
Mais de três anos depois de denúncias de violência sexual abalarem sua carreira, o ator e comediante britânico Russell Brand, de 51 anos, foi considerado culpado de estupro e três agressões sexuais. A decisão, anunciada nesta quinta-feira (5/11), no Tribunal da Coroa de Southwark, em Londres, reconheceu crimes cometidos contra quatro mulheres entre 2004 e 2009, período em que o artista desfrutava de grande popularidade no entretenimento britânico.
O julgamento teve origem em acusações que ganharam repercussão internacional em setembro de 2023, após uma investigação conduzida pelos jornais The Sunday Times e The Times, em parceria com o programa Dispatches, do Channel 4. As reportagens reuniram relatos de mulheres que atribuíram ao comediante episódios de estupro, abuso sexual e comportamentos inadequados ao longo de vários anos. A divulgação das denúncias desencadeou investigações policiais e trouxe consequências para sua atuação profissional.
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Ao todo, seis mulheres participaram do processo criminal, que examinou sete acusações relacionadas a acontecimentos entre 1999 e 2009. O júri reconheceu a responsabilidade de Brand em quatro episódios, mas o absolveu de outras duas acusações de estupro e de uma tentativa de atentado ao pudor. Ele negou ter cometido qualquer crime e ainda poderá ser condenado a uma pena de prisão.
Durante as audiências, a promotora Riel Karmy-Jones sustentou que o artista se valia de sua posição de destaque para estabelecer relações com mulheres e cometer abusos. A acusação descreveu um padrão de comportamento manipulador e calculista, em contraste com a imagem pública irreverente que Brand havia construído ao longo da carreira.
Da fama às denúncias
Quando os episódios investigados teriam ocorrido, Russell Brand já era um nome conhecido na televisão britânica e começava a ampliar sua atuação no cinema. Natural de Essex, na Inglaterra, onde nasceu em junho de 1975, o comediante iniciou sua trajetória artística com apresentações de stand-up, antes de conquistar espaço como apresentador de rádio e televisão.
Sua popularidade cresceu especialmente com o Big Brother's Big Mouth, atração dedicada aos acontecimentos do reality show Big Brother. A desenvoltura diante das câmeras e o humor provocativo contribuíram para que ele ultrapassasse as fronteiras do Reino Unido e chegasse a produções de Hollywood.
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O reconhecimento internacional veio em 2008, quando interpretou o roqueiro Aldous Snow em Ressaca de Amor. O personagem conquistou espaço suficiente para retornar às telas em O Pior Trabalho do Mundo, lançado dois anos depois. Brand também estrelou Arthur, o Milionário Irresistível e integrou o elenco de Rock of Ages.
A carreira incluiu trabalhos como dublador, entre eles o personagem Dr. Nefario, da franquia Meu Malvado Favorito. Fora das telas, ele publicou livros como a autobiografia My Booky Wook, em que abordou suas experiências pessoais, relacionamentos e episódios da vida profissional.
Com o passar dos anos, entretanto, sua atuação passou a se concentrar cada vez mais na internet. Por meio de vídeos e podcasts, Brand começou a comentar assuntos políticos, questões sociais e temas religiosos, construindo uma nova presença pública associada também à espiritualidade cristã.
O que as vítimas relataram à Justiça
A acusação mais grave reconhecida pelo júri envolveu uma mulher que conheceu Brand em 2009, após um espetáculo no Hammersmith Apollo, em Londres. De acordo com o depoimento apresentado ao tribunal, os dois mantiveram inicialmente relações sexuais consensuais, mas a situação mudou quando estavam na residência do comediante, em Hampstead, onde ele a estuprou.
A vítima afirmou ainda que, depois da violência, Brand pediu que ela limpasse a sujeira deixada no local. O episódio foi um dos quatro em que os jurados consideraram haver provas suficientes para condená-lo.
Os demais casos ocorreram em ambientes ligados à vida social e profissional do artista. Em 2004, uma mulher foi vítima de agressão sexual em um bar no Soho, bairro de Londres conhecido pela movimentação noturna. No ano seguinte, outra denúncia envolveu uma funcionária de uma estação de rádio.
A quarta condenação diz respeito a um episódio de 2009, relatado por uma profissional do Channel 4. Segundo a mulher, ela foi pressionada a fazer uma massagem no comediante, em circunstâncias que fundamentaram a acusação de agressão sexual.
O conjunto de depoimentos foi contestado pela defesa, que procurou demonstrar inconsistências nas narrativas e questionou a confiabilidade das lembranças apresentadas tantos anos depois. Os advogados argumentaram que os encontros ocorreram com consentimento e rejeitaram a interpretação da promotoria sobre o comportamento do artista.
Em seu próprio depoimento, Brand admitiu ter mantido relações sexuais com numerosas parceiras e reconheceu que costumava agir de maneira insistente durante suas tentativas de sedução. Apesar disso, afirmou que nunca obrigou uma mulher a ter contato sexual e sustentou que o respeito ao consentimento era uma condição indispensável em seus relacionamentos.
Relacionamentos e testemunho da esposa
A vida amorosa de Brand já despertava atenção pública muito antes das acusações. Um dos episódios de maior exposição foi seu casamento com a cantora americana Katy Perry, iniciado em 2010. A união terminou em 2012, depois de pouco mais de um ano, e foi amplamente acompanhada pela imprensa internacional.
Posteriormente, o comediante iniciou um relacionamento com Laura Gallacher, com quem se casou em 2017 e teve três filhos. Ela esteve ao lado do marido durante o processo judicial e prestou depoimento favorável a ele.
Ao testemunhar, Gallacher descreveu Brand como um companheiro cuidadoso e afirmou que, na convivência conjugal, ele sempre respeitou seus limites. A declaração foi apresentada pela defesa em meio às tentativas de contestar o comportamento atribuído ao ator pelas denunciantes.
Os argumentos, contudo, não impediram que o júri reconhecesse a ocorrência de quatro crimes sexuais. O veredicto encerra o primeiro julgamento criminal decorrente das acusações divulgadas em 2023 e estabelece uma nova etapa para o caso, agora marcada pela definição da pena que poderá ser aplicada ao comediante.
Diversão e Arte
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