Editorial

Visão do Correio: Tarifaço chinês sobre a carne expõe dependência

Em síntese, a salvaguarda chinesa é um sintoma da transição para uma ordem comercial mais fragmentada e menos previsível. Para o Brasil, o objetivo imediato é mitigar perdas

As estimativas da Abiec indicam que as exportações brasileiras para a China em 2025 poderiam alcançar 1,7 milhão de toneladas -  (crédito: Reprodução/Freepik)
As estimativas da Abiec indicam que as exportações brasileiras para a China em 2025 poderiam alcançar 1,7 milhão de toneladas - (crédito: Reprodução/Freepik)

A decisão da China de aplicar salvaguardas às importações globais de carne bovina marca uma inflexão relevante no comércio internacional e ajuda a iluminar uma mudança mais ampla no processo de reorganização das cadeias globais de valor. Não se trata apenas de um ajuste de política comercial, mas de um movimento com forte conteúdo geopolítico, cujos efeitos extrapolam o setor pecuário e alcançam a arquitetura do comércio global.

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Do ponto de vista econômico imediato, o impacto potencial para o Brasil é expressivo. A fixação de uma cota anual de cerca de 2,7 milhões de toneladas, com participação brasileira limitada a 41,14% (aproximadamente 1,1 milhão de toneladas), cria um descompasso evidente em relação à realidade atual do mercado. As estimativas da Abiec indicam que as exportações brasileiras para a China em 2025 poderiam alcançar 1,7 milhão de toneladas. A diferença entre esse volume esperado e a cota estabelecida sugere uma redução potencial da ordem de 600 mil toneladas, com efeitos diretos sobre preços, fluxo de abates, renda do produtor e organização da cadeia produtiva já no início de 2026.

Enquanto as exportações dentro da cota seguem sujeitas à tarifa de 12%, os volumes excedentes passam a enfrentar uma sobretaxa adicional de 55%, elevando o custo total para 67%. Na prática, isso é forte desestímulo à continuidade dos embarques acima do limite fixado, transformando a salvaguarda em contenção efetiva de oferta.

A medida está amparada pelas regras da Organização Mundial do Comércio, que permitem salvaguardas diante de surtos de importação. Contudo, sugere motivações que vão além da lógica comercial. A China é responsável por mais da metade das exportações brasileiras do setor; o Brasil, o principal fornecedor do mercado chinês, com histórico de confiabilidade, escala preços competitivos e cumprimento de exigências sanitárias.

Entretanto, a decisão dialoga com o pós-tarifaço promovido por Donald Trump. A partir daquele momento, a fragmentação do comércio global se acelerou, e grandes economias passaram a subordinar suas políticas comerciais a critérios geopolíticos. A China, assim como o México em outros setores, sinaliza se tornar também uma ferramenta de gestão estratégica, segurança alimentar e barganha internacional.

Articulada pelo Itamaraty, MDIC e Mapa, em coordenação com o setor privado e com o apoio político da Frente Parlamentar da Agropecuária, a reação do governo brasileiro  revela consciência dessa nova realidade. A tentativa de excluir da cota os volumes já em trânsito, revisar o "share" brasileiro com base em dados mais recentes e questionar a medida nos fóruns bilaterais e multilaterais aponta para uma estratégia defensiva clássica. Mas o episódio impõe um debate estratégico: a excessiva concentração em um único mercado, ainda que altamente relevante, torna-se um risco sistêmico em que decisões comerciais passam a responder a cálculos políticos e geopolíticos.

Em síntese, a salvaguarda chinesa é um sintoma da transição para uma ordem comercial mais fragmentada e menos previsível. Para o Brasil, o objetivo imediato é mitigar perdas. O desafio estrutural, porém, é repensar nossa inserção internacional em um cenário no qual o comércio passa a ser, de forma aberta, um instrumento de poder.

 


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postado em 03/01/2026 06:01
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