Crise diplomática

O insulto de Lula

A política de genocídio nazista foi tão cruel e violenta que marcou os espíritos. Ninguém quer ver repetir-se o horror daqueles tempos

Opiniao 2102 -  (crédito: Caio Gomez)
Opiniao 2102 - (crédito: Caio Gomez)
postado em 21/02/2024 06:00

Fico imaginando a cena. Vejo um Lula que, apesar do incentivo de seus áulicos, hesita em puxar o gatilho. E a torcida: "Vai firme, Lula, não tem perigo, que o gatilho está travado!". Depois de muita hesitação, Luiz Inácio decide e aperta o dedo com força. Desastre! O gatilho não estava travado, e o tiro sai, mortal.

Não sei até que ponto Lula se deixa influenciar por seu séquito empoeirado, de gente enrijecida e ideologizada, mas orgulhosa da própria sapiência. Tanto faz, porque o autor do tiro é aquele que aperta o gatilho. Luiz Inácio será sempre pessoalmente responsabilizado pelo que diz.

Lula não é um caso único. O fenômeno é recorrente: homem público em viagem ao exterior faz às vezes declarações estranhas, contrastantes com a doutrina que deveria estar defendendo. Já assisti a episódios envolvendo diferentes líderes. Até o papa Francisco, no enlevo de ares estrangeiros, já deslizou.

Fato é que Lula já disse coisas de arrepiar o cabelo, pronunciou frases que contrastam com a neutralidade e a equidistância que a diplomacia brasileira tradicionalmente exibe diante de conflitos externos. Ele já se posicionou ostensivamente simpático a Putin e avesso à causa ucraniana. Já estendeu tapete vermelho para o ditador Maduro enquanto os demais líderes sul-americanos pisaram o chão nu. As enormidades pronunciadas por Lula — especialmente quando em viagem ao exterior — são muitas. Não vale a pena elencá-las todas.

Holocausto é termo dos tempos bíblicos, de etimologia controversa, que nos chegou por meio do grego antigo. Na sequência dos malfeitos da Alemanha nazista, a palavra deixou o contexto da História da Antiguidade, ganhou H maiúsculo e passou a designar o massacre sistemático de judeus perpetrado nos campos de concentração da Segunda Guerra.

A política de genocídio nazista foi tão cruel e violenta que marcou os espíritos. Ninguém quer ver repetir-se o horror daqueles tempos. Tudo foi feito para banir a ideologia nazi-fascista da face da Terra. Na Europa, que assistiu de mais perto às atrocidades daqueles tempos, a legislação de numerosos países proíbe gestos, sinais e palavras que lembrem a barbárie: é proibido macaquear saudações nazistas ou exibir insígnias daqueles tempos.

Todo negacionismo da exterminação dos judeus nas câmaras de gás é ilegal. Um discurso, feito em público como o que Lula pronunciou, é passível de processo, quiçá de encarceramento. Nenhum dirigente no mundo, nem mesmo os aiatolás do Irã, piores inimigos de Israel, ousaram até hoje fazer a comparação que Lula fez — entre o Exército israelense e as hordas nazistas.

O resultado da fala desastrada é a humilhação em dose múltipla. Lula é declarado "persona non grata" em Israel, sinônimo de "impedido de visitar". Mais ainda: nosso presidente é instado a pedir desculpa por suas palavras. Nosso embaixador é tratado de ignorante e levado ao Memorial do Holocausto "para aprender o que os nazistas fizeram com os judeus nos anos 1940".

Luiz Inácio teve direito a mais espinafradas. Israel Katz, ministro do Exterior de Israel, cuja família foi dizimada pelos nazistas: "A fala de Lula da Silva profana a memória daqueles que morreram no Holocausto".

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel: "Lula cruzou a linha vermelha. Suas palavras são vergonhosas e alarmantes. Trata-se de banalização do Holocausto e uma tentativa de prejudicar o povo judeu e o direito de Israel de se defender".

Dani Dayan, presidente do Memorial do Holocausto: "Os comentários de Lula representam um antissemitismo flagrante e uma combinação ultrajante de ódio e ignorância".

Yoav Gallant, ministro da Defesa: "Acusar Israel de perpetrar um Holocausto é um ultraje abominável".

Até Yair Lapid, líder da oposição, se manifestou: "Os comentários de Lula demonstram ignorância e antissemitismo".

Registre-se que, nessa derrapada fenomenal, dizer que a fala "foi tirada de contexto" não vai funcionar. Essa desculpa, comum no Brasil, não vale lá fora.

Lula da Silva parece ter incorporado a síndrome de ser pária de Bolsonaro. É curioso como sempre escolhe o lado errado da História. Fica com Putin e despreza a Europa; apoia ditadores e desdenha a democracia; apoia o povo palestino e odeia o povo israelense.

É extremamente preocupante. Um Lula em perceptível processo de envelhecimento, que se aplica a tornar públicas suas convicções pessoais, é um risco na cerzidura de nossa esgarçada democracia, tarefa para a qual foi eleito. Do jeito que vai, ele está se tornando o melhor cabo eleitoral de nossa estridente e folclórica extrema-direita. 

JOSÉ HORTA MANZANO, Empresário

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