Saúde

O peso da magreza: por uma nutrição sem estereótipos

Estereótipos são conceitos ou imagens preconcebidas, padronizadas e generalizadas pelo senso comum. Normalmente, são utilizados para delinear e rotular distinções quanto à aparência e ao comportamento

Você já comparou o seu corpo e a sua alimentação com os de outras pessoas? A determinação na busca pelo corpo magro está atrelada ao ver e ser visto (seja na vida real ou virtual) -  (crédito: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
Você já comparou o seu corpo e a sua alimentação com os de outras pessoas? A determinação na busca pelo corpo magro está atrelada ao ver e ser visto (seja na vida real ou virtual) - (crédito: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
postado em 02/04/2024 06:00

Rodrigo Daniel Sanches* e Rosana Nogueira**

O filme alemão Corra, Lola, corra (Lola Rennt, 1998), de Tom Tykwer, é uma metáfora da velocidade. Fiel ao título, a protagonista corre alucinadamente durante quase toda a projeção. Assim como Lola, que precisa correr para salvar o namorado em apuros, o sujeito contemporâneo precisa correr para salvar a si mesmo. Incapaz de ficar parado, corre para obter sucesso e, inclusive, um corpo perfeito. Paradoxalmente, enquanto pensa que corre para fugir dos estereótipos, corre cada vez mais em sua direção.

Estereótipos são conceitos ou imagens preconcebidas, padronizadas e generalizadas pelo senso comum. Normalmente, são utilizados para delinear e rotular distinções quanto à aparência e ao comportamento. Na atualidade, circulam velozmente e arbitrando sobre tópicos variados, da alimentação e saúde ao culto ao corpo, da moda à idealização da gravidez.

Dois exemplos de estereótipos são o culto à magreza e o terrorismo nutricional. Em Da leveza: rumo a uma civilização sem peso (Ed. Manole), o filósofo e sociólogo francês Gilles Lipovetsky pontua que a leveza preenche cada vez mais nosso mundo material e cultural. Em relação ao corpo, tornou-se um valor, um imperativo social.

Os estereótipos sobre o corpo, especialmente o feminino, parecem não deixar margem para outros formatos corporais. São imagens que circulam na mídia em geral, especialmente nas redes sociais, de silhuetas magras ou sem qualquer resquício de gordura.

Ao afirmarem a vitória simbólica do leve sobre o pesado, os estereótipos aumentam a obsessão pelas dietas da moda, exercícios, medicamentos, procedimentos estéticos e alimentos que prometem dizimar o peso.

Você já comparou o seu corpo e a sua alimentação com os de outras pessoas? A determinação na busca pelo corpo magro está atrelada ao ver e ser visto (seja na vida real ou virtual). O corpo deve ser mostrado. E o modelo triunfante da magreza, invejado e copiado a qualquer custo, torna-se um novo peso.

Os dizeres sobre a alimentação e nutrição também apresentam inúmeros estereótipos. Seja endeusando um alimento ou o mortificando — em muitos casos, difundindo informações falsas e sem nenhuma base científica.

Quem disse que dieta é o ato de emagrecer? Para os gregos, dietética era uma terapia curativa que prescrevia alimentos e maneiras específicas de alimentar-se. Ser muito gordo ou muito magro era sinal de um corpo não saudável. Diferentemente de outros períodos históricos, as sociedades modernas são lipofóbicas: odeiam a gordura e o corpo gordo.

Na esteira da lipofobia e, diferentemente do que consta no dicionário, a palavra dieta ganhou outros sentidos que estão além da preocupação com a saúde. A ideia em voga é subtrair: eliminar, queimar ou perder peso; diminuir ou saciar a fome; diminuir o manequim, secar a barriga.

A aversão a engordar está enraizada no nosso cotidiano, principalmente entre as mulheres. No universo midiático de boa forma, beleza e vida saudável, o corpo da mulher é difundido como perfeitamente magro. E a nutrição, nesse contexto, é vista como um instrumento de formatação corporal. É preciso compreender que a obesidade transcende a mera força de vontade individual. Ela é parte de uma complexidade que abarca fatores econômicos, influências da mídia e questões sociais. É preciso combater o preconceito e a obsessão pela magreza a qualquer custo, que ocorre frequentemente em detrimento da própria saúde.

Mas será que devemos aceitar essas definições sem questionar? Toda mulher deve ser magra? Em meio à enxurrada de desinformação sobre alimentação, dietas e saúde que circula nas redes sociais e na mídia, o Conselho Regional de Nutricionistas 3ª Região (CRN-3) traz uma contribuição: apresenta a campanha Nutrição Sem Estereótipos (NSE).

 *Consultor científico do Conselho Regional de Nutricionistas 3ª Região (CRN-3), é mestre em Comunicação e Semiótica (PUC/SP), doutor em Psicologia (FFCLRP/USP) e pós-doutor em Comunicação (Faculdade Cásper Líbero/FCL) 

**Presidente do Conselho Regional de Nutricionistas 3ª Região (CRN-3), é mestre em Educação (FE/Unicamp), doutora em Alimentos e Nutrição (FEA/Unicamp)

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