OPINIÃO

O marechal negro no país da democracia racial

Correio Braziliense
postado em 13/11/2021 06:00
 (crédito: maurenilson freire)
(crédito: maurenilson freire)

Por ALESSA PASSOS - Mestre em história e professora da educação básica na cidade do Rio de Janeiro

Em 1969, morreu, no Rio de Janeiro, o marechal João Baptista de Mattos, o primeiro negro a ingressar no generalato no Exército Brasileiro. Nascido apenas 12 anos após o fim da escravidão, em 24 de junho de 1900, sua mãe, ventre livre, o criou por meio de seu trabalho como babá de uma família abastada, na qual Mattos encontrou apoio e incentivo aos estudos. Além das suas conquistas nas fileiras do Exército, Mattos formou-se em direito, tornou-se membro de instituições de pesquisa e ensino, até publicou uma coleção de livros. Também chegou a ocupar cargo de destaque no Ministério da Guerra.

Quando de sua morte, o general Adalardo Fialho publicou, no periódico Letras e Armas, um texto em homenagem póstuma, sobre o qual faço breve análise nas próximas linhas. Análise que torna possível acessar um pouco do imaginário social sobre as relações étnico-raciais no Brasil de meados do século 20. O título do texto Marechal João Baptista de Mattos (um preto de alma branca) apresenta Mattos como homem negro, que traz na cor de sua pele o símbolo da subalternidade. Porém, a alma branca foi a forma pela qual o autor encontrou para justificar as conquistas alcançadas ao longo de sua vida, apesar de sua pele preta. Uma expressão racista que demarca o lugar social reservado ao homem branco (bem colocado na sociedade) e ao negro (subalterno) naquele período. O autor caracterizou o marechal como um homem que "soube conquistar amigos que viam nele jamais o preto, mas um cidadão útil à comunidade e à pátria".

"Nunca nos sentimos tão brasileiros como por ocasião do enterro do Marechal João Baptista de Mattos", inicia o texto. Fialho fez um relato sobre o velório, no qual encontrou pessoas de todas as classes sociais, uma multidão de maioria branca, identificando ministros e representantes de altas patentes das forças armadas. Para ele, essa convivência pacífica de pessoas de todas as cores e classes sociais era representativa da sociedade brasileira, de um país "democrático com igualdade de oportunidades para todos".

O texto expõe um dos mais nocivos mitos da sociedade brasileira: o mito da democracia racial. Gilberto Freyre, apontado como mentor desta ideia, apesar de não fazer referência direta ao termo, na década de 1930 descreveu, em suas principais obras, uma sociedade brasileira em que as raças coexistem pacificamente. Porém, é justamente em meados do século 20, período da publicação do citado artigo, que a ideia de um país racialmente democrático é adotada pelo imaginário social.

Esta ideia ganha força principalmente pelo contraste dos acontecimentos nos Estados Unidos, com o crescimento da luta pelos direitos civis e o fim do Jim Crown, um conjunto de leis que segregava de forma severa os negros. Distintos dessa realidade, no Brasil não existia, desde a Lei Áurea, lei que decretasse qualquer diferença entre brancos e negros. Antônio Guimarães, em Racismo e antirracismo no Brasil (1995), aponta as especificidades do racismo brasileiro, afirmando que aqui o fim da escravidão abriu espaço para que outro sistema de separação tratasse de potencializar a condição subalterna do negro. Esclarece que as permanências nos mesmos lugares sociais no pós-abolição foram reafirmadas pela hierarquização da sociedade em classes, que perpetuou o negro nos extratos subalternos. Longe dos textos legais, o racismo no Brasil passou a ser velado e, por isso, mais difícil de ser combatido.

Há de se notar que a ideia do país da democracia racial se apoia na exceção, utilizando como exemplo as poucas pessoas que, como o marechal Mattos, conseguiram romper as barreiras raciais e classistas e alcançar posições mais prestigiadas na sociedade. Uma análise rasa que esconde debaixo dos tapetes a maioria da população negra que passa a vida sem boas oportunidades. O que se observa, via de regra, é a perpetuação dos lugares sociais dos seus ancestrais.

O marechal Mattos, que conseguiu superar as barreiras com esforço e empenho, pôde contar com algumas oportunidades sociais construídas no seio da família para a qual sua mãe trabalhava. Nesse caso, a porta da sociedade de classes foi aberta de dentro para fora, com apoio de pessoas que já figuravam nos extratos mais altos da sociedade. Mas essa foi e ainda é uma realidade restrita, e, por mais que haja esforço pessoal, sem boas oportunidades, nada acontece. Daí a importância da implementação de ações afirmativas no Brasil: oferecer oportunidades!

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