OPINIÃO

Artigo: Aposto nos cassinos

Um mercado bem regulado e bem fiscalizado é preferível à situação atual. Seria salutar ver os cassinos como vetor eficaz de desenvolvimento para a região mais pobre do Brasil

Lula disse não acreditar que, com a liberação dos cassinos, os mais pobres vão
Lula disse não acreditar que, com a liberação dos cassinos, os mais pobres vão "gastar o que não têm", porque, segundo ele, "o pobre não vai no cassino" - (crédito: Damien Meyer/AFP)

Silvestre Gorgulho

Jogo de azar, estou fora. Sou dos poucos brasileiros que nunca jogou na Loteria Esportiva e na Mega-Sena. Nem nos jogos de internet, sempre em "sites" estrangeiros, que não têm a quem reclamar. Mas recomendo que o Brasil seja aberto aos cassinos. 

Vamos voltar no tempo. Em 30 de abril de 1946, às 23 horas, José Caribé da Rocha, diretor do Cassino Copacabana Palace, dirigiu-se com passos firmes até a mesa de roleta, cercada de apostadores. Pediu silêncio. Com a voz embargada, em tom solene, proclamou: "Senhoras e senhores, façam suas apostas para a última rodada de roleta no Brasil". Caribé gira o cilindro, solta a bolinha de marfim e, tomado pela emoção, canta: "Preto, 31".

E o futuro se complicou para mais de 60 mil funcionários diretos e muitos artistas dos 71 grandes cassinos brasileiros que funcionavam dentro da legalidade. Após a proibição, a totalidade dos turistas estrangeiros que costumava vir ao Brasil para aproveitar os cassinos, os shows de entretenimento e as praias, rumou para países vizinhos, como Paraguai, Uruguai, Argentina e Chile, ou, até mesmo, para Las Vegas. E os brasileiros seguiram o mesmo roteiro.

É bom lembrar. Os cassinos chegaram ao Brasil durante o Império. Tinham a aprovação de D. Pedro II. Passaram para a clandestinidade em 1917, depois de consolidada a República. Liberados em 1934 por Getúlio Vargas, eram fábricas de sucesso. 

Por que o Brasil não pode plantar no semiárido a sua Las Vegas? A cidade, em Nevada, é polo de desenvolvimento e colhe, hoje, turismo, tecnologia, cultura e lazer em pleno deserto de Mojave. E não foi o governo que fez. O governo apenas liberou para a iniciativa privada fazer.

No Deserto de Mojave, chove menos que na região mais árida do nordeste brasileiro. Tem apenas o Lago Mead, que abastece a cidade. E, em Las Vegas, a impressão que se tem é que reina o desperdício de luz, de água, de tudo. 

Sou a favor de se liberar imediatamente a construção de cassinos no Brasil com a seguinte condição: definir uma área dentro do polígono das secas, no coração do sertão, onde o IDH for mais baixo. Uma área (estudos técnicos e políticos irão estabelecer) de mais ou menos 25 mil km². Pouco maior que Sergipe. As justificativas são muitas, e as consequências, imediatas. Entre elas: 

 O mercado do jogo vai buscar as soluções tecnológicas para cumprir todas as metas. A tecnologia resolve a questão da água, condições do clima, construção de hotéis, casas de shows, aeroportos e estradas. Nasceria uma infraestrutura de crescimento onde o ambiente é hostil e adverso.

No lugar de receber Bolsa Família, a população receberia emprego e oportunidades de melhor qualidade de vida pela construção de escolas, universidades, hospitais, bancos, empresas de turismo, comércio, igrejas, shoppings, estações de tevês e rádios, centro de convenções e restaurantes.

Uma região extremamente improdutiva e com sérios problemas sociais renasceria no oásis de uma economia de mercado voltada para o turismo e o entretenimento. 

Uma ação revertida. Seria como a volta da Asa branca, de Luis Gonzaga. Além de estancar o êxodo para as capitais dos estados, haveria oportunidade de retorno para o sertão. O movimento provocaria o esvaziamento das grandes metrópoles do Nordeste e Sudeste para as oportunidades advindas da construção de cidades-cassinos na região. É a oportunidade do retorno para o sertão com emprego e dignidade.

Nascerá um movimento para agregar valores. Hoje, não existe mais a figura do jogador que aposta US$ 100 mil em uma noite. Las Vegas ensina que 90% do movimento dos cassinos vêm dos caça-níqueis, da apresentação de grandes espetáculos, shows, lançamentos de produtos, turismo de ocasião, feiras, conferências e negócios variados de cultura e lazer.

Perfeita extensão turística. Além da atração dos cassinos, as praias nordestinas, as cidades históricas e os parques nacionais e estaduais iriam lucrar com a força do turismo. O semiárido nordestino é rico em diversidade biológica e cultural. Verdadeiras joias da natureza estão prontas para receber visitantes. Estão na região o Parque Nacional da Serra das Capivaras, em São Raimundo Nonato, no Piauí; o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, em Barreirinhas; o Parque Nacional de Sete Cidades, situado na parte nordeste do Piauí, abrangendo os municípios de Piracuruca e Piripiri; o Parque Nacional de Ubajara, que é o menor dos parques nacionais, cuja maior atração são as grutas, na Serra de Ibiapaba, noroeste do Ceará.

O Senado deve votar a abertura dos jogos, cujo projeto de lei foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A verdade é simples: um mercado bem regulado e bem fiscalizado é preferível à situação atual. Na prática, o Brasil tem uma proibição que nunca funcionou. Seria salutar ver os cassinos como vetor eficaz de desenvolvimento para a região mais pobre do Brasil. Nessa ideia, eu aposto.

 *jornalista e ex-secretário de Estado de Cultura e de Comunicação de Brasília

 

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postado em 09/07/2024 06:00 / atualizado em 09/07/2024 16:01
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