OPINIÃO

Viver o tempo

Não podemos perder tempo — e o paradoxo é que, cada vez mais, deixamos que ele derreta, como nos quadros de Salvador Dali

Relógio -  (crédito: Reprodução/Freepik)
Relógio - (crédito: Reprodução/Freepik)

O tempo como conhecemos é uma extraordinária invenção humana. Milhares de anos atrás, sumérios, egípcios e, mais recentemente, gregos dividiram o intervalo entre o nascer e o pôr do sol em 12 partes possíveis de serem contadas com facilidade — as três juntas de cada um dos quatro dedos das mãos, excluindo-se os dedões. Quando a luz natural se extinguia, as estrelas remanescentes ajudavam a calcular o quanto se faltava para o recomeço do ciclo.

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A divisão do dia em fragmentos curtos, contudo, tinha muito menos importância para os antigos do que o ciclo das estações, que definiam quando plantar e colher, trabalhar ou descansar. Por volta dos séculos 12 e 13, porém, com o crescimento das cidades e do comércio, as horas (já divididas em períodos de 60 minutos) adquirem novo significado. O tempo é monetizado. Tempo é dinheiro. 

Segundo o medievalista francês Jacques Le Goff, as horas ganharam tamanha importância que, quando surgiram na Europa os primeiros relógios mecânicos, era crime danificá-los. Cada cidade tinha o seu, instalado geralmente no alto de torres — jamais dentro de casa. O tempo tornou-se instrumento de regulação coletiva, controlado pelas autoridades religiosas ou civis. Tempo é poder. 

Depois disso, nunca mais fomos senhores do nosso próprio tempo. Escravos das horas, dos compromissos, mesmo fora da jornada de trabalho, é o relógio quem nos controla. Não podemos perder tempo — e o paradoxo é que, cada vez mais, deixamos que ele derreta, como nos quadros de Salvador Dali. 

Na ânsia de acompanhar tudo o que acontece em todo canto, não paramos mais de postar e de consumir as postagens alheias — nosso tempo, tão curto, é entregue a redes sociais e corporativas — quem não se mostra não é visto. Tempo é aparência. 

Em 2024, a longevidade do brasileiro chegou a 76,6 anos, a mais alta até hoje. Isso significa que, em média, uma pessoa nascida naquele ano terá 671.016 horas para aproveitar. Que ela, e todos nós, façamos o melhor com as que nos restam. Que, em 2026, lembremos-nos de que tempo não é dinheiro, poder nem aparência. Tempo é vida. 

 


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postado em 02/01/2026 06:01
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