A sensação de insegurança está em alta na Asa Norte. E o ataque a uma senhora entre a SQN 102 e 103, na noite de terça-feira, resume bem o sentimento que tomou conta dos moradores. Em meio ao aumento da população em situação de rua por conta das festas de fim de ano, com a ocupação constante dos pilotis dos blocos residenciais, bandidos aproveitam para se infiltrar e praticar casos recorrentes de violência a pedestres.
No caso em questão, um rapaz de 20 anos, magro, avançou em direção à idosa para assaltá-la e a jogou no chão. Levou a niqueleira que carregava. Não portava bolsa, celular ou relógio exatamente por medo. A vítima acabou ferida em um dos braços por conta da queda. Adolescentes que jogavam bola na quadra notaram a movimentação e correram atrás do assaltante, que conseguiu fugir. A PM chegou com rapidez, mas não localizou o suspeito após rondas na região.
Entre os comerciantes, o temor faz parte do dia a dia. Uma das quadras mais badaladas, a 413, passou a ter segurança privada em quase todos os restaurantes. Foi a saída encontrada para evitar a perda de clientes, que pedem inclusive para serem acompanhados até o carro ou enquanto esperam o transporte por aplicativo.
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O primeiro ponto a ser analisado é que a escalada da violência não pode ser compreendida de forma isolada. Ela se entrelaça ao crescimento visível da população em situação de rua, fenômeno que se intensifica em períodos festivos e expõe não apenas a vulnerabilidade social, mas também a fragilidade das políticas públicas destinadas a acolhê-las. A presença mais marcante nas entrequadras, contudo, não deve ser confundida automaticamente com criminalidade. É um erro recorrente que alimenta estigmas e dificulta soluções de longo prazo. O problema real está na incapacidade do poder público garantir assistência social eficaz, saúde mental, abrigo seguro e reinserção produtiva para quem vive às margens.
A associação simplista entre pobreza e violência cria terreno fértil para respostas imediatistas, como o aumento do policiamento ou a contratação de segurança privada. Embora medidas emergenciais sejam compreensíveis em um cenário de medo generalizado, elas não atacam a raiz da questão. Estudos e experiências de outras capitais mostram que ações integradas, envolvendo assistência social, urbanismo, segurança pública e políticas de emprego, produzem resultados mais consistentes. Quando o Estado se ausenta, o espaço público se deteriora, e a convivência entre moradores, comerciantes e pessoas em situação de rua torna-se cada vez mais tensa.
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É preciso ainda reconhecer que o medo, quando se torna permanente, corrói o tecido social. A vida comunitária se retrai, os espaços antes ocupados por famílias passam a ser evitados e a lógica da suspeita constante se impõe. Em cidades planejadas como Brasília, que nasceram sob a premissa da convivência cidadã, esse processo é especialmente doloroso. Não se trata de romantizar o passado, mas de compreender que a degradação dos espaços compartilhados implica perda coletiva. Restabelecer a confiança nas ruas exige mais que rondas policiais: requer compromisso político, planejamento urbano atento e uma rede de proteção social capaz de oferecer oportunidades reais. Somente assim será possível construir ambientes que inspirem menos temor e mais pertencimento.
