Política

Análise: O pulso das autoridades

Fábio Grecchi
postado em 18/04/2022 06:00
 (crédito:  Ricardo Stuckert/PT)
(crédito: Ricardo Stuckert/PT)

Algum apoiador de Jair Bolsonaro resolveu pregar em Lula a pecha de que é um ostentador, em contradição com os princípios que defende, porque foi flagrado, numa foto, usando um modelo Altiplano, da Piaget. Importante dizer que quem identifica uma peça dessas conhece relojoaria e, no mínimo, tem algo semelhante.

É preciso destacar, ainda, que uma coisa é comprar na butique da marca, outra no chamado grey market — onde se negociam usados. Nestes, os preços desabam, a depender do modelo e se o chamado "conjunto" (relógio, caixa e documentação) estiver incompleto. Somente raridades ou algo com muita demanda fazem o caminho inverso. Assim, não seria absurdo o Altiplano de Lula custar, na loja da Piaget, uns R$ 80 mil, e no mercado paralelo sair por R$ 15 mil, o que ainda é uma soma considerável.

Mas o ex-presidente não é o único ser público com bons relógios no pulso. O governo Bolsonaro é pródigo de figuras que compõem o vestuário com eles. A ex-ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que tentará o Senado por Mato Grosso do Sul, não escondia seu Cartier Santos. Da mesma forma, o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que pretende tornar-se deputado federal por São Paulo, não tinha problemas em exibir o Rolex Explorer I que combinava com o paletó e a gravata.

O ex-ministro Walter Braga Neto, que deve ser o vice da chapa de Bolsonaro à reeleição, é dono de um Omega Speedmaster. Resta saber se o dele é o modelo Professional ou o Reduced, um pouco menor em diâmetro, pois de longe ambos são idênticos. Mas, de uns tempos para cá, vem usando um desses monitores cardíacos — talvez para não aborrecer o chefe, que usa um digital ordinário.

O também ex-ministro Abraham Weintraub, que sonha com o governo paulista, não tinha problemas em exibir bons relógios. Ora era visto com um Tudor Black Bay burgundy, ora com um Tudor Heritage Chrono Monte Carlo. Ah!, sim, os Tudor são fabricados pela Rolex, embora custem uma fração do preço.

Rolex, aliás, é o preferido de muitas figuras públicas. O ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, cacique do Centrão, habitualmente usa um Yacht-Master II e seu colega da Saúde, Marcelo Queiroga, é dono de um Submariner. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e o pré-candidato do PSDB à Presidência, João Doria, também gostam do modelo, pois têm um cada. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), preferiu deixar o dele em casa e usar, no dia a dia, um Tissot, mais modesto.

Nenhum desses relógios custa, novo ou usado, menos de R$ 15 mil. Isso diz alguma coisa sobre o caráter dessas pessoas? Não, mas é inegável que pertencem à elite da elite, em um país que voltou a respirar pobreza, a assustar-se com a inflação e que não consegue vencer o desemprego.

Crítica a relógio só gera cafajestagem em rede social e desvio de foco para aquilo que deve interessar ao cidadão-contribuinte-eleitor — o compromisso de cada homem público com o cargo que ocupa. Aliás, sobre isso, quase todos os citados acima deixam a desejar.

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