Primeiro papa a visitar a França em duas décadas, Leão XIV despediu-se de um dos países mais firmemente ancorados no Estado laico com considerações com um tema bem menos espiritual ou ético do que os abordados nas primeiras escalas da viagem. Depois de falar sobre inteligência artificial, morte assistida e inclusive sobre os abusos sexuais no âmbito da Igreja, em Paris e no santuário de Lourdes, o pontífice despediu-se, em Metz, com um apelo à paz na Europa e uma advertência contra o que chamou de "a ilusão do rearmamento" — no momento em que os países do Velho Mundo, em nome dos compromissos com os Estados Unidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), anunciam em série a elevação dos próprios orçamentos para a pasta da Defesa.
"Infelizmente, também na Europa, a guerra reapareceu nesta época: um novo 'massacre inútil' que a cada dia causa inúmeras vítimas civis", afirmou o papa americano-peruano, retomando uma expressão cunhada por Bento XVI. No caso, Leão XIV referia-se à guerra na Ucrânia, que se aproxima de completar cinco anos. "É preciso nos comprometermos com um diálogo paciente, mostrarmos audácia na negociação e estarmos dispostos a sacrificar algumas posições pelo bem maior da paz", acrescentou o pontífice, cujo pai, como militar norte-americano, participou do desembarque aliado na Normandia francesa, em junho de 1944, episódio capital da Segunda Guerra Mundial.
A escolha de Metz, que França e Alemanha disputaram do final do século 19 até meados do século 20, não foi acaso. Nessa região nasceu Robert Schuman (1886-1963), um dos chamados "pais fundadores" da União Europeia (UE), que o Vaticano pretende beatificar. O projeto de integração continental, que nasceu dos escombros de uma Europa devastada, perdeu força nos últimos anos, em consequência da crise política aberta com a chegada em massa de migrantes, a saída do Reino Unido da UE e as divergências sobre a atitude a ser adotada em relação à Rússia de Vladimir Putin.
"Hoje em dia, as relações humanas e entre os Estados tornam-se cada vez mais bárbaras", observou o pontífice, pedindo que a Europa ponha fim à "espiral" de "mentira e engano", em uma crítica velada a políticos considerados populistas — como o presidente de seu país natal, Donald Trump. Após reafirmar o apoio "ao direito internacional e ao multilateralismo", Leão XIV apelou pela "integração" dos imigrantes e alertou contra "a ilusão do rearmamento", no um momento em que os países europeus aumentam os gastos militares frente a uma Rússia que se apresenta cada vez mais desafiadora.
O presidente francês, Emmanuel Macron, convidou, sem sucesso, outros líderes da UE para o evento: apenas Luxemburgo compareceu. O anfitrião pediu aos parceiros que não cedam ao "retorno dos nacionalismos" que alimentaram as duas grandes guerras do século 20. A França, como outros países de peso político, tem partidos de extrema-direita em ascensão. A sete meses da disputa presidencial francesa, com a líder de extrema-direita Marine Le Pen à frente nas pesquisas, o papa fez um pedido à Virgem de Lourdes: "Conceda à França governantes sábios e generosos, que mantenham o país em paz no concerto das nações".
A mensagem de paz do líder espiritual de 1,4 bilhão de católicos chegou aos 35 mil fiéis que o aclamaram nas ruas de Metz e na catedral, onde o pontífice celebrou uma missa antes de partir para Roma. "Só faz falta que os dirigentes sigam seu exemplo", exclamou Bernard Adam, de 70 anos, à passagem do papamóvel.
