
Ficou para a manhã de hoje, no encerramento da visita de Estado de Xi Jinping a Washington, a expectativa pelo anúncio de algum novo acordo entre China e Estados Unidos, além da prorrogação até janeiro de uma trégua firmada um ano atrás para a guerra das tarifas comerciais. O presidente chinês e a primeira-dama, Peng Liyuan, serão recebidos com chá por Donald e Melania Trump, na despedida do segundo encontro entre os dois líderes em menos de seis meses. Na noite de ontem, o casal visitante chegou à Casa Branca para um banquete de gala que teve entre os convidados os principais executivos das big techs, parte essencial as conversações mantidas entre os líderes durante o dia. A inteligência artificial (IA) está no centro de uma pauta cujo pano de fundo é a competição entre as duas maiores economias do planeta pela supremacia estratégica no campo tecnológico — uma disputa sem solução à vista, que Washington e Pequim tratam de administrar, explicam especialistas entrevistados pelo Correio.
Antes de iniciar a primeira reunião frente a frente, enquanto as primeiras-damas visitavam o Museu de Arte Asiática do Smithsonian Institute, os dois presidentes falaram brevemente à imprensa, concentrados no tema crucial da corrida tecnológica. Depois de defender que China e EUA zelem por "uma relação sem conflito nem confronto", o visitante ressaltou a importância de que "nossas duas Forças Armadas devem manter um diálogo regular e melhorar os mecanismos de comunicação e prevenção de crises".
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As divergências sobre a inteligência artificial, porém, ficaram à vista nas entrelinhas. "Temos a capacidade e a responsabilidade de garantir que a IA se desenvolva sempre sob controle humano", afirmou o Xi. Trump concordou que se trata de um tema "urgente", e ressaltou que "as decisões que tomarmos hoje nesse âmbito podem promover a paz e a prosperidade durante décadas e décadas". Antes, porém, tinha reiterado, nas redes sociais, sua oposição a qualquer medida de controle: "Quero deixar isso exatamente como está".
"A IA deixou de ser apenas uma questão tecnológica e se tornou parte central da competição estratégica entre EUA e China", diagnostica o professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM. "Há espaço limitado para diálogo sobre riscos e mecanismos de prevenção de incidentes, mas nenhum dos lados parece disposto a aceitar regras que reduzam sua capacidade de competir." Para Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB, Xi demonstrou que Pequim "disputa a liderança do setor e sabe que ele tem um de seus pilares na IA". A diferença fundamental na abordagem de cada uma das potências é que a China "vem defendendo uma IA que beneficie mais países, enquanto os EUA defendem que seja tudo patenteado".
Empate técnico
Na avaliação de ambos os estudiosos, o terceiro encontro bilateral desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, terminou em uma espécie de "empate técnico". "Os resultados públicos mostram ganhos distintos para cada lado: Trump preservou instrumentos de pressão econômica e tecnológica; Xi conseguiu manter a trégua comercial e o diálogo bilateral, sem aceitar publicamente mudanças estruturais na posição chinesa", analisa Rudzit, da ESPM. "A extensão da trégua comercial produz benefícios diferentes para os dois lados. Para Washington, mantém pressão sobre Pequim, porque questões como compras agrícolas e fornecimento de terras raras continuam em negociação. Para a China, evita uma nova escalada tarifária e preserva por mais algum tempo um ambiente relativamente estável para comércio e investimento."
Menezes, do Irel/UnB, entende que "a China deixa claro é que sabe o caminho que quer trilhar: que os EUA devem cooperar, para o bem da ordem internacional". Mas observa: "Sabemos que o unilateralismo de Donald Trump não vai arrefecer diante de Xi. O que ele tenta é ganhar tempo, às vésperas das eleições legislativas", no início de novembro. "Procura passar a imagem de que é ele quem dá as cartas, dá murros na mesa e tenta mostrar que é ele quem tem condições de frear a China e defender de fato os interesses dos EUA.
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