
Sérgio Moriconi*
Este texto tinha inicialmente o título de "E não é só isso", o que, convenhamos, era vago, nebuloso, genérico e aberto demais. Mas a explicação viria logo em seguida. A histórica indicação de Ainda estou aqui para concorrer ao Oscar de melhor filme do ano concedido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tem um significado que transcende o aspecto estritamente cinematográfico. E o combo ainda inclui as indicações de melhor filme internacional — aqueles falados em língua estrangeira e de países não norte-americanos — e de melhor atriz para Fernanda Torres.
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Houve e há um verdadeiro frenesi no país em relação à possibilidade de alguma dessas conquistas se ratificar, especialmente a inédita de Melhor Filme. Uma glória ansiada, muito embora o filme de Walter Salles tenha ganho inúmeros prêmios internacionais, entre eles o recente Globo de Ouro de Melhor Atriz para Fernanda e de melhor roteiro no Festival de Veneza para Murilo Hauser, Heitor Lorega e Marcelo Rubens Paiva, este último o autor do livro que dá origem à obra cinematográfica."E não é só isso", eu estava dizendo, a conquista, ou mesmo a indicação do Oscar, em sua categoria mais prestigiosa, tem uma relevância que vai além do cinema. Ela se dá em pelo menos três planos: de mercado, simbólico e político.
Do ponto de vista do mercado, a indicação de Ainda estou aqui eleva o cinema brasileiro a outro patamar de interesse. O Oscar tem o poder de desencadear uma espiral superpositiva em vários aspectos. Apenas uma indicação numa das principais categorias já valoriza muito uma produção dando-lhe enorme visibilidade. No caso de Ainda estou aqui, se o filme ou a Fernanda ganharem em suas respectivas categorias, isso, consequentemente, implicará aumento significativo também do prestígio do cinema brasileiro no exterior. O Oscar tem o poder de deixar introjetado para o mundo que o Brasil tem condições de fazer produções de grande valor. Claro, não vamos nos esquecer que o prêmio tem antes de tudo implicações mercadológicas. Isso já pode ser facilmente constatado pelo aumento da audiência no Brasil, mais de 3 milhões e meio de espectadores, e as documentadas filas quilométricas em sessões do filme na França, em Portugal e na Itália.
"E não é só isso". Simbolicamente, Ainda estou aqui abre um arco de grande amplitude de reflexão no Brasil e fora dele. Aqui, ele possibilita, especialmente para um público mais jovem, um resgate da memória dos tempos duros e das iniquidades da ditadura militar. E faz isso de uma forma muito singular. Walter Salles constrói o seu filme de uma forma plácida e civilizada. Não há nada de panfleto nem de melodrama, como é o caso do também "oscarizado" Central do Brasil, estrelado pela mãe de Fernanda Torres, a dama do teatro, da televisão e do cinema brasileiro Fernanda Montenegro. Ou, se preferirem, Ainda estou aqui é um "melodrama seco", fazendo aqui alusão, ainda que um tanto canhestramente, às óperas-secas. Pois é isso mesmo. Numa das dezenas de entrevistas que deu, Fernanda diz que uma das coisas que mais a impressionaram na direção do filme foi a forma como Walter Salles se invisibilizou. Ego zero. Não há arroubos técnicos nem de linguagem, é uma dramaturgia clássica, um drama familiar que deixa passar pelas frestas uma circunstância trágica da história brasileira.
Também não há violência física nem sangue derramado, a não ser a sutil visão de gotas secas no chão da sala em que Eunice Paiva presta depoimento num quartel da polícia, indicando que ali era um lugar de tortura. Eunice é a estoica personagem retratada no filme por Fernanda. "Ela é uma verdadeira heroína brasileira", diz a atriz. Advogada, símbolo da luta contra a ditadura militar brasileira. Depois da morte do marido, Rubens Paiva, engenheiro e político assassinado pela ditadura militar, Eunice forma-se em direito e passa a trabalhar ativamente em prol dos direitos humanos e das causas indígenas. Salles tem a mesma compreensão que Fernanda tem em relação a Eunice. Trata sua personagem ao mesmo tempo com discrição e pathos. Um equilíbrio difícil. Como uma sinfonia de Haydn. Lembramos que o diretor não dirigia um longa-metragem de ficção fazia mais de 10 anos!
"E não é só isso". O filme chega às salas de cinema dos diferentes continentes num contexto político desafiador. Certamente, Ainda estou aqui provocará distintas reflexões mundo afora. Como assimilarão a obra os europeus de Meloni, do Chega, da direita neonazista alemã e da, nem tanto, francesa? No Continente Sul-americano e no México, o filme cumpre a mesma função didática de resgate da memória que se cumpre no Brasil. A exceção, claro, é a Argentina de Milei. Assim como o governante anterior do Brasil, Milei desfinanciou todas as instituições ligadas à arte (o cinema em especial) e à memória da ditadura militar argentina. E os Estados Unidos? Será que o norte-americano médio vai ter a compreensão histórica de que o seu país teve um papel fundamental no drama que se desenvolve na tela? Drama introjetado no microcosmo de uma família. Bem faz Fernanda Torres que, nas suas entrevistas, tem dito que toda a conjuntura política do filme é fruto da "guerra-fria". Para meio entendedor, meia palavra basta.
Professor e crítico de cinema*