FENÔMENOS CLIMÁTICOS

Estudo aponta que El Niño pode causar 451 mil mortes por calor; 13,3 mil no Brasil

O levantamento cruzou dados globais para alertar sobre os impactos do El Niño e a necessidade urgente de medidas preventivas nas regiões mais vulneráveis

Super El Niño pode provocar 451 mil mortes por calor no mundo; Brasil pode ter 13,3 mil -  (crédito: Jürgen Jester/Pixabay)
Super El Niño pode provocar 451 mil mortes por calor no mundo; Brasil pode ter 13,3 mil - (crédito: Jürgen Jester/Pixabay)

Nesta quarta-feira (23/9), o Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago divulgou um relatório que projeta 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor entre junho de 2026 e fevereiro de 2027. No Brasil, a estimativa é de 13,3 mil mortes associadas às temperaturas extremas. 

Para chegar a essas estimativas, os pesquisadores analisaram a relação entre temperatura e mortalidade em 24.378 regiões do mundo e cruzaram os dados com previsões climáticas de longo prazo. O levantamento considera mortes que podem ocorrer acima de um número esperado em um ano normal.

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Apesar de a projeção de 451 mil mortes abranger o período de junho de 2026 a fevereiro de 2027, o relatório estima 239 mil mortes adicionais apenas entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. O número pode aumentar caso os efeitos do El Niño se prolonguem. 

Calor deve atingir níveis ainda mais extremos

Segundo o estudo, as temperaturas terrestres globais podem ficar 1,2°C acima do normal nos próximos meses. O cenário também deve resultar em 44% mais dias de calor extremo do que em um ano considerado normal.

Para os pesquisadores, as condições previstas se aproximam de temperaturas que, sem a ocorrência do fenômeno, seriam esperadas apenas cerca de duas décadas à frente. Por isso, o relatório chama o cenário de uma espécie de “cartão-postal do futuro”, já que o episódio de El Niño permite observar antecipadamente condições de calor que podem se tornar mais comuns nas próximas décadas. 

Michael Greenstone, cofundador do Climate Impact Lab e professor de economia da Universidade de Chicago, afirmou que os números representam pessoas que trabalham, cuidam de suas famílias e vivem suas vidas. Segundo ele, a análise também permite identificar as regiões onde medidas de emergência podem ser tomadas para reduzir o número de mortes. 

Países do Sul Global concentram os maiores impactos

As projeções apontam que os efeitos mais intensos devem atingir principalmente países do Sul Global. Na região do Sahel, na África, são estimadas 66,8 mil mortes adicionais entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027.

A Nigéria aparece com a maior estimativa, de 31,4 mil mortes, seguida pelo Sudão, com 17,5 mil, e pela Índia, com 15,8 mil. Na sequência aparecem outros países que também devem registrar milhares de mortes relacionadas ao calor. 

No Sudeste Asiático, Filipinas, Vietnã, Tailândia e Camboja podem registrar, juntos, 19,4 mil mortes adicionais. A Indonésia aparece com uma projeção de 19,3 mil mortes.

Na América do Sul, o Brasil é o país com a maior estimativa, com 13,3 mil mortes relacionadas ao calor durante o período. O relatório aponta que a maior parte dessas mortes deve ocorrer entre dezembro e fevereiro, quando são estimadas cerca de 8 mil mortes adicionais no país.

(Nota: Os dados representam as estimativas de mortes adicionais relacionadas ao calor ao longo do período de seis meses projetado pelo relatório)
(Nota: Os dados representam as estimativas de mortes adicionais relacionadas ao calor ao longo do período de seis meses projetado pelo relatório) (foto: Dedos do Estudo/Gemini)

Por que esses países são mais afetados?

O relatório considera as diferenças regionais de vulnerabilidade e capacidade de adaptação ao calor. Entre os fatores que contribuem para o maior impacto estão o menor acesso a tecnologias de resfriamento, como ar-condicionado, e a recursos de proteção contra as altas temperaturas.

Também pesam as limitações dos sistemas de saúde e da infraestrutura. Algumas regiões possuem menor capacidade hospitalar e menos sistemas de alerta precoce ou planos formais de ação contra ondas de calor.

Outro fator é a exposição de trabalhadores e populações vulneráveis. Há uma grande proporção de pessoas que trabalham diretamente sob o sol, em atividades ao ar livre, além de populações sem abrigo térmico adequado ou acesso a pontos públicos de hidratação.

As próprias anomalias de temperatura previstas para o El Niño também contribuem para o cenário. As projeções indicam temperaturas elevadas em áreas do Sahel, Sudeste Asiático, Índia e América Latina, atingindo regiões com clima naturalmente quente e grande concentração populacional.

Medidas podem reduzir os impactos

Apesar dos números projetados, os pesquisadores destacam que as mortes não são inevitáveis. O relatório identifica medidas que podem ser adotadas antes dos períodos de maior calor para proteger principalmente as populações mais vulneráveis.

Entre as ações estão a criação de sistemas de alerta para ondas de calor, ampliação de pontos de hidratação e centros de resfriamento, acompanhamento de pessoas vulneráveis, reforço dos serviços de saúde e medidas de proteção para trabalhadores expostos ao calor.

A proposta é usar as previsões para identificar com antecedência os locais que enfrentarão os maiores riscos e direcionar recursos para essas regiões antes da ocorrência dos períodos mais intensos de calor.

O Climate Impact Lab ressalta ainda que os efeitos do El Niño não se limitam às temperaturas. A mudança nos padrões de chuva também pode aumentar riscos relacionados a secas, incêndios e enchentes, além de afetar outros setores, como a produção de alimentos.

*Estagiária sob supervisão de Paulo Floro.

 

 

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postado em 23/09/2026 18:10
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