Militares

Pacto geracional: imperativo às Forças Armadas

A tinta de assinatura do compromisso foi o sangue dos patriotas brancos, negros e índios, que juntos lutaram para expulsar os invasores batavos de nossas terras

Opinião 0702 -  (crédito: Caio Gomez)
Opinião 0702 - (crédito: Caio Gomez)
postado em 07/02/2024 06:00

OTÁVIO SANTANA RÊGO BARROS, general de Divisão R1

"Alguém sozinho é derrotado, dois conseguem resistir, e a corda tripla não rompe facilmente". Eclesiastes 4, 12

Instituições seculares são seculares por resistirem aos modismos, por resolverem questões internas com base em valores, por se mostrarem coesas diante dos antagonismos externos. As Forças Armadas são o arquétipo dessas instituições. Entre os atributos mais importantes para a construção da armadura que as protege e as torna secular destaca-se o pacto geracional. Com os militares brasileiros, ele foi contratado nas batalhas da insurreição pernambucana, origem das células que viriam a ser reconhecidas como Exército nacional.

A tinta de assinatura do compromisso foi o sangue dos patriotas brancos, negros e índios, que juntos lutaram para expulsar os invasores batavos de nossas terras. Conscientemente, deve ser renovado geração a geração. "Gerações que se sucedem, se aperfeiçoam e se fortalecem" como defende ainda hoje um respeitado general da reserva.

A fé nesse compromisso é o mandamento a ser professado e seguido por homens e mulheres em armas de ontem, de hoje e de sempre, e deve ser encarado como cláusula pétrea para a manutenção da coesão. Mandamento que, no dia a dia, se traduz com singeleza pelo reconhecimento das novas gerações aos velhos soldados, que a seu tempo conduziram os destinos da organização, e pelo respeito das velhas gerações aos novos soldados, agora responsáveis pela indicação do caminho a ser trilhado.

Adentrando o campo das conjecturas, a eventual quebra desse contrato deve ser firmemente rechaçada, sob pena de que as gerações futuras se dispam do dever de respeitar os chefes e de acatar as normas, rompendo os compromissos que trouxeram as Forças Armadas brasileiras a salvo de complexos desafios até hoje.

Ainda que distante essa possibilidade, é preciso meditar sobre ela e identificar quais poderiam ser as suas origens, os interessados, bem como as consequências e reflexos para a estabilidade e até para a sobrevivência das Forças Armadas do futuro.

Como no passado, a discordância leal, seguida da disciplina intelectual, fundamental nos processos decisórios de militares, não significa abandonar as posturas pessoais que importam aos cidadãos-soldados. Significa deixar de lado desacordos de momento e apoiar as lideranças que comandam, no agora, a organização, com o firme propósito de reforçar as bases históricas sob as quais ativa e reserva conquistaram e mantêm a confiança da sociedade.

Usando uma metáfora militar, cabe às novas gerações, vanguarda do aproveitamento do êxito, a responsabilidade de manter a impulsão para se conquistar os objetivos fixados na manobra informacional e às velhas gerações, entendendo as circunstâncias da nova missão, assumirem o papel de força de acompanhamento e apoio.

No estudo da situação, será necessário transparecer o papel dos militares nos desafios modernos. Iluminar seu enquadramento institucional como órgão de Estado, sua ação na política, o impacto de suas decisões para a defesa e segurança do país e ratificar a servidão a quem os comanda, ao fim e ao cabo, o povo brasileiro.

Quando da definição da missão ficará claro que o mundo mudou. O domínio da opinião pública ganhou tamanha relevância que se qualificou como um dos principais fatores de sucesso da instituição. A velocidade de difusão e o alcance de projeção das notícias exigirão profunda readaptação na gestão da corporação. O tempo para a escolha da linha de ação que enfrente um determinado problema estará cada vez mais exíguo e a eficiência no campo de batalha multidimensional será proporcional à rapidez com a qual o chefe informa a seus subordinados a sua intenção e a ponha em prática.

Nessa configuração moderna, as experiências vivenciadas no passado serão balizas, mas não antolhos, na solução dos problemas postos na mesa para decisão dos chefes de plantão.Como conclusão, trago dois aspectos que entendo relevantes e que tangenciam a questão do pacto geracional, ora em discussão.

O primeiro, soldados são estudiosos da história militar. Sabem da importância da máxima do pequeno corso: dividir para conquistar. Logo, constantemente devem se perguntar: a quem interessa dividi-los? O segundo, o peso de conduzir as Forças está sobre os ombros do comandante e do alto-comando de hoje. Já o foi do comandante e do alto-comando de ontem. E será do comandante e do alto-comando de amanhã.

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