Editorial

Visão do Correio: Brasileirinhos desprotegidos

Correio Braziliense
postado em 18/03/2022 06:00

A vacinação contra a covid-19 no Brasil chega ao marco de 14 meses como uma vitória da ciência compartilhada com os brasileiros, após superar uma série de obstáculos, incluindo os impostos por autoridades. Das dificuldades de importação de doses, passando pela escassez de matéria-prima no mercado global até chegar à possibilidade de produzir a vacina de forma 100% nacional, foi um árduo e longo caminho trilhado até os atuais indicadores epidemiológicos em queda expressiva. Mas, no momento em que o país beira os 75% de seus habitantes com esquema de duas aplicações ou aplicação única (73,9%, em dados de 12 de março), a avaliação da cobertura acende um grande sinal de alerta. E ele diz respeito a uma das parcelas mais importantes da população.

As crianças de 5 a 11 anos representam hoje praticamente 10% dos brasileiros. Foram elas as que mais tiveram de esperar pelo direito de se proteger contra o novo coronavírus com os escudos entregues pela ciência. Porém, se o período de espera as tornou descobertas por mais tempo em relação ao esquema vacinal, também permitiu que os imunizantes fossem aplicados antes a todos os públicos restantes, comprovando, para além dos testes obrigatórios para a aprovação das diversas fórmulas, a segurança das vacinas.

Ainda assim, em grande parte devido à propagação de notícias falsas, a insegurança agiu como um outro vírus se espalhando entre famílias. O reflexo aparece agora, em preocupantes números de cobertura vacinal dos brasileirinhos mais jovens. Segundo nota técnica divulgada esta semana pela Fundação Oswaldo Cruz, enquanto entre a população de 80 anos ou mais as coberturas são de 99,5% para a primeira dose anticovid-19 e de 97,3% para o esquema de duas aplicações, entre as crianças de 5 a 7 anos o percentual não chega a 40% (39,3%) para a primeira dose e não atinge 5% (4,7%) para a segunda (em números nacionais de 12 de março).

A situação dessa parcela da população chama a atenção em um contexto em que o Brasil, considerados os índices gerais de vacinação, é o 12º país com melhor cobertura no planeta, ultrapassando proporcionalmente nações como Estados Unidos e Reino Unido, segundo dados da Fiocruz. A nota técnica da fundação chama a atenção para outras variações, como o fato de que o alcance da vacinação se reduz de forma quase uniforme à medida que cai a idade de cada público, constatando que toda a faixa abaixo dos 29 anos no país tem percentual de duas doses abaixo de 80%.

Nada, porém, que se compare à baixa cobertura entre os 5 e os 11 anos, público que voltou a frequentar as escolas e experimenta cada vez maior contato social, na esteira das flexibilizações possibilitadas pela redução nos indicadores epidemiológicos, além do menor nível de autoproteção, comum à idade. Tem potencial aumentado, portanto, de contágio, assim como de transportar o vírus e expor públicos de outras idades.

Quando se pensa na imunização desse grupo, é preciso sim, considerar a necessária proteção das próprias crianças de 5 a 11 anos, mas tão importante quanto é pesar o potencial da vacinação sobre toda a sociedade. Vacinar é um ato de prevenção coletiva, e como tal a aplicação de doses a esse grupo fará aumentar o percentual geral de cobertura — e de imunidade — no país. Mais ainda: ampliará o bloqueio indireto contra a covid-19 para outras faixas — especialmente a dos menores de 5 anos, para os quais ainda não há vacina disponível.

Sobre o atual estágio da crise sanitária global, convém ouvir ainda uma vez a advertência dos cientistas da Fiocruz: "Observa-se, recentemente, uma alta da covid-19 em países da Europa e da Ásia, o que deve ser encarado como um alerta para o Brasil". É necessário, portanto, que todas as famílias se conscientizem sobre a necessidade de imunização. Que os pais deem ouvidos a quem tem conhecimento e autoridade para tratar do assunto, e não a teorias conspiratórias e a "informação" sem origem definida. Os indicadores científicos não deixam dúvida: vacinar — e vacinar toda a população para a qual já existam doses disponíveis — não apenas é seguro. Vacinar é indispensável.

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