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Southern Spear e a Lei da Selva

Cuba foi mencionada nominalmente, o que sinaliza que o episódio venezuelano não deve ser visto como exceção, mas como precedente

opini0401 -  (crédito: kleber)
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» GUNTHER RUDZIT, Professor de relações internacionais da ESPM e professor convidado da Universidade da Força Aérea (Unifa)

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A entrevista concedida por membros do governo de Donald Trump, incluindo o próprio presidente, após a operação militar denominada Southern Spear, foi decisiva para compreender o que tende a vir pela frente no sistema internacional e, em especial, no hemisfério ocidental. Mais do que esclarecer detalhes operacionais, o discurso oficial funcionou como mensagem estratégica, dirigida tanto a aliados quanto a adversários.

Do ponto de vista estritamente militar, a operação revelou de forma explícita a gigantesca superioridade dos Estados Unidos diante das capacidades defensivas venezuelanas. Os sistemas de defesa aérea de origem russa e os equipamentos chineses incorporados pelas forças locais mostraram-se incapazes de oferecer qualquer grau relevante de dissuasão. Segundo as informações divulgadas, mais de 150 aeronaves, envolvendo plataformas de ataque, reconhecimento, guerra eletrônica e transporte estratégico, garantiram a incursão e a extração do principal alvo. Trata-se de um dado relevante: Nicolás Maduro sempre figurou entre os líderes que mais investiram em mecanismos de proteção contra uma ação desse tipo, o que amplia o caráter demonstrativo da operação.

O aspecto militar, no entanto, é apenas uma camada do episódio. Politicamente, a entrevista deixa claro que a National Security Strategy publicada recentemente deve ser levada a sério. O documento não se limita a diretrizes abstratas, mas se traduz em ações concretas, sobretudo no que diz respeito à presença e à influência de potências extra-hemisféricas em setores considerados estratégicos. Ainda que a China não seja mencionada diretamente nas declarações, sua presença econômica, tecnológica e logística na Venezuela aparece como pano de fundo implícito da decisão americana.

Há, contudo, zonas de ambiguidade que merecem atenção. Em primeiro lugar, não ficou claro o que Trump quis dizer ao afirmar que "eles", membros de seu governo, iriam administrar a Venezuela. A declaração sugere algum tipo de tutela política ou administrativa transitória, mas sem qualquer especificação institucional, jurídica ou temporal. Essa indefinição não é casual. Ela reforça a ideia de que, nesta nova fase, a clareza normativa cede espaço à imposição de fatos consumados.

Em segundo lugar, a entrevista introduz um elemento de dissuasão ampliada ao indicar que outros governos poderiam ter destino semelhante. Cuba foi mencionada nominalmente, o que sinaliza que o episódio venezuelano não deve ser visto como exceção, mas como precedente. A lógica é simples: a presença considerada hostil no hemisfério ocidental passa a ser tratada como linha vermelha, independentemente do discurso multilateral ou do direito internacional vigente.

Nesse sentido, a operação Southern Spear não deve ser interpretada apenas como ação pontual, mas como marco simbólico de uma nova era. Trata-se da consolidação de uma dinâmica que muitos já descrevem como a Lei da Selva, na qual o direito internacional e o multilateralismo permanecem disponíveis, mas apenas quando convergem com os interesses das grandes potências. O episódio deixa claro que, para o bem ou para o mal, entramos em uma fase em que poder, demonstração de força e hierarquização de espaços estratégicos voltam a organizar o sistema internacional de forma explícita.

 


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postado em 04/01/2026 06:01
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