Europa

Centenas de milhares voltam a tomar as ruas da França

Protestos ocorrem em Paris, Nantes, Bordeaux, Touloun e Rennes pelo segundo sábado consecutivo. Pelo menos 110 mil pessoas se manifestaram na capital, sob a vigilância de 70 mil policiais

Ativista segura bandeira francesa enquanto se protege de canhão d'água, durante protesto na capital  -  (crédito: Aris Messinis/AFP)
Ativista segura bandeira francesa enquanto se protege de canhão d'água, durante protesto na capital - (crédito: Aris Messinis/AFP)

Pelo segundo sábado consecutivo, centenas de milhares de manifestantes tomaram as ruas da capital da França em um ato contra o custo de vida alto no país. Sob clima de tensão, o protesto foi marcado por choques esporádicos com as forças de segurança. Ao contrário do ato anterior, não houve registro de vandalismo. Entre as demandas dos ativistas, que fizeram críticas ao presidente Emmanuel Macron (centro-direita), estão medidas para responder à queda no poder aquisitivo e a melhoria das condições de ensino para os estudantes do ensino médio.

Durante a semana, o próprio Macron acusou a extrema-esquerda de tentar derrubar a República. Mais de 70 mil policiais foram destacados para vigiar a manifestação em Paris. As autoridades estimam em 110 mil o número de ativistas nas ruas da capital, segundo a prefeitura, enquanto a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT) citou 250 mil. Também houve marchas em Nantes, Bordeaux, Toulon e Rennes. Em todo o país, cerca de mil manifestantes foram detidos. 

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Para Yves Sintomer, professor de ciência política da Universidade Paris 8, a manifestação deste sábado foi muito importante por se contrastar com a de 17 de outubro. "Naquele protesto, a repressão policial mostrou-se muito dura, e o discurso do governo era muito inquietante, quase que de emergência e de deslegitimação do ato. O protesto de hoje (24/10) representa um desafio para o governo Macron, pois demonstra que uma manifestação forte, necessariamente, não é violenta. No próximo sábado, haverá uma nova concentração popular, um outro teste para ver a força do movimento. No entanto, a prova mais  importante será a greve geral de 5 de novembro, convocada pela Confederação Geral dos Trabalhadores e pelos estudantes", disse ao Correio.

"Se a paralisação for mais forte, o governo terá que responder às manifestações. Tarefa muito difícil, pois o governo é fraco, conta com pouca legitimidade, e enfrenta uma crise financeira. É um periodo de incerteza", acrescentou Sintomer.

Distinção

Jean-Yves Camus — cientista político da Fundação Jean Jaurès (em Paris) — admitiu que os protestos de ontem foram mais pacíficos. "É preciso distinguir entre os manifestantes genuínos, que respeitaram a lei, e os vândalos do grupo anarquista 'Black Bloc, que entraram em choque com a polícia, ao fim da manifestação em Paris", disse à reportagem. Segundo Camus, saques foram registrados em Marselha, mas em número bem menor do que no sábado passado. "Resta saber se o movimento está se fortalecendo, uma vez que o número de manifestações em todo o país diminuiu."

Professor da Universidade de Reims e especialista em história do comunismo e do anarquismo, Sylvain Boulouque afirmou ao Correio que o movimento ganha fôlego a longo prazo e traz à tona um tema persistente: o dos salários, especialmente para as classes populares e para os funcionários públicos. "É difícil prever se o movimento irá se expandir ou não." 

Boulouque reconhece que os protestos são um desafio para Macron. "Uma parcela crescente dos manifestantes rompeu com a autoridade constituída; o número de pessoas envolvidas em distúrbios está aumentando", observou. "Ao mesmo tempo, o Estado se depara com agitação social que exige aumentos salariais — justamente quando enfrenta uma grave crise orçamentária, enquanto, no setor privado, os empresários se recusam a elevar os salários.

EU ACHO...

JEAN-YVES CAMUS, cientista político da Fundação Jean Jaurès (em Paris)
JEAN-YVES CAMUS, cientista político da Fundação Jean Jaurès (em Paris) (foto: Arquivo pessoal )

"O desafio é grande, não apenas para o governo Macron, mas para o próprio presidente, já que são as suas ações que estão sendo rejeitadas. Os protestos começaram com os estudantes, mas o descontentamento é muito mais amplo. Faltam seis meses para a eleição, ele não conta com maioria no Parlamento e há um orçamento que precisa ser votado antes do fim do ano. O país nunca esteve tão polarizado."

JEAN-YVES CAMUS, cientista político da Fundação Jean Jaurès (em Paris)

 

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postado em 25/10/2026 04:44 / atualizado em 25/10/2026 05:28
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