu Rubio. Assim como a parte iraniana, o secretário de Estado desautorizou versões sobre uma possível conversa entre Trump e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, que partiu ontem de Teerã com destino a Nova York.

Bloqueio aéreo

Passa a vigorar hoje o bloqueio total dos EUA às companhias aéreas do Irã, anunciado pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent. "A partir de 23 de setembro, os aviões iranianos ficaram parados no solo no mundo inteiro", afirmou o funcionário norte-americano. Empresas de quaisquer países estão proibidas de prestar serviços de apoio, explicou: "Se eles pousarem em um aeroporto, não se pode fornecer combustível, nem operações de terra, nem a venda de passagens". Em caso de violação das medidas, o fornecedor dos serviços "ficará fora do sistema internacional do dólar".

O bloqueio aéreo é parte de um conjunto de iniciativas para sufocar a economia iraniana, apresentadas por Trump como um "Dia D econômico. Restrições anteriores já tinha obrigado a principal companhia do país, a Mahan Air, a suspender voos com origem ou destino na Turquia e em Omã. A Mahan Air opera também para cidades de Iraque, Paquistão China, Índia, Tailândia e Emirados Árabes Unidos.

 

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postado em 23/09/2026 05:00
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