As autoridades francesas responsabilizaram a extrema-esquerda por um "plano insurrecional" durante as manifestações violentas que atingiram Paris e várias cidades no fim de semana. Pela segunda noite consecutiva, o governo decretou toque de recolher em bairros de Paris, Lyon, Bordeaux e Nice. O primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, se reunirá, nesta quarta-feira (21/10), com representantes de sindicatos e, na quinta-feira, com partidos políticos. Toulouse, no sul do país, adotará a mesma medida entre quinta-feira e domingo (25/10) no período noturno. Lecornu denunciou "o planejamento, em certos locais, de um esquema insurrecional conduzido por pequenos grupos de extrema-esquerda e de ultraesquerda". Ele citou, como exemplo, o incêndio da Prefeitura de Limoges, cuja torre desabou. Um homem de 34 anos foi preso.
As agências de inteligência francesas rotularam os grupos antifascisas, anarquistas ou anarcoautônomos de "ultraesquerda". Também acusaram integrantes da "extrema esquerda radical", partidos de orientação revolucionária, a aderirem aos protestos do último sábado (17/10). As autoridades também culpam a ação de "criminosos oportunistas", que teriam aproveitado para saquear estabelecimentos comerciais. O governo de Emmanuel Macron creditou a responsabilidade política a Jean-Luc Mélenchon e seu partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI) por supostamente estimularem a violência. Durante os protestos de sábado, 2.500 pessoas foram detidas — 149 delas estão na prisão, condenadas ou à espera de julgamento, segundo o ministro da Justiça, Gérald Darmanin.
Professor da Universidade de Reims e especialista em história do comunismo e do anarquismo, Sylvain Boulouque afirmou ao Correio que o toque de recolher parcial pode adiar, temporariamente, os saques e os distúrbios urbanos, mas não resolvem o problema em sua essência. "O governo espera que a pressão decorrente do movimento dos estudantes do ensino médio se dissipe. Trata-se de uma aposta baseada na lógica da segurança — uma abordagem que não ataca as questões de fundo, visto que não oferece uma resposta substantiva às demandas específicas apresentadas, nem à questão mais ampla do padrão de vida", criticou. Ele destacou que o Executivo não demostrou qualquer disposição de abrir um diálogo sobre as questões sociais em pauta. "Mesmo que a violência diminua, há risco de ela ressurgir", advertiu o historiador.
Multifacetado
De acordo com Boulouque, o movimento de contestação nas ruas tem perfil multifacetado. "Diversos elementos se sobrepõem. Estudantes de ensino médio manifestam-se em busca de condições mais adequadas de estudos. Algumas instituições de ensino — especialmente nos subúrbios — sofrem com a falta de recursos, além de contarem com instalações obsoletas ou insalubres. Para além da questão da infraestrutura escolar, os estudantes também levantam debates sobre os horários das aulas e as condições de acesso às universidades."
Mas as ruas também ecoam reivindicações de determinadas categorias profissionais, como a demanda de aumento salarial. "Em um contexto mais amplo, uma parcela da população questiona a deterioração de sua qualidade de vida. Esse cenário está, em parte, associado ao aumento do custo de vida — decorrente da crise internacional do petróleo —, o que impacta diretamente as condições de vida de uma parte dos franceses", comentou Boulouque, ao ponderar que as reclamações refletem um mal-estar da sociedade. "Paralelamente, existe um segmento da população que, diante da ausência de respostas por parte das autoridades, acredita que apenas a violência permitirá a obtenção de melhorias."
EU ACHO...
"Os estudantes do ensino médio estão de férias por 15 dias. Eles só retomam as aulas em 2 de novembro. Todas as organizações sindicais convocaram manifestações para o dia 5. Somente nesse período será possível verificar se o movimento está ganhando força ou perdendo fôlego. Em um cenário, o governo terá evitado uma crise social de maior proporção; no outro, será obrigado a abrir um diálogo social. Caso não o faça, corre o risco de enfrentar manifestações ainda maiores, além de episódios de violência por parte de uma parcela da população."
SYLVAIN BOULOUQUE, professor da Universidade de Reims e especialista em história do comunismo e do anarquismo
